REVISTA ELETRÔNICA DA BIBLIOTECA VIRTUAL CONSUELO PONDÉ – N.2 OUT DE 2015. ISSN 2525-295X

ARTIGO

 

 

A ARQUEOLOGIA DE UM TERREIRO DE CANDOMBLÉ URBANO NA BAHIA OITOCENTISTA

 

Samuel Lira Gordenstein

 

 

A historiografia sobre o candomblé nas últimas décadas do século XIX tem demonstrado que os terreiros se instalaram nos bairros afastados do centro, para fugir da repressão e aproveitar a maior disponibilidade de recursos naturais, imprescindíveis para diversos aspectos do culto. Ao mesmo tempo, os jornais e a documentação policial usados para embasar esta narrativa também deixam claro que, concomitante com a instalação de terreiros em áreas semirrurais de Salvador, candomblés urbanos continuaram a florescer em pleno centro da cidade. São várias as razões para isso. O centro de Salvador sempre foi local de moradia de especialistas religiosos africanos e seus descendentes. Praticamente todas as figuras centrais dos grandes candomblés da Bahia moraram, em algum momento, no centro histórico de Salvador. Para citar somente um exemplo, no início do século XX, Eugênia Ana dos Santos, a Mãe Aninha, fundadora do Ilê Axé Opô Afonjá, morou numa casa na Ladeira da Praça fronteiriça à de Pulchéria Maria Conceição de Nazaré, a também ialorixá, do terreiro de Gantois.1 Os espaços de culto eram geralmente organizados em pequenos espaços, nas lojas, porões, casas de “becos” e moradias térreas nos apertados bairros centrais da cidade. Mas não devemos esquecer a disponibilidade dos quintais urbanos que impressionaram viajantes estrangeiros como os alemães Spix e Martius,ou os locais tardiamente urbanizados, como o vale do Rio das Tripas, que se tornaria a Baixa dos Sapateiros. Estes “espaços de mata” em plena cidade serviam de suporte para os candomblés urbanos, como local de cultos, para adquirir folhas sagradas ou criar animais para uso ritual, além de fornecer maior dose de privacidade aos cultos.

 

Não era pequeno o desafio de gerenciar um culto em plena cidade. Ter um terreiro em localização próxima ao aparato repressivo do Estado aumentava o risco de uma “batida” policial. O historiador João Reis sugere que alguns chefes de polícia teriam instituído uma “psicologia do medo” no combate aos candomblés desta época.No entanto, às vezes, aqueles diretamente encarregados de reprimir os cultos eram simpatizantes ou participantes e ignoravam as diretrizes vindas de cima ou hierárquicas. Em outros casos, alguns especialistas religiosos do candomblé tinham extensas redes de relacionamentos e listas de clientes que atingiam as altas esferas do poder, sendo estes acionados, caso necessário. A ialorixá Mãe Stella lembra ter frequentado, na sua infância, cultos no centro da cidade onde não se fazia barulho.4 É provável que medidas como essa também fossem comuns algumas décadas antes, para minimizar o efeito coercitivo da intolerância.

 

Todas estas vertentes ajudam a explicar a presença de um pequeno terreiro urbano encontrado num sobrado durante escavações arqueológicas na antiga Rua do Tijolo, atual 28 de Setembro. No fim do século XIX, o porão da casa foi totalmente reconfigurado para uso religioso e nele instaladas 41 estruturas arqueológicas de função ritual. Uma vez passado o período áureo do espaço religioso, as evidências apontam para atividades ritualísticas pontuais, até que um novo uso foi definitivamente dado ao sobrado no ano de 1926.5

 

 

Foto 1: Fachada do fundo do sobrado (sustentado por vigas metálicas) e a Catedral Basílica no fundo, à esquerda.

Foto 2: Fachada da frente do imóvel, na rua 28 de setembro.

 

Fonte: autor

Fonte: autor

 

 

 

Para dar sentido aos achados e oferecer explanações sobre o uso do espaço, buscou-se respostas, principalmente, em etnografias sobre o candomblé publicadas desde o início do século XX, e em opiniões de líderes e especialistas religiosos de cinco terreiros baianos. A partir deste processo de analogia, foi possível fundamentar a hipótese de uso do espaço como terreiro de candomblé, com a presença de um quarto de santo e também do provável “fundamento” do terreiro, submerso em um pequeno salão. Boa parte do porão foi ritualmente preparada para proteger o espaço durante as atividades religiosas.

 

Construído numa encosta, que ficava dentro de um grotão formado no miolo do quarteirão, o porão era alcançado por um caminho que acessava os fundos das casas, ou através de uma escadaria que tinha início numa porta a partir da rua. Atrás, havia um quintal de 90m² e uma área sem construções, no centro do quarteirão. A datação de louças e vidros encontrados em cinco cômodos diferentes permite afirmar que houve uma reconfiguração do porão na 2ª metade do século XIX, mais precisamente depois do ano de 1871, data que consta numa moeda de 100 réis colocada durante a construção do piso. Pequenos cômodos foram construídos e uma escada, erguida, que permitia subir para o andar de acima. Durante a construção, em todos os cômodos diferentes objetos foram colocados abaixo do piso, muitos destes nos cantos ou rente às portas e locais de passagem.

 

 

Por exemplo, logo após os arcos de entrada, abaixo do mais antigo piso de chão batido no local, foram colocados quatro bases de potes de plantas invertidas. As bases dos potes continham furos circulares e não havia resíduos de solo incrustados, o que sugere que não tenham sido usados para jardinagem antes do seu uso ritual. Havia materiais dentro de todos os vasilhames, sobretudo contas, fragmentos cerâmicos, metade de um cachimbo, pregos, uma concha de chumbinho e outra de ostra, e uma grande quantidade de ossos, principalmente de bagres, mas também de aves, bois, um porco, um carneiro/ovelha, assim como outros mamíferos.

 

Foto 3: 4 potes invertidos, abaixo do piso de argila, logo na entrada dos fundos.

 

Fonte: Arquivo do Projeto Pelourinho de Arqueologia, 2008-1010, IPHAN/Monumenta.

 

Um dos cômodos, o “quarto de santo”, apresentou maior quantidade de materiais, sendo um conjunto próximo à porta de acesso. Durante a construção da parede, uma trincheira foi escavada, e dentro foi inserido um alicerce de barro com rochas para servir de base a eventual parede. Mas, antes de colocar o piso, um elaborado conjunto de materiais ritualísticos foi assentado, rente à parede e abaixo do chão batido. Materiais colocados nesta camada do assentamento incluíam 14 contas, uma moeda francesa de cinco francos do ano 1857, fragmentos de madeira carbonizada, um furador de couro, um cravo, uma pequena barra de chumbo, um seixo, quatro pregos e quatro alfinetes, sendo que duas estavam fincadas. Diversos restos faunísticos também foram encontrados: ossos de galinha, vaca, porco e de um mamífero pequeno, além de um osso de bagre, 15 fragmentos de corais (possivelmente de três espécies diferentes), uma concha de bivalve indeterminada, além de restos de ovos, inclusive um exemplar que permaneceu quase inteiro.  Por último, logo acima e somente no trecho central do alicerce, foi assentada uma fina camada de argamassa bege, que serviu para lacrar parte do conteúdo descrito.

 

Foto 4: Ao entrar no “quarto de santo”, objetos foram colocados rente à parede lateral, abaixo do piso.

 

Fonte: Arquivo do Projeto Pelourinho de Arqueologia, 2008-1010, IPHAN/Monumenta.

 

Foto 5: O mesmo furador de couro (círculo vermelho) visto na Figura anterior (seta vermelha), este identificado num terreiro de Recife na década de 1930.

 

Fonte: Alvarenga, Acervo de pesquisas folclóricas de Mario Andrade, p. 165, p. 228

 

Foto 6: Rente à mesma parede no cômodo, uma moeda de 1857 e madeira carbonizada.

 

Fonte: Arquivo do Projeto Pelourinho de Arqueologia, 2008-1010, IPHAN/Monumenta.

 

Foto 7: Próximo do furador, um alfinete fincado no solo.

 

Fonte: Arquivo do Projeto Pelourinho de Arqueologia, 2008-1010, IPHAN/Monumenta.

 

Foto 8: Também rente à parede fragmentos de casca de ovo.

 

Fonte: Arquivo do Projeto Pelourinho de Arqueologia, 2008-1010, IPHAN/Monumenta.

 

Próximo dali, num espaço que serviu como altar religioso, uma série de objetos foi assentada de forma sincrônica, alguns abaixo da base do altar e outros acima. O solo argiloso foi momentaneamente retirado em determinados locais, alguns materiais rituais inseridos (caborés, vaso e panela), e depois recolocado, ocultando os objetos abaixo. Outros materiais foram colocados de tal forma que ficavam visíveis acima do piso. Dentro dos recipientes cerâmicos, todos eles pequenos, havia ossos de pequenos animais, contas, três búzios (na panela), entre outros ingredientes. Próximo, havia um pequeno prego fincado e um cravo grande, cuja cabeça ficava visível acima do piso, assim como uma grande concha, provavelmente de peguari. Estes objetos formavam um círculo, tendo no centro um seixo, visível acima do piso de argila. Associado à rocha havia vestígios de um coelho e carvão. Parte do seixo e uma panela colocada de cabeça para baixo foram cobertas por uma cal branca feita, sobretudo, de coral. Objetos foram ofertados ao longo dos anos, sendo que alguns ficaram impregnados no chão batido; destaca-se aqui uma figa e contas usadas para decorar adornos.

 

Foto 9: A área do altar, sendo registrada pelo arqueólogo.

 

Fonte: Arquivo do Projeto Pelourinho de Arqueologia, 2008-1010, IPHAN/Monumenta.

 

Foto 10: Início da escavação do altar. Entre outros objetos, observar o seixo e a concha alforando, com quatro miçangas brancas próximas (ver seta preta).

 

Fonte: Arquivo do Projeto Pelourinho de Arqueologia, 2008-1010, IPHAN/Monumenta.

 

Foto 11: Figa encontrada no altar.

 

Fonte: autor

 

Foto 12: Seixo no meio, rodeado por três caborés, um vaso, uma panela e uma concha.

 

Fonte: Arquivo do Projeto Pelourinho de Arqueologia, 2008-1010, IPHAN/Monumenta.

 

Foto 13: Provável concha de peguari colocada no altar.

 

Fonte: Arquivo do Projeto Pelourinho de Arqueologia, 2008-1010, IPHAN/Monumenta.

 

Foto 14: A panela do altar, que aparece invertida, na parte baixa e a esquerda, na foto 12

 

Fonte: autor

 

Foto 15: Ossos de ave e três búzios encontrados dentro da panela

 

Fonte: Arquivo do Projeto Pelourinho de Arqueologia, 2008-1010, IPHAN/Monumenta.

 

 

Foto 16: Um dos caborés do altar, que aparece na parte baixa, à direita, na Foto 12.

 

Fonte: autor

 

Figura 17: Miçangas encontradas dentro do caboré que aparece a esquerda da concha na foto 12.

 

Fonte: autor

 

Foto 18: Um cravo fincado, no altar.

 

Fonte: Arquivo do Projeto Pelourinho de Arqueologia, 2008-1010, IPHAN/Monumenta.

 

Foto 19: Um dente pré-molar humano, com furo, para uso como pingente, encontrado no altar.

 

Fonte: Arquivo do Projeto Pelourinho de Arqueologia, 2008-1010, IPHAN/Monumenta.

 

Em outro cômodo, antes da construção do chão batido, uma série de objetos foi instalada no seu centro, inclusive 19 rochas amontoadas em cima de um anel e um pequeno seixo preto. Este pode ter sido o fundamento do terreiro. Próximo da porta de entrada para este quarto, um buraco foi escavado e um cravo fincado dentro. Estes são alguns indícios, mas não os únicos, que remetem ao período de construção e uso intensivo do espaço.

 

Foto 20: Aglomerado de pedras abaixo do piso, possível “fundamento” do espaço.

 

Fonte: Arquivo do Projeto Pelourinho de Arqueologia, 2008-1010, IPHAN/Monumenta.

 

Depois da desativação do terreiro, houve um longo período de abandono de espaço, fase esta também marcada pela deposição de um conjunto de objetos: 10 garrafas de vidro e uma panela cerâmica com uma cruz riscada pós-queima em ambas as asas. Três das garrafas têm uma marca de fabricante que começou a ser carimbado pela fábrica no fundo dos recipientes a partir do ano de 1892, o que permite deduzir que não foram colocados no piso soteropolitano antes desta data. Eventualmente, um piso de cimento foi construído, lacrando para sempre os vestígios religiosos associados ao chão batido.

 

O proprietário da casa durante este período era João Baptista Barbosa Marques, um português que chegou ao Brasil ainda adolescente e parece ter feito sua fortuna negociando mercadorias entre o Brasil e Portugal.6 Ao falecer, em 1899, deixou uma fortuna de pouco mais de 897 contos de réis para os seus herdeiros, sendo uma parte considerável do espólio mais de 70 imóveis e diversos terrenos nos arredores da cidade.No seu testamento escrito em 1898, cita Maria Emiliana de Jesus “que viveu em minha companhia até morrer” e com quem teve cinco filhos.Emiliana era, provavelmente, uma mulher negra: os dois filhos batizados na década de 1870 são listados como “pardos”, sendo que o atestado de óbito do mais novo, que morreu em 1924, descreve-o como “mestiço”.Presume-se que o pai, o português Marques, fosse branco. Essa revelação sobre a raça de Emiliana é pertinente, pois o candomblé nessa época era liderado e frequentado quase que exclusivamente por africanos e seus descendentes brasileiros. Desta forma, a presença de Emiliana como figura matriarcal fortalece a tese do envolvimento da família Marques com o candomblé.10 Depois da morte do patriarca, a casa permaneceu como posse da família até o ano de 1926, quando um imigrante espanhol aparece com proprietário do sobrado.11

 

A possibilidade de correlação entre os eventos que ocorreram, a partir do fim do século XIX, no porão da casa, e o seu proprietário deve-se às extensas intervenções construtivas no espaço. O alto investimento resultou em mudanças significativas que não devem ter passado despercebidos aos proprietários. A dedução que se faz é que eles próprios tenham financiado as obras.

 

Há também uma forte correlação entre o fim da deposição de objetos de culto no porão e as datas históricas da morte dos donos da casa, e depois, a venda do imóvel pelos herdeiros para fora da família. Esta conjuntura serve para substanciar a tese de que há a cumplicidade, senão a liderança, da família do proprietário português na inauguração, uso e fechamento do terreiro de candomblé no porão da casa. O abandono do porão da rua 28 de Setembro sugere que não tenha existido um sucessor para liderar o culto que lá ocorria, encerrando de vez o ciclo de atividades num pequeno terreiro urbano em pleno centro de Salvador.

 

A escavação deste sobrado ocorreu no âmbito do Projeto Pelourinho de Arqueologia coordenado por Rosana Najjar entre 2006-2010, durante as obras da 7ª Etapa de Recuperação do Centro Histórico de Salvador, IPHAN/Monumenta.

 

 

Samuel Lira Gordenstein é arqueólogo do IPHAN/BA, participa dos grupos de pesquisa “Bahia Arqueológica” (UFBA) e “Arqueologia da Diáspora Africana” (UFMG), e tem mestrado em Arqueologia Histórica (Universidade de Massachusetts, Boston/EUA) e doutorado em Antropologia (UFBA).

 


 

Rebouças Filho, Pai Agenor, p. 13. Conforme relatou o babalaô Pai Agenor, ele teria sido iniciado aos cinco anos de idade na própria casa de Mãe Aninha. Conferir Rebouças Filho, Pai Agenor, p. 6-10.

Spix e Martius, Através da Bahia, p. 105.

Reis, Domingos Sodré, p. 38.

Entrevista, 28/10/2011

Cf. Gordenstein, De sobrado a terreiro, para detalhes.

Encontramos nos jornais anúncios de importações de 127 toneladas de “diversos gêneros” e exportação de “ramas de ticum”, planta que tinha fibras muitos resistentes (Cf. O Monitor, 17 de setembro de 1876, p.3; O Monitor, 23 de dezembro de 1880, p.4; O Monitor, 15 de março de 1879, p.2. O uso do ticum ou tucum para a confecção de redes de pesca, uma herança indígena, sobreviveu ao longo do século XIX até ser gradualmente substituído pelo nylon no século XX, cf. Cotrim, Agroecologia, sustentabilidade e os pescadores artesanais: o caso de Tramandaí (RS).

APEBa, Inventário de João Batista Barbosa Marques, anos 1899-1941, Judiciária, Inventários,   03/1200/1669/08.

Inventário João Batista Barbosa Marques, op. cit.

Arquivo da Cúria Metropolitana de Salvador (ACMS), Paróquia do Pilar, Batismos, 1852-1884, batismo de João Marques, 2 de março de 1873 (f. 229 verso), e batismo de Antonio Marques, 7 de março de 1875 (f. 255). Atestado de óbito de Antônio consta nos autos do inventário de João Batista Barbosa Marques, op. cit, f. 294.

10 João Reis, no seu levantamento de fontes oitocentistas, identifica preciosos detalhes sobre os líderes dos candomblés: eram 33 africanos, seis crioulos, cinco mulatos, um português e uma mulher branca. Cf. Reis, “Candomblé in nineteenth century Bahia: leaders, followers, clients”, p. 120.

11 Arquivo Municipal de Salvador, Obras, Projeto para modificação do prédio: rua 28 de Setembro, n. 21, 16 de novembro de 1926