REVISTA ELETRÔNICA DA BIBLIOTECA VIRTUAL CONSUELO PONDÉ – N.4 AGO DE 2016. ISSN 2525-295X

ARTIGO

 

 

A BUSCA PELO LANTERNA DOS AFOGADOS NA CIDADE DA BAHIA

 

Juciara Maria Nogueira Barbosa 1

 

Porta

 

Teste

Ao referir-se a Salvador como cidade religiosa, cidade colonial, cidade negra da Bahia nas páginas do romance Jubiabá, publicado em 1935, o escritor baiano Jorge Amado (1912-2001) resumiu em poucas palavras alguns dos principais referenciais que nortearam a própria identidade cultural da capital baiana no século XX.2 Ao longo desse período, as transformações provocadas pelo constante ímpeto de mudança próprio da modernidade, aos poucos impuseram sobre a cidade quatrocentona um ritmo de destruição e transformações capazes de afetar significativamente a dinâmica de vida dos soteropolitanos, comprometendo corações e mentes com a imposição de novos valores, práticas e desejos.

 

Ainda nos meados do século, para muitos que simplesmente passavam, ou para a população que nela vivia, a cidade de Salvador era, de fato e de direito, a Cidade da Bahia, a velha Cidade da Bahia ou, bem mais simples e largamente, a Bahia, como havia se tornado conhecida a outrora rica, opulenta e poderosa capital. Bem observou Milton Santos que o ser humano é responsável por animar as formas espaciais atribuindo-lhe conteúdo e apenas a vida é passível desse processo infinito que vai do passado ao futuro.3 Dialeticamente, em meio às transformações e às polêmicas iniciativas em favor da modernização, alguns intelectuais e artistas de tratos modernos se empenharam arduamente na tarefa de capturar justamente os traços, trejeitos e nuances dessa Bahia herdeira do período colonial, exuberante, tropical, mística e miscigenada através da poesia, romance, música, desenho, pintura, escultura e fotografia, buscando retratar o cenário e seus mais peculiares tipos.

Foi através de uma tradução francesa do livro Jubiabá de Jorge Amado que o fotógrafo francês Pierre Verger (1902-1996) travou seu primeiro contato com referenciais da cultura baiana e, quando chegou a Salvador em agosto de 1946, a serviço da revista O Cruzeiro, buscou o universo abordado no romance, conforme declarou:

 

Quando cheguei, minha ingenuidade me fez procurar os lugares que estavam escritos no livro – estava procurando uma Laibodega da qual falava, chamada “Lanterna dos Afogados”, que era, na realidade, uma coisa que tinha saído da imaginação de Jorge Amado; não existia esse lugar.4

 

O depoimento de Pierre Verger convida a uma reflexão sobre a construção imaginária feita por Jorge Amado do bar Lanterna dos Afogados, descrito no romance como ponto de encontro onde se reuniam estivadores, prostitutas, jogadores de capoeira, Lovmestres saveiristas, pessoas do povo e marinheiros vindos de diversas partes do mundo que ali bebiam, comiam, conversavam, brigavam, cantavam e confraternizavam. O Lanterna dos Afogados era, nesta perspectiva, um local cheio de vida e uma encruzilhada por onde circulavam tipos representativos da mais autêntica cultura popular baiana a conviver com pessoas distintas, inclusive estrangeiros de passagem, que talvez jamais retornassem.

 

Verger, por não encontrar o Lanterna dos Afogados, obviamente não pôde registrá-lo em fotografias, mas em seu livro Retratos da Bahia, composto por 251 fotografias realizadas na cidade da Bahia entre 1946 e 1951, encontram-se, como em Jubiabá, o centro histórico, o Porto dos Saveiros, as igrejas centenárias, a feira de Água de Meninos, a Baía de Todos-os-Santos. E mais: encontra-se o povo negro traduzido em imagens das vendedoras de quitutes, jogadores de capoeira, estivadores, pescadores e saveiristas. Também, como no romance, suas fotografias apresentam o candomblé, o samba de roda, referências à música, às festas e à dança, mostrando aspectos da cultura local onde se pode observar a importância de práticas grupais em momentos de fé, de labor ou diversão. Assim, Verger traduziu em imagens recortadas da vida cotidiana do povo anônimo, negro e pobre, já abordado em Jubiabá, a alegria de viver que, segundo ele, inexplicavelmente o encantou e seduziu, a ponto de dedicar o restante de sua existência a estudar e pesquisar aspectos das ligações culturais entre o Brasil e a África, deixando uma inestimável contribuição para a elucidação e compreensão dessas relações.5

 

Coube a Carybé6 (1911-1997) traduzir o Lanterna dos Afogados em uma admirável imagem gerada no cruzamento da literatura com as artes plásticas. Tratando da dinâmica dos imbricamentos entre a concretude do espaço e as construções imaginárias, o sociólogo francês Michel Maffesoli argumentou que

 

o ambiente não é uma simples coisa inerte. Certamente, é o composto de espacialidade: são os lugares, os monumentos, as ruas, mas ao mesmo tempo, segundo expressão consagrada, esses lugares possuem um gênio, o genius loci. Esse gênio lhes é dado por construções imaginárias, sejam elas contos e lendas, memórias escritas ou orais, descrições romanescas ou poéticas. É tudo isso que faz com que o estático espacial se anime e anime, stricto sensu, dá-se-lhe vida e ele vivifica.7

jb

 

Carybé estabeleceu-se na Bahia em 1950, a convite do então secretário de Educação e Saúde Anísio Teixeira e, juntamente com outros artistas, a exemplo de Mário Cravo Júnior, Carlos Bastos, Genaro de Carvalho e Jenner Augusto, em muito contribuiu para a renovação das artes plásticas baianas. Ele tornou-se amigo de Pierre Verger e de Jorge Amado, cuja obra já conhecia antes mesmo de vir morar em Salvador, chegando a afirmar que o que o trouxe à Bahia foram os personagens do escritor. Com sua produção artística, em muito contribuiu para divulgar uma imagem da Bahia marcada por referenciais da cultura negra, abrangendo a capoeira, o candomblé, festas religiosas e profanas, danças, etc. Assim como Verger, Carybé se aproximou desse universo e fez iniciação no candomblé, que buscou continuamente valorizar também em importantes trabalhos, a exemplo das aquarelas que criou para o livro Iconografia dos deuses africanos no candomblé da Bahia, publicado em 1980. Sua carreira de ilustrador, entretanto, teve início bem antes. Já na década de 1930 trabalhou como desenhista para periódicos e começou a ilustrar livros. Em 1940, criou ilustrações para o romance Macunaíma, de Mário de Andrade, e a partir de então ilustrou diversos livros de destacados escritores de outros países e brasileiros.

 

Carybé. Lanterna dos Afogados. (Ilustração para o livro Jubiabá). Disponível em: http://www.jorgeamado.com.br/. Acesso em 5 out. 2015.

 

Caf

A primeira edição de Jubiabá foi publicada pela Livraria José Olympio Editora, do Rio de Janeiro, em 1935. A partir de 1941 o livro passou a ser publicado pela Livraria Martins Editora, de São Paulo, que em 1961 lançou a edição com um conjunto de ilustrações de Carybé. Entre estes trabalhos se encontra a concepção visual do artista para o bar Lanterna dos Afogados.8 Neste trabalho pode-se identificar alguns aspectos do estilo desenvolvido pelo artista. Com poucos traços Carybé definia a figura humana ou espaços arquitetônicos e paisagísticos, conferindo-lhes características peculiares. A figura também sintetiza a ideia do Lanterna dos Afogados como ponto de encontros descrito pelo escritor: local onde as pessoas conversavam, se divertiam, dançavam, sentiam-se à vontade sem formalidades, realçando a espontaneidade e alegria do povo baiano, reafirmando aspectos que têm contribuído para a afirmação de uma identidade peculiar.

 

CadeiraEsse jeito de ser baiano foi difundido por Jorge Amado como um estado de espírito, certa concepção de vida, quase uma filosofia impregnada de determinada forma de humanismo. De acordo com declarações do escritor, as pessoas que nascem em outros lugares e possuem essas características se reconhecem baianos logo ao chegarem à Bahia e, de fato, se tornam baianos. Para Jorge Amado esse processo ocorreu com Pierre Verger e Carybé, entre muitos outros que aportaram na velha cidade da Bahia e se tornaram “baianos” ilustres. Porém, alertou: nem todos terão esse privilégio, pois não é fácil preencher as condições necessárias para ser um baiano por direito.9 Neste sentido, para ser baiano seria preciso, sobretudo, ter a capacidade de se integrar plenamente à cultura da boa terra Bahia.10

 

 

Ao longo do século XX, Salvador, como qualquer outra grande capital do Brasil, cresceu desordenadamente vivendo em constante vomitmudança, mas ainda que o ritmo frenético dessas transformações ocorridas no espaço urbano tenha afetado drasticamente suas feições, não foi capaz de destruir muitos dos aspectos da cultura baiana. Conforme observou o historiador francês Jacques Le Goff, as transformações urbanísticas abruptas já se faziam notar ainda na Idade Média, quando os citadinos medievais não eram tão apegados à aparência das cidades, pois elas mudavam o tempo todo.11 A mudança, portanto, faz parte da vida do cidadão urbano há séculos.

 

No caso específico de Salvador, a despeito de todas as transformações sofridas, a cultura marcada pela influência africana desenvolvida na cidade conservou diversos aspectos vinculados a tradições e práticas oriundas da África que foram adaptadas, aclimatadas na dinâmica complexidade do ambiente urbano. Talvez por esses motivos o Lanterna dos Afogados, procurado por Pierre Verger, aqui estivesse desde antes de sua chegada e aqui ainda hoje se encontre em toda a sua concepção, pois ele próprio é uma referência poética à cidade da Bahia, só possível de ser traduzida em imagem através da arte.

 

Porta

 


 

NOTAS

 

1 Juciara Maria Nogueira Barbosa é doutora em Cultura e Sociedade e professora da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia.

2 Jorge Amado. Jubiabá. 40ª ed. Rio de Janeiro: Record, 1981, p. 64.

3 Milton Santos. A natureza do espaço: técnica e tempo, razão e emoção. São Paulo: Hucitec, 1997, p. 88.

4 Cida Nóbrega; Regina Echeverria. Verger um retrato em preto e branco. Salvador: Corrupio, 2002, 484 p.

5 Juciara Maria Nogueira Barbosa. A Bahia de Jubiabá em fotografias de Pierre Verger. Dissertação de Mestrado, Universidade Federal da Bahia, 2005, 165p.

6 Apelido pelo qual ficou conhecido o artista plástico argentino Hector Julio Paride Bernabó.

7 Michel Maffesoli. A contemplação do mundo. Porto Alegre: Artes e Ofícios, 1995, 168 p.

8 A partir da 30ª edição, lançada em 1975, o livro passou a ser publicado pela Editora Record, do Rio de Janeiro, mantendo as ilustrações produzidas por Carybé. Mais informações sobre o assunto podem ser encontradas no site da fundação Casa de Jorge Amado. Disponível em: http://www.jorgeamado.org.br/?ja_obras=jubiaba Acesso em 6 out. 2015.

9 Jorge Amado. Bahia de Todos os Santos. 39ª ed. Rio de Janeiro: Record, 1991, p. 25-26.

10 Jorge Amado; Flávio Damm; Carybé. Bahia, boa terra Bahia. Rio de Janeiro: Agência Jornalística Image, 1968.

11 Jacques Le Goff. Por amor às cidades. São Paulo: UNESP, 1998, p. 139.