REVISTA ELETRÔNICA DA BIBLIOTECA VIRTUAL CONSUELO PONDÉ – N.3 MAR DE 2016. ISSN 2525-295X

ARTIGO

 

 

JULIANO MOREIRA: MODERNIDADE E CIVILIZAÇÃO NA PRIMEIRA REPÚBLICA BRASILEIRA

 

Iara Nancy A. Rios

 

Hospital Nacional dos Alienados

 

O século XIX traz entre as suas características históricas a consolidação do capitalismo enquanto modus vivendi sustentado em ideologias que explicavam a produtividade e a ordem social. Neste período, o Evolucionismo desenvolvido por Charles Darwin, o Positivismo liderado por Auguste Comte e a Escola Positivista de Criminologia criada por Cesare Lombroso justificavam o controle dos indivíduos considerados desajustados, ou seja, fora da perspectiva da produção capitalista.

 

Durante a Primeira República brasileira, a medicina consolidou-se como  representante, norteadora e responsável pela modernização, pelo processo civilizatório e pela definição da nacionalidade.[1] Neste período, diversos médicos construíam seus discursos e práticas através da constituição de uma identidade nacional fundamentada em noções como “civilização”, “evolução”, “modernidade”, “modernização”, que se tornaram metas necessárias e inevitáveis a serem atingidas. Diante de mudanças e transformações iminentes e de considerações sobre a necessidade e inelutabilidade do progresso, pensar o Brasil/Nação e os brasileiros/povo brasileiro era tarefa complexa.

 

Neste contexto, o Hospício Nacional de Alienados tornou-se um local primordial da elaboração dos discursos sobre a modernização e civilização, bem como da atuação prática da Psiquiatria e prática asilar. Enquanto esteve na direção do Hospital Nacional dos Alienados, Juliano Moreira possibilitou transformações como remodelação do corpo clínico e entrada de especialistas, instalação de laboratórios de anatomia patológica e de bioquímica, registros administrativos, estatísticos e clínicos, além de reformar o próprio hospital com a retirada de grades de ferro das janelas e abolir o uso de coletes e camisas de força, desenvolvendo novos métodos de tratamento e, sobretudo, a profilaxia na promoção da higiene mental e da eugenia.

 

Juliano Moreira procurava estabelecer a relação claramente sociológica entre os comportamentos característicos de uma sociedade que ainda não atingira o status de civilização ideal e as consequências orgânicas destes comportamentos em relação à degeneração e ao desenvolvimento da doença: dando continuidade ao processo organicista iniciado por Morel.

 

Além de negar a ideia de existência de doenças mentais específicas dos climas tropicais, este discurso atingia as concepções estruturadas sobre o pressuposto de que a raça definiria o caráter nacional e o futuro da nação.

 

 

Juliano Moreira: um homem do seu tempo no cenário médico brasileiro

 

Juliano Moreira nasceu em 6 de janeiro de 1872, na cidade de Salvador, Bahia, no Distrito da Sé. Era filho natural de Galdina Joaquina do Amaral e afilhado do Barão de Itapuã, conforme relata o registro de seu batismo:

 

Aos 16 de Outubro de 1872 baptismo, pus os Santos Óleos a Juliano, pardo, nascido a seis de Janeiro do mesmo ano, filho natural de Galdina Joaquina do Amaral. Foi padrinho o Barão de Itapuã e pos a coroa de Nossa Senhora.

Bernardino Peres da Costa. Chartinet.

De que fizeste e assinei.

O Cônego Cura João José de Abrantes.[2]

 

Quanto ao seu pai, Carvalhal[3] afirma que era um acendedor de lampiões, atribuindo ainda a profissão de quitandeira a Galdina. Lopes[4]  nomeia o pai de Juliano: Manoel do Carmo Moreira Júnior, funcionário da prefeitura de Salvador, que só viria a reconhecer a paternidade após o falecimento de Galdina. Na sua tese defendida na Faculdade de Medicina da Bahia encontra-se abaixo do seu nome, a filiação: Manoel do Carmo Moreira e Galdina Joaquina do Amaral.[5]

 

Em seus posicionamentos teóricos, Juliano Moreira relacionou sexualidade e doença mental, na defesa da tese “Sifilis Maligna Precoce” para aquisição do seu doutoramento na Faculdade de Medicina da Bahia, em 1891, aos 18 anos de idade. Publica, em 1895, “Culpabilidade dos syphiliticos que se casam” e, em 1899, “Syphilographia: a syphilis como factor de degeneração”.[6]

Em 1896, com apenas 24 anos de idade, tornou-se professor substituto da Seção de Doenças Nervosas da Faculdade de Medicina da Bahia, sendo aprovado em seleção pública com a dissertação denominada “Disquinesias Arsenicais”, abordando temáticas de dermatologia e neuropsiquiatria.[7]

 

 

Tese defendida por Juliano Moreira em 1891

Fonte: Arquivo Pessoal

Uma das raras fotografias de Juliano Moreira criança.

Fonte: Memorial Juliano Moreira. Sem data.

 

 

A repercussão da seleção pública foi registrada:

Aquele foi um dia memorável para todos os estudantes, que comemoraram até altas horas a Vitória do mérito sobre o preconceito.  Juliano era famoso e querido desde o tempo de estudante, por sua modéstia e genialidade: tinha concluído o curso de Medicina com apenas 18 anos de idade, com uma tese que tornou-se conhecida internacionalmente. Agora, com apenas 23 anos, tinha conseguido superar concorrentes poderosos e se tornava o mais novo professor da faculdade.  Mas, para este rapaz, filho de uma doméstica e de um funcionário da prefeitura, que só assumiu o filho quando ficou viúvo  – a Bahia foi só  o começo: não  demorou  muito pra ele ganhar o mundo e tornar-se o mais importante  psiquiatra  brasileiro.[8]

 

No mesmo ano em que se tornou professor, Juliano Moreira foi homenageado pelos alunos da sexta série com

 

o título de “doutorando honorário”. Lopes registra que entre os alunos dessa turma estava Afrânio Peixoto, influente na indicação de Juliano Moreira para a direção do Hospício Nacional dos Alienados na Capital Federal.

 

Em 1903, recebeu o convite formalizado por J. J. Seabra, então Ministro da Justiça do governo de Rodrigues Alves para dirigir o Hospício Nacional de Alienados no Rio de Janeiro, cargo em que se manteve até 1930.[9]

 

Juliano Moreira

Fonte: Memorial Juliano Moreira. 

Sem data.

Enquanto esteve na Bahia, Juliano Moreira criou um laboratório de pesquisas e desenvolveu o método de punções lombares[10] diagnósticas, inovando também o preparo de profissionais com a Escola de Enfermeira e a Assistência heterofamiliar.[11]

 

Em 1894, juntamente com Raimundo Nina Rodrigues, criou a Sociedade de Medicina e Cirurgia do Estado e, em 1895, com Carlos Chenaud, publicou O Serviço Médico Judiciário no Estado da Bahia.

 

Em 1903, Moreira redigiu uma proposta de reforma do Hospício Nacional, que culminou com a aprovação da legislação federal de assistência aos alienados, promulgada em 22/12/1903, além de organizar a “Assistência aos Alienados”, mais tarde Serviço Nacional de Assistência aos Psicopatas.[12]

 

Em 1905, fundou a revista Arquivos Brasileiros de Psiquiatria, Neurologia e Medicina Legal e, em 17 de novembro de 1907, instalou e dirigiu a Sociedade Brasileira de Psiquiatria, Neurologia e Medicina Legal, recebendo posteriormente o título de Presidente Perpétuo desta Sociedade. A existência e funcionamento desta sociedade possibilitou o desenvolvimento das três áreas de especialidades que reunia, servindo também como espaço de

 

debates, discussões e incentivos aos seus confrades, especialmente os mais novos que estavam adentrando o campo de estudo da medicina e já manifestavam interesse nessas áreas.[13]

 

Seus estudiosos, como Lopes,[14] confirmam que Juliano Moreira posicionou-se quanto aos assuntos da maior importância da sua época com trabalhos publicados nos campos de Dermatologia, Anátomo-patologia, Sifiligrafia, Neurologia, Psiquiatria. Juntamente com publicações envolvendo todas essas temáticas, Juliano Moreira também realizou estudos históricos, comunicações, relatos de viagens, práticas de observações e interpretações teóricas através de experiências, mas manifestava interesse especial pelas relações entre as questões mentais e as doenças infecciosas. Além disso, descreveu com prioridade no Brasil o botão de Biskra e a hidrea vaciniforme,  contribuiu para o conhecimento anátomo-patológico do ainhum, estudou os aspectos peculiares da sífilis, especialmente os evolutivos, a malignidade precoce, suas manifestações na senilidade […].[15]

 

No âmbito internacional, Juliano Moreira frequentou cursos sobre doenças mentais na Alemanha, Inglaterra, França, Itália e Escócia, fazendo também visitas a muitos asilos na Europa entre os anos de 1895 a 1902. Moreira era considerado um poliglota e manejava vários idiomas com perfeição. Lopes, denominando-o “anglo-saxófilo” e citando Carlos Pennafiel, um de seus discípulos, destaca:

 

(…) [Juliano Moreira] aperfeiçoou o estudo das línguas, persuadido de que um preparo poliglota é um instrumento poderosíssimo para o trabalho em ciência, cultivando-as desveladamente, e manejando além dos idiomas mais generalizados, o russo, o dinamarquês e o sueco.[16]

 

Em 1933, a Academia Brasileira de Ciências, em Sessão Ordinária de 23 de maio, registrou em ata as homenagens póstumas feitas a Juliano Moreira por Afrânio Peixoto, Artur Moses, Roquette-Pinto e Miguel Osório, sendo lembrado que “todas as vezes que no Brasil um grupo de homens de ciência se formava para criar uma associação… o nome de Juliano Moreira era imediatamente lembrado como um elemento indispensável”.[17]

 

Além de médico, tropicalista, dermatólogo, sifilógrafo, alienista, psicólogo, naturalista e historiador da medicina – conforme as palavras de Afrânio Peixoto – Juliano Moreira foi o autor brasileiro que teve a sua monografia como o trabalho mais citado no exterior naquele momento.[18]

 

As produções científicas de Juliano Moreira configuraram-se num vasto programa de higiene mental, argumentando a necessidade de campanhas nas escolas, com o intuito de disseminar os valores da civilização, do progresso e da modernidade. Este programa embasava a construção e o fortalecimento da nacionalidade brasileira, dando ênfase à profilaxia dos comportamentos desviantes, direcionando a prática médica para o cuidado com alcoólatras, epiléticos, criminosos e pessoas com sífilis, entre outros, por considerar esses sujeitos mais propensos aos desvios mentais, devido à própria decadência moral e social, e não pelos atributos genéticos e climáticos.

 

Juliano Moreira foi um desses alienistas que, além das suas contribuições para a consolidação da Psiquiatria enquanto ciência, proporcionou inovações teóricas e práticas no que se refere à psique, contribuindo também para o desenvolvimento das produções científicas da Psicanálise e da Psicologia.[19]

 

A teoria científica vigente sustentava que alguns tipos de loucura estariam associadas à progressiva degeneração causada pela sucessão das gerações, e que todo degenerado seria um desequilibrado mental. Conforme Nina Rodrigues,

 

a raça negra no Brasil por maiores que tenham sido seus incontáveis serviços à nossa civilização há de constituir sempre um dos fatores de nossa inferioridade como povo […]  consideramos a supremacia imediata ou mediata da raça negra nociva à nossa nacionalidade.[20]

 

Juliano Moreira foi um dos primeiros intelectuais a contestar a escola racista baiana de medicina, que tinha o professor Raimundo Nina Rodrigues como seu principal porta-voz. Em sua tese denominada “Etimologia da Sífilis Maligna Precoce”, defendida para doutoramento em medicina em 1891, Juliano Moreira já se posicionava contrário às teorias deterministas do clima tropical e da raça na constituição das doenças mentais.

 

Enquanto as teorias raciais de Nina Rodrigues defendiam a ideia da degeneração do povo brasileiro devido à miscigenação, Moreira elaborou seu pensamento e discurso médico-higienista pelo viés da política saneadora, defendendo as condições sociais como causadoras dos distúrbios mentais[21] e, consequentemente, dos comportamentos considerados “anormais”, desafiando a comunidade científica que defendia o pressuposto da existência de doenças mentais próprias dos climas tropicais, considerando, sobretudo, tais ideias como “ridículos preconceitos de cores ou castas […]”.[22]

 

Desde a tese defendida em 1891, Juliano Moreira critica a utilização da categoria raça:

 

A questão das raças continua a ser a origem de dissidência dos competentes. Quantas são as raças? Onde termina a raça branca? Onde começa a amarella? Onde acaba? Onde começa a preta? O que é o Africano Abyssinio? Branco ou preto?[23]

 

Quanto ao posicionamento médico que relaciona raça e sífilis, Moreira defende que não é o elemento raça que predomina, mas as condições de vida:

 

Quando um tratamento conveniente é feito, a syphilis tem no indivíduo de côr preta a mesma benignidade que no de côr branca que trata-se guardadas as diferenças individuaes. […] Esquecem-se de analysar as condições de adaptação dos indivíduos que nelle habitam e o maior ou menor grau de cuidado que eles dedicam ao logar habitado.[24]

 

Juliano Moreira propunha a perspectiva da igualdade das raças, o que possibilitaria a inclusão do miscigenado povo brasileiro num projeto universalista de desenvolvimento. É exemplar, nesse sentido, a apresentação que faz de um doente mental:

 

Tendo demonstrado este doente ao Prof. Nina Rodrigues, achou ele no caso mais uma prova de que a mestiçagem é um fator degenerativo. Ora, tendo eu sempre me oposto a esta maneira superficial de ver o problema, aproveitei uma longa estada na Europa para examinar os parentes de A.P.D. que tinham ficado na Europa, livres da mestiçagem […] vê-se pois que o ramo europeu da família, livre da mestiçagem, em nada foi superior ao ramo mestiço brasileiro.[25]

 

Moreira defendeu em suas publicações a inclusão do mestiço/miscigenado na constituição do povo brasileiro a partir da visão de igualdade das raças – inclusive no universo do adoecimento mental.

 

 

Juliano Moreira, civilização e modernidade: a profilaxia dos hábitos e saúde dos povos

 

Enquanto esteve na Direção do Hospital Nacional dos Alienados, dedicou-se ao aparelhamento hospitalar, organizando os devidos espaços físicos adequadamente para cada atendimento a ser realizado, estabelecendo ainda “a predominância dos consultórios e dos tratamentos ambulatórios e o serviço social psiquiátrico”. Além das reformas físicas e estruturais no prédio do Hospício, e das administrativas na gestão da instituição, Moreira empreendeu reformas teóricas e práticas no cuidados com os internos. Teoricamente, a Psiquiatria brasileira organiza-se numa perspectiva nacional quando Juliano Moreira “empenha-se em verificar e comparar a influência de nossas condições etnográficas e sociais sobre os quadros mórbidos mentais”.[26]

 

Juliano Moreira propunha um projeto universalista de desenvolvimento, de consolidação de uma sociedade moralmente igualitária e profilática em relação às possíveis diferenças físico-orgânicas individuais que, apesar de poderem atingir uma parcela da população, eram independentes do clima e da constituição racial.[27]

 

Na sua tese de doutoramento defendida em 1891, Juliano Moreira já apresentava uma seção específica para a higiene e profilaxia da sífilis e de outras “moléstias venéreas”, defendendo que:

 

 

Além desses aspectos, posicionava-se a favor de punições para as pessoas com sífilis que contaminassem a outrem, inclusive com hospitalização prolongada.[29] O objetivo era evitar que a sífilis se disseminasse ainda mais na população.

 

Juliano Moreira construiu seu ideário civilizatório a partir das ideias organicistas de Emil Kraepelin,[30] “formulando propostas afirmativas desse conhecimento científico especializado e de novos modelos assistenciais” através da intrínseca relação entre doença, ambiente e sociedade.[31]

 

Em 1921, publica o artigo “O novo agrupamento nosográfico das doenças mentais do prof. Emil Kraepelin” valorizando a obra “do sábio mestre de Munich”:[32]

 

A quem já tiver tirocínio da especialidade será por certo muito grata a leitura dos três volumes, porque verificará mais uma vez que o alto espírito do sábio mestre de Munich continua no propósito vivaz de apurar onde paira a verdade definitiva nos domínios do conhecimento das perturbações mentaes.[33]

 

 

Em diversos estudos, Juliano Moreira argumentava ainda a necessidade de combater determinadas práticas como o alcoolismo e condições sanitárias, defendendo que a função mais importante da Psiquiatria seria a higiene mental, a eugenia não racista e sim sanitarista e, principalmente, a profilaxia, apontando que a etiologia da primeira decorria de outros fatores causais: o alcoolismo, a sífilis e as condições educacionais e sanitárias precárias.

 

O álcool representou nesse bárbaro processo de colonização o maior papel inimaginável. Com ele procuraram aumentar a pacatez das vítimas, mas simultaneamente foram-se-lhes infiltrando nos neurônios os elementos degenerativos que, reforçados através do tempo, dão razão de ser de muita tara atual atribuída à raça e à mestiçagem por todos aqueles que não querem se dar ao trabalho de aprofundar as origens dos fatos.[34]

 

 

Defendeu que, em algumas situações, os manicômios possuem um valioso papel na profilaxia das doenças nervosas e mentais, uma vez que afastar o paciente do ambiente familiar previne a saúde mental da população:

 

Entre nós, como algures, aliás, não se tem meditado bastante sobre o papel valioso dos manicômios na profilaxia das doenças nervosas e mentais. As internações não previnem apenas delitos comuns, mas também os atentados contra a saúde mental da população, interrompendo a série de casos mórbidos hereditários.[35]

 

 

Para ele, as determinações causais seriam sociais, de forma que defendeu medidas profiláticas e práticas de eugenia não racial, consolidando-se como um representante do pensamento sanitarista no campo psiquiátrico.[36]

 

Em 1891, Moreira já conclamava:

 

Alerta, então para a luta contra os mais terríveis inimigos do gênero humano de todos os tempos! Que cada um aliste-se entre os valorosos combatentes, ensine, pratique, espalhe pela palavra e pela escripta as doctrinas salutares da nobre hygiene e a syphilis tornar-se-à rara e benigna.[37]

 

 

É preciso considerar que existe um grande desconhecimento do projeto social de modernidade e civilização desenvolvido por Juliano Moreira. As suas contribuições envolvem perspectivas de intervenções sociais através da profilaxia e da atuação política, ampliando, sobretudo, a assistência pública aos alienados e defendendo o trabalho como elemento moralizador e meio disciplinar.

 

 

Considerações finais

 

O estudo dos discursos e práticas de Juliano Moreira permite aprofundar uma reflexão sobre como ele construiu historicamente os significados, sentidos e representações da sociedade e como a modernidade e civilidade no Brasil foram instauradas, pensando, sobretudo, os lugares atribuídos aos negros e afrodescendentes na Primeira República, uma vez que a raça era a categoria de análise social mais importante.

 

Mesmo considerando que os discursos de Juliano Moreira não eram hegemônicos, eles possibilitaram transformações políticas e sociais que não afetaram apenas o Rio de Janeiro, mas que construíram conceitos e visões científicas que prevalecem até este momento, especificamente as discussões envolvendo a reforma psiquiátrica e a “humanização” da saúde no Brasil.

 

Vale ressaltar que as teorias higienistas e sanitaristas desenvolvidas por Juliano Moreira diferiam das visões que caracterizavam o considerado desajustado socialmente sob o enfoque dos determinismos raciais e climáticos, mas enfatizavam as questões sociais nas práticas políticas “modernizadoras” e “civilizatórias”.

 

Os trabalhos analisados até este momento indicam que Juliano Moreira dedicou-se a uma eugenia não racista, e apesar de não esclarecer como a raça era pensada por ele, esses estudos destacam, ao mesmo tempo, sua atuação contra a discriminação racial num Brasil pós-abolicionista.

 

A vida e a trajetória de Juliano Moreira fazem parte dos sonhos e projetos de uma sociedade específica num momento específico. Goldmann[38] afirma que “estudar a história é primeiramente tentar compreender as ações dos homens, os móveis que os moveram, os fins que perseguiram, a significação que para eles tinham seus contemporâneos e suas ações”. Assim, o indivíduo que questiona e responde aos seus próprios questionamentos responde também os questionamentos da sua própria época. Juliano Moreira marcou a História a partir da sua própria história.

 

 

Iara Nancy A. Rios é historiadora e psicóloga. Especialista em Teoria e Metodologia da História e em Psicologia Conjugal e Familiar e Mestre em História Social. Atualmente é doutoranda em Estudos Étnicos e Africanos (CEAO/UFBa). Este texto é parte da tese em andamento.

 

 


 

[1] Lílian M. Schwarcz. O espetáculo das raças: cientistas, instituições e questão racial no Brasil, 1870-1930. São Paulo: Companhia das Letras, 1993.

[2] Arquivo Público da Bahia. Paróquia da Sé. Baptizados. 1861 – 1877.

[3] Lázara de Azevedo Carvalhal. Loucura e Sociedade: o pensamento de Juliano Moreira (1903 – 1930). (Monografia de bacharelado em História, Universidade Federal do Rio de Janeiro, 1997).

[4] José Leme Lopes. “Juliano Moreira”. Jornal Brasileiro de Psiquiatria. Rio de Janeiro, vol. 13, n. 1 (1964), p. 4.

[5] Juliano Moreira. Sífilis maligna precoce (Tese de Doutorado. Faculdade de Medicina da Bahia, 1891).

[6] Academia Brasileira de Ciências. Anais.  Ata da Sessão Ordinária de 23 de maio de 1933. Tomo V, n.2, junho de 1933, pp. 18-36.

[7] Lopes. “Juliano Moreira”. 1964

[8] Correio da Bahia. “Seção Negros Ilustres”. 29.07.2001 [sem numeração de página]

[9] Academia Brasileira de Ciências. Anais.  Ata da Sessão Ordinária de 23 de maio de 1933. Tomo V, n.2, junho de 1933, pp. 18-36.

[10] As punções lombares começaram a ser realizadas regularmente a partir de 1906, além de exames citológicos do líquido encéfalo-raqueano para diagnósticos. Vale ressaltar que Juliano Moreira ainda enquanto estava na Bahia, já realizava as punções lombares. Lopes (1964, p.6) destaca que “foi quem primeiro praticou uma punção lombar em Salvador”.

[11] Academia Brasileira de Ciências. Anais.  Ata da Sessão Ordinária de 23 de maio de 1933. Tomo V, n.2, junho de 1933, pp. 18-36.

[12] Juliano Moreira. Notícia sobre a evolução da Assistência a alienados no Brasil Diretor do Hospital Nacional de Alienados. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1905.

[13] Lázara de Azevedo Carvalhal. Loucura e Sociedade. 1997

[14] Lopes. “Juliano Moreira”. 1964.

[15] Lopes. “Juliano Moreira”, 1964, pp. 13-14.

[16] Lopes. “Juliano Moreira”, 1964, p. 10.

[17] Academia Brasileira de Ciências. Anais.  Ata da Sessão Ordinária de 23 de maio de 1933. Tomo V, n.2, junho de 1933, pp. 18-36.

[18] Academia Brasileira de Ciências. Anais.  Ata da Sessão Ordinária de 23 de maio de 1933. Tomo V, n.2, junho de 1933, pp. 18-36.

[19]  A influência de Freud na cultura brasileira teria ocorrido a partir da primeira referência a ele feita por Juliano Moreira aos seus alunos em 1899. Porém, na sua tese de doutorado defendida em 1891 Freud já foi citado. Afrânio Peixoto registrou que “Freud, novidade de hoje, há trinta anos era estudado por ele na Bahia”. Academia Brasileira de Ciências. Anais.

[20] Raymundo Nina Rodrigues. Africanos no Brasil. São Paulo: Universidade de Brasília, 1982, p. 7.

[21] Juliano Moreira; Afrânio Peixoto. “Les maladies mentales dans les climats tropicaux”. Archivos Brasileiros de Psychiatria, Neurologia e Sciencias Affins, ano II, nº 1 (1906).

[22] Juliano Moreira. “A luta contra as degenerações nervosas e mentais no Brasil”. Brasil Médico, n. II 1922, pp. 225-6.

[23] Moreira. Sífilis maligna precoce, p. 136.

[24] Moreira. Sífilis maligna precoce, pp. 138-39.

[25] Juliano Moreira. “Querelantes e pseudo-querelantes. Archivos Brasileiros de Psychiatria, Neurologia e Medicina Legal”, v. 4, n. 1 e 2 (1908), pp. 431-432.

[26] Lopes. “Juliano Moreira”, 1964, pp. 10-12.

[27] Ana Teresa A. Venancio. “Doença mental, raça e sexualidade nas teorias psiquiátricas de Juliano Moreira”. PHYSIS. Revista de Saúde Coletiva, vol. 14, n. 2 (2004). pp. 283-305.

[28] Moreira, 1891, p. 153

[29] Moreira, 1891

[30] Emil Kraepelin, Psiquiatra e Psicólogo alemão, trabalhou com Wundt, o fundador da Psicologia, e posteriormente foi diretor do manicômio de Munich. Publicou o primeiro trabalho sobre a abolição das medidas coercitivas no tratamento dos alienados. Juliano Moreira. “Prof. Emilio Kraepelin”. Archivos Brasileiros de Neuriatria e Psychiatria, v. 8 n. 3/4 (1926), pp. 131-38.

[31] Venâncio. “Doença mental, raça e sexualidade nas teorias psiquiátricas de Juliano Moreira”, 2004. p.287.

[32] “Sábio mestre de Munich”: está é maneira mais utilizada por Juliano Moreira para se referir ao prof. Emilio Kraepelin. Ver, Juliano Moreira. “O novo agrupamento nosográfico das doenças mentais do prof. Emil Kraepelin”. Arquivos Brasileiros de Neuriatria e Psiquiatria, v. 3, n.1-2 (1921), p. 181-89 [Traduzido de Einführung in die psychiatrische Klinik, 1921].

[33] Juliano Moreira. “O novo agrupamento nosográfico das doenças mentais do prof. Emil Kraepelin”. Arquivos Brasileiros de Neuriatria e Psiquiatria, v. 3, n.1- 2 (1921), p. 182 [Traduzido de Einführung in die psychiatrische Klinik, 1921].

[34] Juliano Moreira. Noticia sobre a evolução da Assistência a alienados no Brasil Diretor do Hospital Nacional de Alienados. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1905, p. 729.

[35] Moreira, 1905, p.367

[36] A. M. G. R. Oda. “A teoria da degenerescência na fundação da psiquiatria brasileira: contraposição entre Raimundo Nina Rodrigues e Juliano Moreira”. Psychiatry On-line Brazil – part of The International Journal of Psychiatry, v. 6, n. 12 (2001). Disponível em <http://www.polbr.med.br/arquivo/wal1201.htm>. Acesso em 23 de Março de 2015.

[37] Moreira, 1891, p. 141

[38] Lucien Goldmann. Dialética e Cultura. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1979, p. 25.