REVISTA ELETRÔNICA DA BIBLIOTECA VIRTUAL CONSUELO PONDÉ – N.1 JUL DE 2015. ISSN 2525-295X

ARTIGOS

 

 

O CORTEJO E A CARA DA BAHIA

BREVES DIGRESSÕES SOBRE A FESTA DO 2 DE JULHO EM SALVADOR

 

Milton Moura

 

 

Quem procura velhas fotografias da Festa do 2 de Julho pode perceber quanto enlevo e reverência, quanta empolgação e alegria tomavam conta da multidão. O centro da Festa era o tempo todo a passagem do Caboclo e da Cabocla. Havia sim outros elementos, como o Major Cosme de Farias de terno quadriculado, brandindo uma cartilha. Muitas vezes, levaram-se carros alegóricos com homenagens aos heróis, sendo Maria Quitéria e Joana Angélica as mais aplaudidas dentre eles. As escolas preparavam seus alunos para um dia especial. Fanfarras, pelotões e porta-bandeiras se esmeravam misturando civismo, vaidade e orgulho. O 2 de Julho era um festival de autoestima da cidadania baiana. Corais revestidos de certa solenidade às vezes esperavam a passagem dos Caboclos. Cadeirantes, idosos, parentes de longe e perto vinham ver. Botavam-se cadeiras na calçada, levavam-se sacolas com sanduíches de queijo e mortadela enrolados em panos de prato úmidos. A Lapinha vivia um clima especial, com alvorada, mingau e tudo mais.

 

Chamam a atenção, de uns trinta anos para cá, as transformações que a Festa vem experimentando, tensionando, colorindo e continuando o quadro acima. Alguns aspectos não se observam mais, como o tom de solenidade. Outros perduram, modificados. Afinal, ainda há alvorada e mingau na Lapinha. E o Batalhão Quebra-Ferro continua conduzindo com perícia e maestria os carros dos Caboclos, muita força na subida, muito cuidado na descida.

 

Com a multiplicação dos militantes partidários no contexto da redemocratização, a partir dos anos 80, multiplicaram-se também as bandeiras, os apitos e as quantidades de jovens e adolescentes que, seguindo as instruções de seus mentores, procuram visibilizar, mesmo que não saibam muito o que. E uns se manifestam diante dos outros, de modo que, nos momentos em que não estão disputando evidência no mesmo campo, não buscam mais visibilizar-se. Poucos chegam a olhar os Caboclos.

 

Por sua vez, a cada ano, enquanto aguardam um discurso de alguém do Instituto Geográfico e Histórico ou por este convidado, os Caboclos veem passar toda sorte de curiosos, devotos, políticos, militantes, candidatos e outros cidadãos, em meio a foguetes, cata-ventos, panfletos, picolés, coxinhas, pastéis, sacos de pipoca, garrafinhas de água e latinhas de cerveja. De 2 em 2 anos, tudo isto se mistura à propaganda eleitoral; a depender do momento político, também aos protestos.

 

Diante dos Caboclos, perfilam-se desde os anos 60 os itaparicanos da Associação Cultural Grupo Indígena “Os Guaranis” – vestidos de índio, como se diz –, levando à frente um estandarte, trazendo também crianças. De uns tempos para cá, juntam-se outros grupos, como representantes da Associação Maria Felipa, da mesma ilha, alguns coletivos de capoeira, manifestantes feministas, etc.

 

As escolas que se apresentavam com suas fanfarras, tanto de Salvador como de cidades próximas, eram muito apreciadas até o início do nosso século. Com o desgaste dos governos diante dos professores e a falta de verbas para as despesas com os uniformes de gala, instrumentos, flâmulas e bandeiras, a presença dessas escolas e suas bandas tem se arrefecido. O que mais está fazendo falta, nesse cortejo das escolas, são os balizos. Muito antes das paradas gays oficiais na Avenida Sete, eram ovacionados como atrações especiais, exaltando o homoerotismo masculino em performances notáveis.

 

A Festa pode mudar consideravelmente de um ano para o outro. Às vezes, são tantas entidades que se inserem entre o Caboclo e a Cabocla que estes ficam distantes entre si, produzindo certa frustração entre aqueles que todo ano vêm testemunhar a passagem do casal. Entre estes grupos, já esteve um bloco de baianas vestidas com papéis de sonho de valsa reciclados. São chamados projetos culturais, quase sempre clientes das programas do governo estadual para o setor.

 

E os Encourados de Pedrão? Faltaram em 2011 porque os motoristas se atrasaram para trazê-los. Em 2012, militantes de uma ONG ambientalista impediram sua passagem além da Praça Municipal, alegando que os cavalos estavam sendo mal tratados. Em 2013, vieram com o apoio da Prefeitura e dos associados de Pedrão. Em 2014, a Fundação Gregório de Matos lhes declarou que não convidaria participantes de fora de Salvador, ressaltando que fora processada por uma ONG que alegava maus tratos dos animais. A mesma lógica que tirou os jegues da Lavagem do Bonfim e da Mudança do Garcia. Esse tipo de militantes de movimentos de classe média se compraz em atrapalhar aquilo que é a alegria do povo, impondo o politicamente correto racionalista e opaco.

 

À medida que os Caboclos se aproximam do Pelourinho, o que tem acontecido nestas últimas décadas é a concentração cada vez maior de manifestantes, candidatos e políticos no meio daqueles que, emocionados, aguardam a subida das imagens. No Largo do Pelourinho, flores da Irmandade do Rosário dos Pretos são depositadas no carro do Caboclo. Toques do Olodum e clarins dos Filhos de Gandhi, bolas de soprar tanto em verde e amarelo como em azul, vermelho e branco e, por vezes, presenças singulares como a de uma pequena representação de uma bateria de escola de samba do Rio de Janeiro. A passagem de políticos destacados em meio a seguidores e seguranças é um breve momento de glória, desde o Boqueirão e a Cruz do Pascoal até a rua Alfredo Brito. Já chegando ao Terreiro, políticos e manifestantes se dispersam, de costas para os Caboclos, desfazendo-se as estratégias de visibilização. Os Caboclos vão descansar numa quitanda armada em frente à entrada do Elevador Lacerda, de costas para a Câmara. Às vezes, acontece o Te Deum. Outras vezes, as portas da Catedral permanecem fechadas.

 

À tarde, depois que os itaparicanos dos Guaranis almoçam junto ao que foram o Cine Tamoio e o Cine Guarani, retoma-se a marcha. Já não há mais autoridades e a polícia é menos numerosa. Aparecem de toda parte crianças conduzidas por pais e avós cuidadosos. A acústica da Avenida Sete permite que se escutem bem os hinos dos Guaranis, acompanhados da batida dos atabaques e das flechas contra os arcos. Muitos senhores gays do Largo 2 de Julho estão ali à espera, tomando muita cerveja, entregando-se à pândega e à galhofa. No meio da rua, o destaque também é para os balizos remanescentes. Aqueles que se mantêm empertigados, de queixo erguido e sem sorrir, levam ao delírio os foliões do passeio. Depende do talento de cada balizo. Alguns outros arrancam aplausos vibrantes com presepadas olímpicas.

 

Quando as imagens se aproximam do Campo Grande, uma pequena multidão que os esperava junto ao Forte de São Pedro se aglutina para ver a chegada. Muitas crianças com cata-ventos e bolas de soprar, além de engenhocas produzindo espumas e efeitos luminosos. O cortejo já é um pouco diferente. À frente dos Caboclos e dos Guaranis, perfila-se a moça trajada de Maria Quitéria, envergando a espada de He Man. No Natal, ela é Papai Noel; na Semana Santa, o Coelhinho da Páscoa; no Dia das Mães, um coração de plástico cor de rosa.

 

A Festa do 2 de Julho sabe agregar. Junto a Maria Quitéria, Tio Souza, membro dos Filhos de Gandhi, com túnica, gorro e bastão. Um homem caracterizado como selvagem, os cabelos compridos e desalinhados, uma pele de jaguatirica em volta do tórax, adereços de metal e colar de dentes de porco, vem engrossar o préstito singular. Aparecem novamente as autoridades para o momento solene. Às vezes, corais cantam o Hino ao 2 de Julho. Logo depois, desfaz-se tudo aquilo e o Campo Grande é uma aquarela da baianidade, estando ou não em crise, seja ela o que quiser cada leitor que neste momento percorre o artigo.

 

Começam a chegar oferendas à quitanda preparada para os Caboclos aí no Campo Grande. Vidros de alfazema, abóboras, acarajés, flores, todo tipo de fruta, cédulas e moedas. Enquanto os guardas protegem os carros dos Caboclos do apetite dos pombos, devotos chegam com mais oferendas e deixam bilhetes. Alguns destes são colocados bem dentro do carro, discretamente. Outros são expostos para que todos os vejam. “Minha Cabocla querida, vim aqui para lhe pedir a casa de Marinalva, ela merece e está precisando, sofrendo muito com isso”. Ou um manifesto contundente, radical, desafiador: “Meu Caboclo e minha Cabocla, eu quero que vós me deis vida e saúde até o ano que vem, senão eu não posso vir aqui para vos salvar”. Estas pessoas chegam nas tardes do dia 3, 4 e 5, sentando-se à sombra próxima dos carros, contando casos intermináveis sobre outros 2 de Julhos. “Pois é, ela não perdia um. Se estivesse viva, com certeza estaria aqui”. E quem duvidaria?

 

À noite, em algumas centenas de casas de Caboclo em boa parte da cidade, os encantados vão se manifestar nos seus cavalos. Boiadeiro, Tupinambá, Sete Flechas, Marujo, Nuvem Branca, Jupira, Sultão das Matas, Pena Branca, Jurema, Martim Pescador, Rei da Hungria, Mineiro… Enfim, a corte das matas, convidando às vezes Padilhas, erês e outros encantados menos canônicos, transforma becos dos bairros populares do centro, como Garcia e Barbalho, e terreiros dos bairros mais recentes e afastados, como Cajazeiras e Águas Claras, numa fantástica apoteose de penas, cachaça, fumo, mel e farofa. Os chamados grandes candomblés, os mais importantes, os mais antigos, não batem para os Caboclos. Quando lhes arreiam oferendas, é discretamente, para não despertar desconfianças quanto à sua autenticidade, à superioridade que lhes atribuía o médico do Terreiro de Jesus.

 

Nas noites dos dias 2, 3 e 4, o Maestro Fred Dantas apresenta filarmônicas e orquestra ao pequeno público de coroas que conhecem passos de dança de salão e jovens que assistem… Alguns vão olhar os Caboclos na quitanda aí junto, outros os acham curiosos, outros ainda sequer os percebem. Milho e amendoim lembram que estamos em tempo de festas juninas, mas também há churrasquinho e cachorro quente. O palco é armado com primor, não faltando, a depender de quem fez a decoração, personagens como Joana d’Arc e o Conde d’Eu. Todos querem participar da Festa, mesmo estas insólitas figuras reunidas pela remota nacionalidade e pela letra d com o apóstrofe. Estariam ali trazidos pelo fantasma de Labatut? Somente uma festa como a do 2 de Julho faria homenagem a alguém tão destoante de tudo isto…

 

E assim continuam os Caboclos no Campo Grande, até sua guardada no panteão da Lapinha, na noite do dia 5. Vão os dois, mas toda a gente diz que é “a Volta da Cabocla”. Alguns grupos já trajam camisas impressas. Um deles faz uma coreografia com chapéus de palha ao subir o São José, já próximo da Soledade. As bandas se alternam, puxando um repertório que se remete ao Caboclo, além de sucessos como Amigos para siempre, de Julio Iglesias.
Não há manifestantes e, assim, a visibilidade dos Caboclos é máxima. O cortejo segue muito rapidamente. Tempos atrás, dizia-se: “Lá vem a enxovia do Caboclo”. É uma farra esse retorno à Lapinha. Todos sorriem. Um toque de gozo agonístico se apodera daqueles mais fiéis neste encerramento da Festa dos Caboclos. É como um Carnaval na madrugada de Cinzas. Na hora de entrarem os donos da Festa no panteão, de costas – às vezes depois de duas ou três tentativas, pois a porta é estreita –, alguns devotos se lançam sobre os carros para arrancar uma flor, uma palma, uma bênção.

 

Enquanto aguardam outro 2 de Julho, os Caboclos continuam surpreendendo quem se dispõe a escutá-los, revelando e embaraçando, desvendando mistérios e criando outros, afirmando seus traços mestiços, mediando certezas de religiões seculares, deslizando pelos interstícios do mundo como se fosse o mato. Ancestral e contemporâneo, compenetrado e histriônico, trazendo na reconfiguração do índio projetos passados, presentes e futuros. Brasilidades esforçando-se por fazer sentido diante dos brincantes e oficiais de outras brasilidades. O cortejo dessas possibilidades reúne os índios de José de Alencar, a casa de Marinalva e os personagens de Brown e Gerônimo.

 

É uma esculhambação; ninguém consegue comandar direito a festa dos Caboclos. A festa é deles. Tudo vai parar na cabaça de Tupinambá, como os bolinhos de tapioca que Dona Lurdes trouxe de São Félix para deixar no carro dele no Campo Grande. São para o menino que morreu de uma bala perdida em São Gonçalo. Junto, um pequeno cocar. “Ele usou na escola no dia do índio, depois no Carnaval. Eu quis botar no caixão, mas o pai é crente e não deixou”.

 

Tão bela cabeça ornada de penas verdes e amarelas, um penacho azul à frente, o arco e a flecha apontando para a Lua, como os Caboclos de Itaparica. Aruê, Caçador!

 

 

Milton Moura é professor de História da Universidade Federal da Bahia e coordenador do grupo de pesquisa O Som do Lugar e o Mundo.

 

Fotos: Carolina Ruiz