REVISTA ELETRÔNICA DA BIBLIOTECA VIRTUAL CONSUELO PONDÉ – N.4 AGO DE 2016. ISSN 2525-295X

ARTIGO

 

 

CENTRO DA CIDADE: QUESTÕES DE DEMOLIÇÕES E CONSTRUÇÕES

 

Mary Weinstein 1

 

CASA DE GLAUBER head

Casa do século XX onde viveu Glauber Rocha

 

Resumo: Este trabalho busca registrar um dos aspectos do crescimento de uma cidade de porte médio onde ocorre a edificação de um novo grande shopping center e onde, ao mesmo tempo, imóveis situados no centro continuam a ser demolidos, cedendo espaço para a criação de serviços, como estacionamentos e lava-jatos, enquanto novos prédios não são edificados nos terrenos. Estas ações em Vitória da Conquista, no interior da Bahia, têm potencial para interferir na dinâmica social da cidade cuja paisagem urbana vem sendo compartilhada por moradores como local de maior tradição. Buscamos mostrar como esta situação pode contribuir para um processo de degradação do centro, fazendo com que estas revalorizações venham a ser sentidas, a exemplo de outras cidades que passaram pelo desinteresse em manter o seu centro como referência viva, propondo-se posteriormente, como solução, as revitalizações.

 

 

Introdução

 

Com base em dados coletados pelo Projeto de Pesquisa e Extensão Jornalismo, Cidade e Patrimônio Cultural, em andamento na Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (Uesb), constatamos transformações que vêm ocorrendo em Vitória da Conquista, município situado no interior da Bahia que tem registrado notável crescimento nas últimas décadas. Referimo-nos, precisamente, à perda recorrente de casas do século passado que deixam de compor a memória urbana local. Ao mesmo tempo, ocorre a construção de um novo shopping center que ocupará 67 mil metros quadrados na Avenida Olívia Flores, uma das que mais se valorizam na cidade. O shopping tem potencial previsto para promover novas e significativas mudanças no tabuleiro urbano desta cidade de aproximadamente 346 mil habitantes, conforme o censo do IBGE de 2015, e em cujo centro estabelecimentos comerciais movimentam a economia da região, sendo este perceptivelmente vivo e movimentado.

 

A proposta deste trabalho é promover uma reflexão sobre a cidade de médio porte que cresce sem se tornar inóspita ou de difícil habitabilidade, até que passa a registrar mudanças que lhe remetem a outras que também perderam características importantes, ao longo do próprio desenvolvimento. Algumas destas serviriam para manter o elo de identificação dos seus moradores com o local em que vivem. Sem se aprofundar na inquestionável e permanente necessidade, nem sempre suprida, de planejamento urbano, nem nas complexidades decorrentes desta carência, a presente problematização pontua apenas, e de forma quantitativa, a condição que ocasiona alterações que podem comprometer a qualidade de vida e de convivência no espaço urbano. Isto devido à destruição de uma memória construída, com a aquisição de “novidades” e “progressos”, quase sempre sem estruturação prévia suficiente.

 

As cidades se reformulam encontrando adequações para mudanças requeridas pelo próprio uso. Ao descrever as cidades e seus diversos períodos de evolução, Lefebvre (2001) explica as redes que se estabelecem entre elas. “A própria cidade é uma obra, e esta característica contrasta com a orientação irreversível na direção do dinheiro, na direção do comércio, na direção das trocas, na direção dos produtos”, diz o autor sobre o momento pós-medieval, quando o centro urbano está prestes a crescer e a se constituir na forma em que aparece hoje, tendo o Estado como gestor. Ainda, na descrição de Lefebvre (2001, p. 18), posteriormente, abandonam-se os centros buscando-se as periferias, os locais afastados para morar, ou, como no caso de Nova York e Paris, em que os mais abastados mantêm suas moradas no centro, ao redor do Central Park e no Marais, respectivamente, o que nos faz concluir que o centro permanece como referência por manter a sua história representada no texto de suas edificações. A relação entre configurações pré-existentes e a cidade que se atualiza é uma questão a ser pensada. O medo da desfiguração não é o do desaparecimento das lembranças. Mas ele traduz o desejo da perenidade de um sentido histórico, que impõe uma ordem à memória coletiva. Ele se mantém pela ameaça da perda de parâmetros de comparação e de um critério de veracidade. (JEUDY, 1990, p. 54).

 

As cidades, suas circunstâncias e as mudanças registradas nelas não são referências isoladas nos estudos de Halbwachs (2006, p. 30). Ele as utiliza para sustentar o que define como memória, que é justamente a partir de vivências pessoais e acontecimentos que ocorreram para muitos, coletivamente, mesmo com percepções diversas e diferenças de pessoa para pessoa.

 

A cultura compõe a história da cidade e o patrimônio vai contribuir para aspectos de sua identificação. Não se produz cultura, nem patrimônio, nem identificação, repentinamente. Estas são construções que dependem de continuidade para que se sedimentem e se fixem sem que se questione sobre em que condições se tornaram tão representativas a ponto de se tornarem monumento. Conforme Flores (1999, p.12), a palavra monumento vem do vocábulo latino monumentum, que, por sua vez, deriva de monere – o que interpela a memória. Significa aquilo que se destina a transmitir, aprioristicamente, o que será deixado às gerações futuras contrariando o tempo e preservando a cultura.

 

Para tratarmos destas questões, relacionaremos registros de experiências de desconstrução cujos processos são iniciados, muitas vezes, sem que sejam debatidos antes de serem definidos por políticas que nem sempre são publicizadas, para então serem efetivadas ou não. Isto para que fosse evitado o descarte de valores pertencentes às comunidades, como os que estão associados à memória, geralmente com referências fincadas no centro, na sua valorização e sua manutenção, a despeito das possíveis reurbanizações.

 

Salvador é uma das poucas cidades que escolheram abandonar o seu primeiro centro, idealizado pelo arquiteto Luís Dias, contido na poligonal mais ampla que corresponde ao Centro Antigo e ao núcleo antes conhecido como Centro Histórico, que abarca o Pelourinho e adjacências. Houve tentativas de repovoá-lo a partir do Programa de Recuperação, lançado em 1992, quando ocorreu uma gentrificação (MOURAD, 2011) programada pelo próprio governo estadual que assinava a iniciativa, o qual se estendeu por mais de sete etapas distribuídas ao longo de mais de 10 anos. A última delas, a sétima etapa, foi anunciada em 2002, sem que jamais fosse concluída. Ainda sobre o abandono ou deslocamento do centro de Salvador, há os que atribuem à criação do Shopping Iguatemi a principal causa de os moradores estabelecerem residência na Pituba, Itaigara e bairros vizinhos ao shopping, mais afastados, em um prolongamento do que ocorreu na primeira metade do século XX, quando houve a expansão urbana com a ocupação de bairros como Vitória, Barra, Graça e Canela. Aí, predominaram as construções ecléticas, posteriormente também destruídas. Assim como a inauguração do Shopping Iguatemi em 1975, a implantação do novo Centro Administrativo da Bahia, idealizado pelos arquitetos Lúcio Costa e João Filgueiras, o Lelé, em 1972, na Avenida Paralela, contribuiu para o deslocamento do centro.

 

Os professores Milton Santos e Gey Espinheira iam aos jornais relatar as condições em que se encontrava o Centro Histórico. Na Tribuna da Bahia, Santos escreveu o artigo Há uma geografia de Prostituição, publicado em 29 de abril de 1959 – “a ‘limpeza’ da cidade velha – quando o problema não é só policial, soluções exóticas não servem para sanear a zona proibida”. Para Espinheira, o processo de degradação da área do Pelourinho era o resultado da crise econômica do século passado e do livre jogo das forças econômicas na dinâmica de transformação, “que condicionou o tipo específico de crescimento da cidade, causando a desvalorização das zonas de construções antigas”. Essa desvalorização econômica teria conduzido à desvalorização social, “forçando a mobilidade centrífuga dos moradores de maiores posses, e aumentando a força de atração sobre os grupos situados nos quadros mais baixos da hierarquia social” (ESPINHEIRA, 1984, p. 69).

 

Compor uma comparação entre patrimônios culturais de Salvador e Vitória da Conquista não é a nossa intenção, obviamente. Entretanto, buscamos trazer o exemplo do que ocorreu no processo de expansão na primeira cidade para que seja feita uma reflexão sobre a condição do presente processo na segunda. No interior da Bahia, cidade de porte médio, e polo econômico da região Sudoeste do estado, Vitória da Conquista tem papel estruturante e de referência para cerca de 80 municípios. Assim como em outros centros urbanos, muito do que havia do seu casario do século XIX se perdeu, porque foi sendo substituído por novas edificações no século XX que agora, de novo, no XXI, cedem espaço para empreendimentos, em sua maioria estacionamentos para veículos. Coletamos dados para sustentar a tese de que essas ações estão ocorrendo de forma rápida, especialmente no centro, sem que estejam sendo discutidas por moradores, nem nos meios de comunicação que têm a região como foco.

 

 

Vitória da Conquista e seu crescimento

 

Quem na década de 60 considerava o município de Vitória da Conquista apenas para pouso nas viagens entre Bahia e estados do Sudeste, se surpreende com a pujança deste que é apontado como polo de desenvolvimento econômico do Sudoeste baiano, tornando-se referência para cerca de 80 municípios circunvizinhos e a terceira cidade da Bahia. Enquanto as casas estão sendo sistematicamente demolidas no Centro, fazendo com que o seu espaço mais tradicional de convivência comece a perder um dos seus mais importantes atrativos, existe a previsão de inauguração de um novo shopping center, este ano, a cerca de 5,1 kms do centro. A partir destas duas condições, refletimos sobre a ameaça de transformação rápida na composição da cidade e, principalmente, do processo de degradação do centro.

 

O centro de Conquista abriga a administração municipal – a sede da prefeitura está localizada em uma edificação datada de 1912, na Praça Joaquim Correia, construída pelo intendente Maximiliano Fernandes, e inaugurada na gestão de Ascendino Melo, a qual serviu como Quartel da Força e Casa de Cadeia Pública. Também, no centro, estão todas as repartições instaladas em casas do mesmo período, muitas das quais pertencentes à própria prefeitura, e em prédios de dois ou três andares. No centro, também estão as principais agências bancárias que, como em outras cidades, grandes ou pequenas, ocuparam os locais de edificações pré-existentes e se instalaram em novos ou velhos prédios, com padrões construtivos indefinidos. Na Praça Barão do Rio Branco, onde estão os bancos do Brasil e Caixa Econômica, assim como grandes lojas de eletrodomésticos, resta a casa de Dona Zaza, único tombamento estadual, de número 9.745, decretado em 2005. Nesta edificação, funciona um serviço de fotocópias privado. Próximo, estão o Terminal de ônibus Lauro de Freitas e uma feira permanente.

 

 

Demolições na cidade

 

Em janeiro de 2015, uma casa do início do século XX (ver foto 1), situada na Rua 2 de Julho, foi demolida e o espaço do seu lote passou a ser aproveitado como estacionamento no movimentado centro de Vitória da Conquista. A notícia foi veiculada pelo Blog do Anderson (02/01/2015), e nada foi feito para impedir a destruição do notável exemplar.

 

Foto1

Casa do início do século XX demolida em janeiro de 2015

 

Foto: Mary Weinstein

 

 

Na mesma rua 2 de Julho, estreita e movimentada, a venda da casa onde viveu o cineasta conquistense Glauber Rocha (ver foto 2) está sendo negociada. Situado ao lado dela, um prédio com fachadas em vidro espelhado, que foge à escala humana, se destaca na paisagem da cidade, podendo ser visto nitidamente à distância, a partir de outros bairros. Nele está sendo instalado um hospital. Os familiares proprietários da casa onde viveu Glauber Rocha foram sondados pela direção do referido hospital que, se a tivesse adquirido, a derrubaria para utilizar o espaço como estacionamento. As negociações não foram adiante porque a prefeitura de Vitória da Conquista, atendendo a uma expectativa popular e de intelectuais locais, intercedeu demonstrando a intenção de comprar a casa para criação de um espaço memorial do artista.

 

Foto2

Casa do século XX onde viveu Glauber Rocha

 

Foto: João Barreto

 

 

As casas remanescentes do início do século passado ainda são frequentemente derrubadas, sem questionamentos, contribuindo para uma destituição desses testemunhos de edificações representativas de um momento da trajetória da cidade. Houve um período em que foram substituídas por novas construções, geralmente para atividade comercial. No centro, onde há lojas e clínicas em funcionamento, a grande maioria das edificações ou foram derrubadas e substituídas, ou foram adaptadas e passaram a ser sobrados com a fachada frontal vazada por portas “de enrolar”, assim como aconteceu na Avenida Sete de Setembro em Salvador, cujos prédios de empreendimentos comerciais ainda mantêm andares superiores preservados. Esta pesquisa não trata especificamente destas alterações ocorridas nas construções mas sim da transformação em curso, em que se derrubam casas para instalação de estacionamentos ou lava-jatos.

 

As duas casas na Rua 2 de Julho – a que foi demolida em janeiro de 2015 e a que pertence à família de Glauber Rocha – e as demais que vêm sendo suprimidas poderiam ser ou ter sido protegidas pela lei de tombamento municipal nº 707/93. Entretanto, esta lei foi aparentemente esquecida, funcionários da prefeitura a desconhecem e nem mesmo os últimos secretários de cultura têm referência dela. Sua criação e utilização deram-se muito em função da preservação da Serra do Periperi, que era preocupação do ex-prefeito Pedral Sampaio. Tem sido um grande esforço do Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia (Ipac-Ba) e do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) o de incentivar a criação de leis de tombamento nos municípios baianos, devido à impossibilidade de os institutos de proteção a nível estadual e federal se encarregarem de todo o território, inclusive porque em muitos casos os objetos possuem relevância restrita para o lugar onde estão localizados, ou seja, têm valor a nível regional.

 

Em fase inicial, esta pesquisa registra o número de demolições ocorridas no centro de Vitória da Conquista, quando os espaços provenientes das edificações derrubadas apenas servem para suprir a demanda de estacionamentos. Até abril de 2016, 24 ruas e avenidas foram percorridas pelos pesquisadores do Projeto Jornalismo, Cidade e Patrimônio Cultural. Em cada uma delas, foi contabilizado o número de lotes em que ocorreram demolições e a condição em que se encontra cada um deles – se permanece desocupado, se foi instalado estacionamento ou empreendimento de lava-jato (ver quadro 1).

 

 

Quadro 1: Demolições

 

Ruas e avenidas situadas no centro

de Vitória da Conquista

Terrenos onde havia edificações
Vagos Estacionamentos Lava-jatos
Av. João Pessoa 3 3 2
Rua 2 de Julho 5
Av. Otávio Santos 5 10 1
Av. Siqueira Campos 2 1 1
Av. Góes Calmon 3 2 1
Rua Francisco Santos 1 3
Av. Lauro de Freitas 1 2
Rua Triunfo 2
Rua Lisboa 2 2
Rua Ernesto Dantas 1 4
Rua Frei Egídio 1
Praça Tancredo Neves 2
Rua Lear David 1
Rua Rotary Club 1 1
Av. Ascendino Melo 2 2
Travessa Ascendino Melo 2
Rua Lions Club 2
Rua Justino Gusmão 2
Rua Cassiano Santos 1
Av. Régis Pacheco 1 1
Rua Salgado Filho 1 1
Av. Crescênio Silveira 1
Travessa do Alecrim 1 1
Rua dos Fonseca 2 1
Total 33 46 5

 

Fonte: dados coletados pelo Projeto de Pesquisa Jornalismo,

Cidade e Patrimônio Cultural

 

 

Na Avenida João Pessoa, onde ainda existem remanescentes de casas modernistas construídas entre os anos 1950 e 1970, demolições ocorreram nas décadas subsequentes e hoje as novas contrastam com a elegância das casas em que as linhas retas predominam. O estilo dos paredões de vidro ou concreto dos prédios construídos recentemente se contrapõem à tendência que ressalta a horizontalidade do vão de um lado a outro da fachada frontal, em que varandas são cortadas por colunas, marca do período. Na Av. João Pessoa, das oito demolições mais recentes, três lotes ainda estão desocupados. Outros três passaram a ser estacionamento e em outros dois funcionam lava-jatos.

 

Não é só na Av. João Pessoa que se encontram exemplares das décadas de 1950 e 1960 ameaçados pelas demolições. Dos 37 imóveis modernos listados por um levantamento feito pelo professor da Faculdade de Arquitetura da Universidade Federal da Bahia Nivaldo Andrade, para o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), em 2010, alguns estão se perdendo, como o que foi demolido ao final do ano passado, o Club Social, depois que a construtora PEL arrematou o terreno de 11 mil metros quadrados, em 2012, por R$ 3 milhões, em um leilão executado na cidade de Itabuna, distante 241 km de Vitória da Conquista. O clube tinha dívidas trabalhistas de cerca de R$50 mil.

 

Inaugurado em 1945, na Rua Maximiliano Fernandes, no centro de Vitória da Conquista, o Club Social foi relocado 10 anos depois para um terreno na Praça Sá Barreto doado pela prefeitura. O projeto era de Emanuel Berbert e José Álvaro Peixoto, arquitetos de renome, autores dos terminais rodoviários de Salvador e Aracaju, que pertenciam à chamada arquitetura brutalista verificada na Bahia durante os anos 1960 e 1970 (ANDRADE JUNIOR, 2013). A construção sob a responsabilidade de José Fernandes Pedral Sampaio foi feita entre 1957 e 1958. O Club Social era muito frequentado e era um exemplar da arquitetura reconhecida como moderna, bem ao gosto da época. Tinha uma escada helicoidal e venezianas de madeira.

 

Outros imóveis de outras fases também merecem atenção em Vitória da Conquista e teriam indicação para serem preservados, caso fosse aplicada a lei municipal de tombamento. Alguns deles são: Av. João Pessoa nº 219 (ver foto nº 4); Rua da Misericórdia nº 72; Rua Góes Calmon nº12; Rua Góes Calmon nº 156; Rua Góes Calmon nº 98 (ver foto nº5); Rua Góes Calmon, 156, dentre outros.

 

Foto5

 

Estas edificações, assim como tantas outras remanescentes, não possuem proteção legal porque jamais foram notificadas ou sequer inventariadas. A Secretaria Municipal de Cultura de Vitória da Conquista tem a intenção de produzir um inventário, mas a ideia ainda não foi formalizada. Enquanto isso, podem ser adulteradas ou destruídas por seus proprietários sem qualquer consulta ao Município.

 

 

Imóvel Siqueira Campos nº 98.

Foto: João Barreto.

 

 

Foto3 Foto4

Club Social demolido ao final de 2015

Foto: Arquivo do Club Social.

Imóvel Rua João Pessoa nº 219

Foto: João Barreto.

 

O novo shopping no comércio local

 

Tomando o Terminal Lauro de Freitas, no centro de Vitória da Conquista, como referência, o já existente shopping Conquista Sul, na Avenida Juraci Magalhães, no bairro da Boa Vista, fica a 4,8 quilômetros. A distância para o novo shopping, o Boulevard Vitória da Conquista, a ser inaugurado em 2016, é de 5,1 quilômetros. Nele, em sua primeira etapa, haverá 140 lojas, seis âncoras, 2.200 vagas de estacionamento. No entanto, o maior diferencial é que o novo shopping, à margem da Avenida Olívia Flores, fica no caminho de quem se dirige à Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (Uesb), à Universidade Federal da Bahia (Ufba), ao prédio da Justiça Federal e a outros destinos, que há anos conferem ao entorno desta avenida o status de área nobre.

 

O pagamento em seis parcelas do alvará de construção do Shopping Center Boulevard Conquista, com base no artigo 297 do Código Tributário do Município, pedido pelo Bemq Mall Participações Ltda em documento assinado por Carlos Oliveira Neto, em 14 de novembro de 2012, à prefeitura de Vitória da Conquista, dava conta que o investimento em uma área de 67 mil metros quadrados havia sido de R$ 90 milhões e que o empreendimento contribuiria com a economia local, gerando em torno de dois mil empregos diretos e indiretos.

 

Em entrevista fechada – com 11 questões relacionadas à implantação do novo shopping, com respostas “sim” e “não” – aplicada pelos pesquisadores do Projeto de Pesquisa Jornalismo, Cidade e Patrimônio Cultural, a um universo de 119 lojistas do centro de Vitória da Conquista, foi apurado que:

 

 

1) 116 pequenos, médios e grandes empresários sabem que um novo shopping será instalado na cidade;

 

2) 55 pequenos, médios e grandes empresários acham que este novo shopping interferirá no seu empreendimento e no comércio do centro;

 

3) 82 pequenos, médios e grandes empresários acreditam que esse novo shopping afetará negativamente o movimento de suas lojas;

 

4) 66 pequenos, médios e grandes empresários acham que a instalação de um empreendimento do porte do novo shopping na Avenida Olívia Flores deveria ter sido discutida com a população;

 

5) 103 pequenos, médios e grandes empresários acham que a imprensa não divulgou os prós e os contras da implantação do shopping center.

 

Com base nesta amostragem, podemos afirmar que a mudança que se processa a partir da instalação de um shopping center de grande porte em uma cidade que possui um centro vivo e dinâmico, produz apreensão moderada nos que sobrevivem às custas de um comércio sedimentado, que se presentifica de forma vital – sem necessidade das revitalizações tão utilizadas como solução na contemporaneidade, por ser capaz de se fazer suficientemente frequentado graças às suas possibilidades de exercer atração – com suas lojas em ruas conhecidas, de comerciantes de grande, pequeno e médio portes presentes e aptos a uma relação quase pessoal com consumidores e sem o distanciamento e a padronização tão comuns dos shoppings centers.

 

Por outro lado, a derrubada de imóveis que fazem parte de uma paisagem conhecida e pertencente a uma história e memória compartilhadas provoca retraimento nos que tinham uma relação de proximidade com o lugar ora modificado, o que pode provocar alterações, também, na relação do frequentador do centro, ocasionando novas situações desconhecidas tanto por parte do consumidor, quanto por parte do comerciante, que podem resultar em degradação do espaço.

 

 

Considerações finais

 

As questões urbanísticas de Vitória da Conquista, uma cidade de porte médio, a terceira da Bahia, carecem de acompanhamento e análise das transformações que se estabelecem como mais uma etapa de sua expansão. As duas ações – de retirada de imóveis representativos desta e de outras épocas, situados no centro e a inauguração de um novo shopping na avenida mais valorizada da cidade – poderão significar uma diferenciação na ocupação do espaço urbano, no comércio e na distribuição de moradias, com adensamentos e valorização de certas áreas, que até o momento não se verificava de forma intensa. Mas qual a relação entre a supressão de imóveis e a construção de um shopping? Tanto uma, quanto a outra, pode contribuir para o empobrecimento do centro tradicional da cidade. Enquanto local de atração de consumidores, o seu esvaziamento propiciará uma rearrumação na ocupação dos espaços.

 

As consequências deste fenômeno nesta cidade, todavia, ainda não foram estudados. Com base em exemplos anteriores, em cidades diversas, em que processos de expansão se deram levando os aglomerados urbanos a situações de tensionamento, analisar este novo tipo de apropriação pode resultar em um entendimento sobre este que é um fenômeno cada vez mais comum entre as cidades.

 

As mudanças provocadas por esta prática de destruição de exemplares de residências e construção de um novo shopping, simultaneamente, também podem acelerar um fenômeno de esquecimento dos hábitos, costumes e apropriações do espaço nesta cidade, alterando tradições locais e a memória, tão necessárias à sociedade e às suas negociações e ritos de convivência.

 

 


 

NOTAS

 

1 Professora do Curso de Jornalismo da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (Uesb) e colaboradora do Curso de Pós Graduação da Universidade Federal da Bahia (Ufba).

 

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

Nivaldo Vieira de Andrade Junior. “Arquitetura Brutalista na Bahia: levantamento e análise crítica”. In: X SEMINÁRIO DOCOMOMO BRASIL. Curitiba, 15-18 2013, PUC-PR.

BLOG DO ANDERSON. “História: mais um casarão será demolido”. Publicado e acessado em 02/01/2015. http://www.blogdoanderson.com/2015/01/02/historia-mais-um-casarao-sera-demolido-em-conquista/

Gey Espinheira. Divergência e prostituição: uma análise sociológica da Comunidade Prostitucional do Maciel. Série Cultura Baiana1. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro; Salvador: Fundação Cultural do Estado da Bahia, 1984.

J. Flores. “Do Monumento ao Território”. In: Patrimônio. Lisboa: Universidade Técnica de Lisboa, Igaphe, 1998. p.11-17

Henri-Pierre Jeudy. Memórias do social. Trad: Márcia Cavalcanti. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1990.

Jürgen Habermas. Mudança estrutural da esfera pública. Rio de Janeiro; Tempo Brasileiro, 1984.

M. Halbwachs. (2006). A Memória Coletiva. Trad.: Beatriz Sidou. São Paulo: Centauro.

Henri Lefebvre. O direito à cidade. Trad.: Rubens Eduardo Frias. São Paulo: Centauro, 2001.

Laila Mourad. O processo de gentrificação no Centro Antigo de Salvador 2000 a 2010. Tese

apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Arquitetura e Urbanismo da Faculdade de

Arquitetura da Ufba. 2011.