REVISTA ELETRÔNICA DA BIBLIOTECA VIRTUAL CONSUELO PONDÉ – N.3 MAR DE 2016. ISSN 2525-295X

ARTIGO

 

 

O ARROCHA É POP, BABY!

 

Nadja Vladi

 

 

Carnaval de 2015. Ao longe já se escuta a voz aguda e o som do teclado. No trio elétrico a mais nova estrela da música baiana, Pablo. O cantor de 1,69m de altura é ovacionado pelo público que o segue pelas ruas de Salvador. Com camisa e calças apertadas, peito à mostra, aos 30 anos, Pablo é um pop star disputado por estrelas como Ivete Sangalo, Claudia Leitte, Saulo Fernandes e Daniela Mercury. Todos querem tê-lo como convidado no trio para cantar o arrocha, um gênero[1] que nasceu na Região Metropolitana de Salvador, no final dos anos 1990, e que caiu no gosto do Brasil, a partir de 2013.

 

O arrocha começa a ser produzido e consumido na cidade de Candeias, Região Metropolitana de Salvador (RMS), no final dos anos 1990. O nome “arrocha”, que batiza o gênero, é uma alusão à forma de dançar “arrochado”, ou, em outras palavras, “agarradinho”, como diz uma das precursoras do estilo, a cantora Nara Costa.[2] Embora de consumo massivo, o arrocha sempre esteve às margens da indústria fonográfica, forçando os atores sociais a criar novas formas de distribuição e produção proporcionadas pelo acesso mais barato às tecnologias. No ano de 2001, o arrocha dominou o mercado informal de vendas de CD’s na RMS e artistas do gênero saíram em excursão pela Bahia fazendo shows em praças públicas lotadas de pessoas que queriam dançar ao som das batidas do teclado programável.

 

 

Nara Costa canta “Arrocha”

 

 

Herdeiro do bolero cubano e das serestas,[3] a base rítmica do arrocha é suportada, inicialmente, por um teclado-arranjador (que contém ferramentas específicas para a criação de arranjos) e uma guitarra. As letras têm como assunto principal o sofrimento, sempre pautado por um amor não correspondido. A experiência musical evocada nos shows de Pablo,[4] por exemplo, é de “sofrência” (um neologismo para “sofrimento”) do espectador. A intensa paixão abordada nas letras faz do gênero um representante genuíno da latinidade brasileira e provoca identificação de boa parte do público. O arrocha, de certo modo, faz uma atualização local do bolero cubano, essência da música romântica latina. Gênero que nasceu em Cuba no final do século XIX, tem influências do bolero espanhol[5] e sonoridades afrodescendentes. Adotar a sentimentalidade como temática de suas músicas, falar dos devaneios vividos por uma grande parcela do público consumidor foram fatores importantes para a projeção do arrocha, tanto na Bahia, como em todo o Brasil.

 

 

Pablo canta “Porque homem não chora”

 

 

O arrocha surge como movimento pop periférico,[6] assim como o tecnobrega[7] do Pará. Ambos os gêneros, incialmente, compartilham uma produção independente, distante das gravadoras e dos canais de comunicação de massa; o uso de novas tecnologias para barateamento da produção; e o consumo dos seus produtos nas periferias das capitais e cidades do interior. Na sua popularização, o arrocha herda das serestas um público consumidor e amplia o mercado quando apresenta um bolero com uma marcação mais rápida, cria uma dança sensual aliada às performances dos músicos e se insere no novo mercado da música.

 

A maioria das bandas grava seus discos em estúdios desvinculados da chamada indústria fonográfica, apesar de grandes estrelas como Pablo e Tayrone já estarem vinculados a gravadoras. Ao contrário da produção mainstream,[8] que tenta combater a pirataria, o mundo do arrocha incentiva a distribuição de suas canções através dos ambulantes pelas cidades afora. De forma rápida, essa música começa a circular, distribuída em feiras populares, camelôs e outros centros comerciais, vendida a preços compatíveis com o bolso de seu público. A principal intenção ao produzir os discos é divulgar a série de canções que estão na pauta dos shows. O que mais importa ao arrocha é a “experiência musical dos shows e a atmosfera festiva”.[9]

 

Pablo no Carnaval 2014

 

A forma barata e fácil de circulação e sua identidade latina romântica proporcionaram a expansão do arrocha para além da periferia de Salvador, e o posicionou em diferentes territórios geográficos e afetivos a partir de determinadas negociações estéticas. Um dos principais nomes dessa nova cara do arrocha é a banda Kart Love, liderada pelo músico Lucas Karr. A banda é formada por guitarra, baixo, bateria, sanfona e, claro, o teclado. As típicas batidas do teclado estão presentes, mas dividem a cena com uma bateria mais marcada e presente. Kart Love se aproveita do andamento do arrocha, e inclui bateria e guitarra, elementos característicos do pop rock, que permitem um diálogo mais próximo com o público jovem urbano.

 

Podemos observar, como coloca Felipe Trotta[10] ao analisar a banda cearense de forró eletrônico Aviões do Forró, que também Kart Love lança mão de uma previsibilidade sonora que “aciona, assim, uma memória musical na qual a identificação de modelos no repertório desencadeia complexos processos de compartilhamento afetivo”.[11] Esse reconhecimento sonoro possibilita que o arrocha forjado por Kart Love estabeleça um compartilhamento de afetividades que se aproxima da canção pop nacional.

 

 

Kart Love canta “180 360”

 

 

Apesar de o arrocha ser uma prática musical fortemente marcada pelo caráter romântico das composições – com letras que tratam, sobretudo, das desventuras de amor e das famosas “dores de corno”, essa aproximação com o pop nacional vem provocando mudanças poéticas e estéticas.  À medida que se aproximou de outros públicos, sobretudo dos jovens, o arrocha adotou temas como festas, bebedeiras, internet e sonhos de consumo (carros, mansões) para emoldurar as traições amorosas.

 

Kart Love busca uma sofisticação pop para o arrocha, que pode ser observada na forma como produz seus videoclipes. Enquanto estrelas como Pablo e Silvanno Salles não tinham produzido um único videoclipe até 2014, Kart Love já lançava os seus singles com videoclipes com roteiro, direção, atores. Ao mesmo tempo em que busca uma audiência jovem e urbana, tenta redirecionar a posição hierárquica do arrocha como uma música pop nacional urbana. Entretanto, mesmo a renovação estética de Kart Love e seu apelo pop juvenil não muda a posição da crítica musical que desqualifica o gênero, considerado musicalmente inferior, assim como o pagode e o axé music, por exemplo.

 

O que observamos é uma prática musical nascida na Região Metropolitana de Salvador e em movimento se deslocando por outros territórios estéticos. Kart Love se posiciona cada vez mais próximo do universo pop rock, acrescenta novos temas, como bebidas, consumo, internet, sem deixar de reforçar aspectos importantes do arrocha como a traição e o sofrimento amoroso. O teclado continua lá, mas dividindo espaço com a guitarra e a bateria, cada vez mais pop e se aproximando do forró eletrônico. Essa mudança, como diz Trotta, faz com que não exista uma “especificação de local nas letras das composições, mas a busca de um cosmopolitismo pop e jovem como a música sertaneja, o pagode e o forró”.[12]

 

O diálogo do arrocha com a música pop é diagnosticado pelo sociólogo israelense Motti Regev como cosmopolitismo estético, um conceito que mostra como determinadas práticas musicais buscam elementos estéticos, sonoros, ideológicos e mercadológicos que se aproximem de uma música pop mundial. Para Regev, cosmopolitismo estético “(…) é a formação em curso de uma cultura mundial como uma entidade complexa e interconectada”.[13] Ele sugere a existência de uma cultura mundial que fomenta uma ideia de modernização, utilizando uma espécie de idioma estético apoiado em um senso de singularidades das culturas nacionais. Essa estratégia tem sido bem sucedida. A banda pernambucana Aviões do Forró gravou, em 2011, a canção Chora, que traz uma letra compatível com o sofrimento recorrente no arrocha. O sucesso do carnaval de Salvador de 2014, a canção Lepo Lepo, gravada pela banda Psirico, tem fortes influências do arrocha. O sertanejo Gusttavo Lima regravou Fui Fiel, de Pablo, em 2013. O que reforça a tese de que o arrocha está, cada vez mais, ocupando seu espaço na música pop nacional.

 

Cantor sertanejo Gusttavo Lima cantando “Fui fiel”

 

 

 

Sotaque pop: música boa ou ruim?

 

A escuta do arrocha acontece em shows, rádio, canais como YouTube, telefones celulares, sites, uma dinâmica que o posiciona em um lugar similar ao do tecnobrega e do reggaeton, mas não faz com que mude sua posição na hierarquia da música brasileira. Afinal, ao excluir determinadas músicas e incluir outros da etiqueta de música de qualidade, estamos estabelecendo determinadas regras para incluir ou excluir gêneros, o que faz parte da disputa de poder dentro do campo da cultura. Ao falar do tecnobegra e do reggaeton, Janotti chama atenção como esses gêneros “periféricos” “(…) são valorados por suas inovações em torno de seus modos de circularidade e afirmação identitária das periferias e, ao mesmo tempo, negligenciadas em seus aspectos sonoros”.[14]

 

 

A desqualificação de um gênero está relacionada com o conceito que se formou de bom gosto musical a partir da valoração de determinados aspectos presentes na música erudita. Como afirma Trotta, as práticas musicais ocidentais enquadradas neste chamado “bom gosto” são aquelas que se aproximam de “complexidade harmônico-melódica, sofisticação poética e sonoridade de arranjo rica em contrapontos e variação de texturas instrumentais (…)”.[15] Dessa forma, uma música com clichês melódicos, sentimental, direta, rotineira, corporificada, como é o arrocha, estaria distante de elementos que a qualificariam como música de “bom gosto”.

 

Entretanto, segundo o pesquisador Thiago Soares,[16] inovação, criatividade, reapropriação – mesmo num modo de produção capitalista, massificada e hegemônica – são formas utilizadas pela música pop para buscar reconhecimento e legitimidade nessa esfera da cultura pop. Como afirma Soares, a música pop potencializa o clichê e dessa forma tem um pertencimento transnacional: “uma espécie de grande comunidade global que, a despeito dos aspectos locais e da valorização de questões regionais, aponta para normas distintivas e de valores que estão articulados a ideias ligadas ao cosmopolitismo, à urbanização, à cultura noturna”.[17]

 

Em busca de se afirmar como música pop, o arrocha passa a adotar a formação de uma big band trocando os solos do teclado-arranjador por orquestrações, como vem fazendo Pablo. Kart Love, após trazer a marcação rítmica da bateria e da guitarra para o arrocha, lança a canção Sei que te amo, em que toca um piano de cauda. O arrocha encontra-se nesse momento em um processo de afirmação usando as convenções da música pop nacional (citadas acima por Soares), tanto do ponto de vista mercadológico quanto estético.

 

 

Kart Love canta “Sei que te amo”

 

 

No Brasil, percebemos a transformação de uma música mais tradicional em busca de elementos modernizadores, mais urbanos, que amplie o público e transite com mais facilidade entre o local e o global. Este é o caso do arrocha, do forró eletrônico, do tecnobrega. Para Janotti, o que se observa, a partir das lentes da cultura pop, “são modos de circular no universo cultural contemporâneo através de uma tonalidade cosmopolita”.[18] Podemos observar que tanto Kart Love como Tayrone,[19] outro sucesso do arrocha, lançam mão de uma previsibilidade sonora, uma escuta confortável e o uso de naipes de sopros, vários violões, ou seja, saem daqueles três instrumentos – teclados, sax e guitarra – para uma orquestração, uma forma de fortalecimento como pop global.

 

O arrocha, apesar de profundamente local, toma a direção do pop porque compartilha valorações globais na sonoridade, na performance dos artistas, no sentimentalismo de suas canções, nas técnicas vocais. É a busca de legitimação de determinados grupos sociais periféricos a partir da diversificação e da internacionalização, é também, como bem coloca Regev, uma resistência simbólica ao lugar periférico que essas práticas culturais estariam submetidas no campo da produção cultural.  Arrocha é resistência.

 

 

Tayrone Cigano canta “Alô porteiro”

 


 

 

Nadja Vladi é jornalista, doutora em Comunicação e Cultura Contemporâneas pela Facom/UFBA e professora adjunta do Cecult/UFRB, realiza a pesquisa “O pop periférico é global”. 

 

 


 

[1] Neste artigo utilizamos gênero como categoria cultural. Como coloca Itania Gomes: “[…] em que este [o gênero] não apareça como uma entidade fixa, em que ele não seja apenas classificação ou tipologia da programação televisiva, mas que seja considerado como uma prática de produção de sentido”. Itania Gomes. “Gênero televisivo como categoria cultural: um lugar no centro do mapa das mediações de Jesús Martín-Barbero”. Revista FAMECOS, vol. 18, n. 1 (2011), pp. 111-130, p. 113. Disponível em:

<http://revistaseletronicas.pucrs.br/ojs/index.php/revistafamecos/article/viewFile/8801/6165>.

[2] Nara Costa era cantora de MPB e começou a cantar arrocha em Candeias. Foi uma das precursoras e um dos principais nomes do gênero.

[3] Segundo Luciano Gallet, a seresta é o choro, com a mesma formação instrumental, ou diversa – acompanhando um cantor solista popular. As serestas, hoje em dia em decadência nos grandes centros, foram o regalo da geração passada, e realizavam-se nas ruas, nas praias, especialmente em noite de luar. (www.dicionariompb.com.br).

[4] Pablo é considerado o “criador” do termo arrocha. De tanto usá-lo em seus shows virou o nome do gênero. Com 14 anos de carreira, Pablo é o maior fenômeno do arrocha. Em 2013, lançou DVD e CD pela gravadora Som Livre.

[5] “[…] dança e canção espanhola, em andamento moderado e compasso ternário, popular no final do século XVIII e todo decorrer do século XIX. O bolero cubano, que sobrepujou o espanhol na América Latina, é em compasso binário”. Stanley Sadie (ed.) Dicionário Grove de Música. Rio de Janeiro Jorge Zahar, 1994, p. 119.

[6] Para o antropólogo Hermano Vianna, em entrevista para o jornal O Estado de São Paulo, o termo pop periférico tem uma ligação direta entre a ascensão das novas classes médias brasileiras e a revolução digital na música: “As gravadoras do mundo, que comandaram o mercado mundial de música popular, praticamente entraram em colapso. Milhares de pequenos estúdios surgiram em todas as periferias. Seus produtos são distribuídos na Internet e são um sucesso sem rádio, jornais ou na televisão. […] O pop periférico está entre os principais desenvolvimentos culturais brasileiros nas últimas duas décadas”. (Ivan Marsiglia. “O abacaxi da cultura”. Estado de S. Paulo, 11/02/2013).

[7] “O tecnobrega nasceu do brega tradicional, produzido nas décadas de 1970 e 1980, quando se formou o movimento do gênero no Pará. Na década de 1990, incorporando novos elementos à sua tradição, os artistas do estado começaram a produzir novos gêneros musicais, como o brega calypso, influenciados pelo estilo caribenho. No início dos anos 2000, por volta de 2002, surgiu o tecnobrega” (Ronaldo Lemos & Oana Castro. Tecnobrega: o Pará reinventando o negócio da música. Rio de Janeiro: Aeroplano, 2008, p.21).

[8] “[…] abriga escolhas de confecção do produto reconhecidamente eficientes, dialogando com elementos de obras consagradas e com sucesso relativamente garantido” (Jorge Cardoso Filho; Jeder Janotti Jr. “A música popular massiva, o mainstream e o underground: trajetórias e caminhos da música na cultura midiática”. In: João Freire Filho; Jeder Janotti Jr. Comunicação e música popular massiva. Salvador: Edufba, 2006.

[9] Felipe Trotta. “O Forró de aviões: a circulação cultural de um fenômeno da indústria do entretenimento”. Trabalho no XVII Encontro da Compós, na UNIP, SP, em junho de 2008.

[10] Trotta. “O Forró de aviões”.

[11] Trotta. “O Forró de aviões”, p. 7.

[12] Trotta. “O Forró de aviões”, p. 11.

[13] Motti Regev. “Pop-Rock Music. Aesthetic Cosmopolitanism in Late Modernity”. Cambridge: Polity Press. 2013, p. 3.

[14] Jeder Janotti Jr.  Rock me like the devil: a assinatura das cenas musicais e das identidades metálicas. Recife: Laboratório de Papel Finíssimo Editora, 2014, p.31.

[15] Felipe Trotta. O samba e suas fronteiras: pagode romântico e samba de raiz nos anos 1990. Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 2011, p. 106.

[16] Thiago Soares. “Percursos para estudos sobre música pop”. In: Simone Pereira de Sá; Rodrigo Carreiro; Rogério Ferraraz. Cultura Pop. Salvador/Brasília: Edufba/Compós, 2015.

[17] Soares. “Percursos para estudos sobre música pop”, p.28.

[18] Janotti Júnior.  Rock me like the devil, p. 47.

[19] Tayrone nasceu em Cachoeira, Recôncavo Baiano. Cantor há 11 anos, já gravou seis CDs e nove DVDs. Atualmente é um dos maiores sucessos do arrocha na Bahia.