REVISTA ELETRÔNICA DA BIBLIOTECA VIRTUAL CONSUELO PONDÉ – N.2 OUT DE 2015. ISSN 2525-295X

ARTIGO

 

 

OS SAPATOS DE NOSSOS ANCESTRAIS NA BAHIA COMPANHIA DE CALÇADOS TROCADERO (1879-1923)

 

Marc W. Herold

 

 

A Companhia de Calçados Trocadero ilustra bem o movimento do capitalismo moderno em Salvador antes da virada do século XX (nem um pouco característico da estagnação econômica, frequentemente afirmada pelo chamado “enigma baiano”1). Naturalmente, já havia uma tradição artesanal muito antiga de produção de sapatos à mão com o couro amplamente disponível no Sertão do Nordeste e vendido no vasto mercado informal; os sapatos eram também importados da Europa e da América do Norte. A historiadora Katia Mattoso mencionou que, em 1875, os principais itens importados para Salvador eram tecidos de algodão, linho, seda, vinhos, medicamentos, utensílios de ferro, sapatos, chapéus, produtos feitos com ouro ou prata etc.Em 1913, o Brasil importou 786.626 dólares em botas e sapatos de couro (destes, os EUA forneceram 72,5%).3 A marca norte-americana Walk-Over era especialmente popular na Bahia e no Brasil.4 Em 1910, os principais sapatos americanos no mercado brasileiro eram Walk-Over, Packard, Regal, Ford, Hanan, Florscheim, Selz e Roberts.5

 

O fato de a fabricação de calçados ter começado tão cedo na Bahia permanece, em grande medida, desconhecido, e muitos autores apontam, em vez disso, a fábrica criada em Novo Hamburgo no Vale dos Sinos (RS), em 1888, por Pedro Adams Filho (1870-1935), filho de um imigrante alemão.6

 

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A empresa de calçados da Bahia foi criada em 1879, quase dez anos antes da empresa gaúcha, por Oliveira & Batista. Estes foram sucedidos por Santos e Figueira, e no início do século XX a fabrica passou à propriedade do imigrante português Manuel Martins dos Santos e do brasileiro Francisco Monteiro Mascarenhas.Martins dos Santos havia imigrado para a Bahia em 1879, casado numa tradicional família da elite agrária, os Cavalcanti de Albuquerque, e ascendeu socialmente até se tornar, no início de 1900, diretor da Associação Comercial da Bahia. Mascarenhas só ingressou na empresa em 1906.

 

A Trocadero ilustra bem o padrão vigente na Bahia de então: a introdução de novos produtos e empresas por estrangeiros ou imigrantes de primeira geração. Os britânicos, por exemplo, introduziram os produtos de algodão de Manchester, o linho e a manteiga da Irlanda, o tênis, o golfe, o uísque, as cervejas inglesas Bass e Guinness, a porcelana, a corrida de cavalos, os sapatos Thomas Bostock e Clark, os relógios Patek Philippe e Roskoff, além de muitos outros artigos para o consumo da classe alta baiana do final do século XIX. Um par de sapatos norte-americanos para adultos, em 1910, era vendido, no Brasil, no varejo, a preços que variavam entre 6,10 e 9,50 dólares ou o equivalente a entre 11 e 24 dias de trabalho bem pago naquele momento.8

 

Por volta de 1920, um relatório americano ressaltou que havia cerca de 60 fábricas de calçados no Brasil equipadas com máquinas elétricas, das quais 42 no Rio, onze em São Paulo, cinco no Rio Grande do Sul e duas na Bahia.9 Alguns podem, rapidamente, inferir que este fato comprova o “enigma baiano” em 1920 (com Salvador muito atrás do Rio de Janeiro). Mas, como eu demonstro no Apêndice, quando se compara a escala (medida pela população) com o Produto Interno Bruto, Salvador saia-se muito bem (seria até de se esperar duas em vez de três fábricas de calçados).

 

A primeira fábrica de ‘Santos e Mascarenhas’ situava-se no distrito dos Mares, no bairro de Roma, em Itapagipe,10 e sua loja de varejo era na elegante Rua das Princesas, na cidade baixa.

 

Fonte: Revista Renascença, anno I, nº V, outubro 1916. Seção de Periódicos Raros da Biblioteca Pública do Estado da Bahia

Fonte: Revista Renascença, anno I, nº V, outubro 1916. Seção de Periódicos Raros da Biblioteca Pública do Estado da Bahia

 O capital da fábrica foi estimado em 300 mil réis, ou 99 mil dólares americanos (considerando o valor do dólar11 em 2014, equivaleria a mais de 2 milhões de dólares). A Trocadero produzia cerca de 250 pares de sapatos por dia. A tecnologia de ponta era importada da United Shoe Machinery Corp. (em Boston) nos Estados Unidos, e as máquinas de costura de solas, que tinham substituído a costura manual, foram importados da McKay Blake (de Boston). A United Shoe Machinery Co. de Boston abriu uma filial no Brasil por volta de 1909. Em outras palavras, naquele momento, os sapatos eram feitos em Salvador com a máquina que havia revolucionado a produção de calçados. As matérias-primas eram adquiridas nos EUA, Alemanha, França, Grã-Bretanha, bem como em Pernambuco, Rio Grande e São Paulo. A produção era supervisionada por Alvaro A. dos Santos, que fora enviado aos EUA para aprender as técnicas de fabricação de calçados.

 

 

 

A produção da Trocadero, 250 pares de calçados por dia, destinava-se a homens, mulheres e crianças; e era também distribuída fora da Bahia, especialmente para Pernambuco, Ceará, Pará e Manaus. Quatro vendedores cobriam o comércio de Manaus ao Rio Grande do Sul, além de Rio de Janeiro e São Paulo. Os sapatos da Cia de Calçados Trocadero eram vendidos em toda a zona rural por vendedores ambulantes.12 Em 1921, a fábrica empregava 82 trabalhadores (47 homens, 25 mulheres e 10 crianças), e em 1923, a Trocadero estava operando em uma nova fábrica na Avenida Luiz Tarquínio em Itapagipe, empregando 120 trabalhadores.13

 

Por volta de 1920, sapatos e sandálias eram produzidos em Salvador pelas seguintes empresas: Cia de Calçados Trocadero, Gama & Gama, João Gomes & Cia, Bonelli & Cia, Barlatta & Cia, Fabrica de Calçados Stella e Manuel Paes & Cia,14 além de importados do sul e vendidos em Salvador pela famosa companhia britânica de sapatos, Casa Clark. Os sapatos Clark tornaram-se a marca registrada de um brasileiro bem-vestido. A Stella anunciava seus sapatos como “O melhor calçado do Brasil feito na Bahia.” A franquia havia sido lançada no Brasil, em 1910, pela Fábrica de Calçados Stella, propriedade do italiano Sampaio, Irmãos & Cia.

 

Em 1921, os trabalhadores empregados nas três fábricas de calçados modernos estavam distribuídos da seguinte forma:

 

Tabela 1

Trocadero Stella Gama & Gama
Mas. Fem. infantil    total Mas. Fem. infantil    total Mas. Fem. infantil    total
47     25         10            82 26     23         18           67 25     15         6          46

Fonte: Aldrin Armstrong Silva Castellucci, “Salvador de los Operarios: Uma historia da Greve General de 1919 na Bahia”. Tese de Doutorado em História, Universidade Federal de Bahia, 2001, p. 30. Disponível em http://www.ppgh.ufba.br/wp-content/uploads/2013/12/Salvador-dos-Operarios.pdf

Um relatório publicado em 1923 destacou a produção de sapatos destas três empresas modernas em Salvador: a Fábrica Stella, em Nazaré, produziu 38.000 pares; Gama & Gama, em Plataforma, 31.300; e Trocadero, em Itapagipe, 21.600. Isso significou 0,31 pares de sapatos per capita em Salvador naquele ano, ou um novo par de sapatos para cada três pessoas.15 O que, certamente, não demonstra que a Bahia, com três modernas fábricas de calçados em 1920, vivesse uma situação de atraso e estagnação econômica, que tivesse uma classe capitalista não empreendedora, ou fosse um enigma a ser decifrado.

 

Apêndice

 

A importância da escala para fazer comparações de cortes transversais

Quero demonstrar que é um equívoco inferir uma estagnação da Bahia a partir dos dados que mostram 42 fábricas de calçados no Rio de Janeiro e apenas 3 na Bahia. Essa diferença não se deve à estagnação, mas sim a escalas radicalmente diferentes das duas cidades (como isso veio a acontecer está fora de discussão aqui).

Primeiro, calculo a relação entre população e fábricas de sapatos nas duas cidades em 1920:

 

 

Cidade População em 1920 Fábrica de calçados

Número de pessoas atendidas

por um fábrica

Salvador 283.422 3 94.474
Rio de Janeiro 1.115.873 42 26.568

 

Este cálculo mostra que, em Salvador, com uma população muito menor, uma fábrica servia a um maior número de habitantes.

 

Mas, em seguida, demonstro que quando se introduz a produção da cidade, calculada pelo PIB, que permite estimar o tamanho do mercado, então, Salvador está muito bem em termos relativos. A ideia é que o tamanho do mercado e o tamanho da população não são os mesmos. Mas o tamanho do mercado é muito relevante para explicar o número de fábricas existentes.

 

Dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, IPEA, sobre o PIB das cidades brasileiras estão disponíveis (a preços de 2000) para 1920.  O PIB do Rio de Janeiro em 1920 foi de R$ 1.505.966, e o de Salvador, de R$ 168.259. Para calcular o tamanho do mercado, eu construo a relação entre estes dois e, em seguida, comparo Rio e Salvador da seguinte forma:

 

(População/fábricas no Salvador), devem ser comparadas com (PIB de Salvador/PIB do Rio) X (população/fábricas de Rio)

 

O resultado é (168,259/1.505.966) x 94,474 = 10.392 pessoas em Salvador servidas por uma fábrica, em comparação a 25.568 no Rio de Janeiro.

 

Em outras palavras, ajustando pela escala da cidade (medida pela população) e o tamanho do mercado da cidade (medido pelo PIB), as fábricas de Salvador, na verdade, servem, em média, um número menor de habitantes. Então, quando corrigido para o tamanho do mercado, uma fábrica de calçados em Salvador serve menos clientes do que uma fábrica no Rio. Dizer que Salvador estava estagnada porque tinha menos fábricas de calçados do que o Rio é errado. Por que qualquer capitalista racional em Salvador construiria outra fábrica de calçado dado o tamanho muito menor do mercado?

 

Marc W. Herold é professor do Departamento de Economia da Universidade de New Hampshire. Este texto é parte de um trabalho em andamento, In the Shadows of Sugar. Power and Change in Twentieth Century Bahia: An Archeology of Modernity. From Senhores de Engenho to ‘Chemical Barons’.

Tradução de Mariângela de Mattos Nogueira

Pesquisa iconográfica de Reginaldo Sales

 


 

Originalmente formulado por Manoel Pinto de Aguiar, Notas sobre o “Enigma Baiano” (Salvador: Edição Progresso em conjunto com a Comissão de Planejamento Econômica do Estado da Bahia, 1958), para decifrar as razões do atraso econômico e desigualdade social da Bahia, um estado que foi uma das principais economias do País até o século XIX.

Mattoso, Bahia, a cidade do Salvador e seu mercado no século XIX. São Paulo: Editora Hucitec, 1976, p. 242.

Edward Whitney, International Trade in Footwear Other Than Rubber. Washington D.C.: miscellaneous series nº76, Bureau of Foreign and Domestic Commerce, Department of Commerce, 1919, p. 16-17.

Citado por Thales de Azevedo, A francesia baiana de antanho. Salvador: Centro de Estudos Baianos nº 110, Universidade Federal da Bahia, 1985, p. 15.

Arthur B. Butman, Shoe and Leather Trades in Brazil, Venezuela, and Barbados. Washington: Special Agents Series nº 41, Bureau of Manufactures, Department of Commerce, Government Printing Office, 1910, p.: 30. A íntegra do relatório pode ser lida em https://goo.gl/BemW8K

“Abicalçados na defesa do calcado brasileiro”, disponível em http://www.abicalcados.com.br/site/abicalcados.php?id=5

Informações importantes sobre a Trocadero em Reginald Lloyd e N. Feldwick, L.T. Delaney, Joaquim Eulalio (eds.), Twentieth Century Impressions of Brazil. London: Lloyds Publishing Co Ltd, 1913. Ver tradução em http://www.novomilenio.inf.br/santos/h0300g42b.htm

Butman, Shoe and Leather, p. 30.

Para uma história do comércio de sapatos e couros no Brasil até 1919, ver Herman G. Brock, Boots and Shoes, Leather and Supplies in Brazil. Washington: Special Agent Series nº 179, Bureau of Foreign and Domestic Commerce, United States Government Printing Office, 1919, p. 33-35. Este excelente relatório pode ser lido no Google Livros em https://goo.gl/HpxqGE

10 Andrea Cronin, ”The McKay Stitcher: The Machine that Revolutionized Footwear Production: The Beehive Official blog of the Massachusetts Historical Society, sem data, disponível em http://www.masshist.org/blog/1029

11 A taxa de câmbio em 1910 era hum mil réis = $ 30.4 US (Butman, Shoe and Leather, p. 28)

12 Ver, por exemplo, ”Vitoria de Conquista. O ‘Radio Clube de Conquista’”, Taberna da História do Sertão Baiano (sem data) em http://tabernadahistoriavc.com.br/page/7/?s=santa+casa+de+misericordia

13 Chistiane Maria Cruz de Souza, “A Gripe Espanhola na Bahia: Saúde, politica e medicina em tempos de epidemia”. Tese de Doutorado em Historia das Ciências e da Saúde da Casa do Osvaldo Cruz (FIOCRUZ), 2007, p. 212.

14 Luis Henrique Tavares, História da Bahia. Salvador: Editora da UFBA, 2001, p. 367.

15 Mas esta é uma estimativa exagerada considerando que alguns destes sapatos foram exportados para outros lugares no Brasil.