REVISTA ELETRÔNICA DA BIBLIOTECA VIRTUAL CONSUELO PONDÉ – N.3 MAR DE 2016. ISSN 2525-295X

ARTIGO

 

 

OS TEXTOS NÃO LITERÁRIOS DE ADONIAS FILHO: PERSPECTIVAS EM ABERTO

 

Marcus Mota

 

Embora Adonias Filho seja mais conhecido por suas obras ficcionais, acima de tudo ele foi um escritor engajado no uso da palavra em suas mais diversas modalidades e situações: crítica literária, divulgação de ideias, debates políticos, crônicas, pareceres técnicos, prefácios etc.

 

O material resultante é imenso e ainda não catalogado. O volume gigantesco das fontes aponta para a necessidade de edição desse material como forma de subsidiar sua apreciação. Para introduzir o tema, parto de um viés pouco explorado na bibliografia sobre Adonias Filho: a rubrica ensaísmo ideológico.[1]

 

Como se sabe, Adonias Filho não seguiu em sua carreira o tradicional percurso que se esperava de jovens intelectuais brasileiros – o diploma de bacharel. Depois de concluir seus estudos secundários em 1934, parte em 1936 para o Rio de Janeiro e trabalha em jornais e editoras. O trabalho em redações de jornais o acompanha em grande parte de sua vida, tendo sido eleito, durante o período da ditadura militar, presidente da Associação Brasileira de Imprensa (1972-1974). Mesmo como secundarista escrevia para jornais de Salvador – Diário de NotíciasO Impacial.[2]

Tal projeto ideológico conservador o acompanha durante toda sua vida. Seja nos textos nos jornais, seja em outras publicações, Adonias Filho não apenas veicula seu credo metafísico na palavra escrita: também transforma essa palavra em diversas ações e participações na vida pública. Sobre os escritos, além dos textos nos jornais, temos outras publicações nessa linha:

 

1- Bloqueio Cultural (Martins Fontes, 1964)

2- O cidadão e o civismo: Educação Moral e Cívica, suas finalidades (Ibrasa/INL, 1982).

3- Estradas do Brasil (Editora Image. Ministério dos Transportes, 1973)

 

Adonias Filho, ex-ministro Eduardo Portella e Gilberto Freyre. Foto: Arquivo do Museu Adonias Filho

 

 

O primeiro livro dialoga com o Renascimento do Homem, apresentando uma abordagem atualizada do embate ideológico durante o período da Guerra Fria. Como no ensaio de 1937, Adonias percorre diversos autores sem construir uma argumentação: a estilização do texto expande teses acatadas de antemão. Em todo caso trata-se de proposições de cunho universalizante, com a defesa de valores maiores como a ‘liberdade’. A abstração resultante adquire um caráter coercitivo e definitivo, como se os valores em si mesmos se justificassem.

 

Para a segunda publicação, organizada por Adonias Filho, nosso autor escreveu um capítulo, “Pequeno ensaio sobre o cidadão e o civismo”, realizando uma espécie de aplicação didática desses valores. Novamente não há discussão: os valores se impõem a partir de sua apresentação apriorística. Em sua generalidade e amplo espectro, tais valores são a base de uma sociedade. O consenso é construído a partir do acatamento das premissas. No projeto ideológico de Adonias Filho há essa tentativa de fazer valer no aqui e agora um mundo das ideias perfeito em si mesmo.

 

O terceiro texto é uma variação local desse projeto ideológico: o desenvolvimentismo em que a “revolução rodoviária” é uma de suas faces.  Adonias faz a apresentação de um catálogo de fotos que manifestam a integração nacional via asfalto. Não é por acaso que este tema encontrará contrapartida ficcional na obra Fora de Pista (Civilização Brasileira, 1978): embora Adonias Filho deixasse bem claro seu intento de autonomizar sua produção ficcional frente a textos de outra natureza, em diversos momentos há uma aproximação entre tais realizações.

 

O caso do ensaio Sul da Bahia: Chão de Cacau (Civilização Brasileira, 1976) é sintomático: o livro apresenta uma grande pesquisa em fontes e documentos, como se vê na bibliografia, embora Adonias Filho não tivesse formação para realizar tal empreendimento. O livro acaba por ser uma defesa de instituições técnicas responsáveis por planejar e organizar as ações da cultura cacaueira, após um levantamento histórico de tipos e ideias e períodos cronológicos dessa cultura.[4] A contrapartida ficcional desse ensaio está no Auto de Ilhéus (Civilização Brasileira), que segue a cronologia exposta em Sul da Bahia: Chão de Cacau.

 

Ainda nessa linha, o romance Luanda Beira Bahia (Civilização Brasileira, 1971) articula-se com a prévia viagem como delegado ao II Congresso das Comunidades de Cultura Portuguesa em Moçambique, ocorrida em 1967. A formação de um discurso cultural pró-África dentro da agenda política brasileira em fins de anos 1960 passa pela ficção adoniana.[5]

 

Jorge Amado, Gabriel Garcia Marquez, Adonias Filho

 

Há casos híbridos: o romance Um homem de Branco (Bertrand Brasil, 1987) é uma biografia romanceada do fundador da Cruz Vermelha, Jean-Henri Dumont. Destina-se a formar valores para um público juvenil. Daí seu hibridismo: misto de educação moral e narrativa.

 

Essa linha propedêutica acompanhou Adonias Filho há muito em sua carreira, em diversas das atividades paralelas ao mundo das letras: cursos para professores, participação em bancas de exame de magistério, resenhas de livros didáticos e discussão de questões ligadas ao livro didático e à educação e em seus textos nos jornais e revistas. Além disso, cabe acrescentar sua participação em organismos culturais como a Biblioteca Nacional (1961-1971) e o Conselho Federal de Cultura, os quais tinham repercussão direta em questões educacionais.

 

Ainda antes, em seus primeiros trabalhos profissionais, Adonias Filho moveu-se por esses ideais formativos ao traduzir obras como Gaspar Hauser, de Jacob Wassermann (EPASA, 1943), A família Bronté, de Robert de Traz (Editora Pan Americana, 1944), O pântano do diabo, de George Sand (Editora Pan Americana, 1944), Golovin, de Jakob Wassermann (Editora Ocidente, 1944), O processo Maurizius, de Jacob Wassermann (Editora Olympio, 1946), esta em parceria com o Octávio de Faria.

 

Essa intensidade editorial será depois retomada em sua parceria com a Ediouro/Tecnoprint na tradução e adaptação de obras paradidáticas, na maioria das vezes do polígrafo catalão José Noguer Poch. Trata-se da coleção Os grandes Personagens e A História e de biografias de grandes figuras históricas. Entre os títulos temos: Sócrates (o mais sábio dos homens), Demóstenes (O leão de Atenas), Aristóteles (Vida de Aristóteles-Símbolo da Sabedoria Humana), Alexandre o Grande, Arquimedes (O maior dos sábios da Antiguidade), Júlio Cesar (o Senhor do Mundo),[6] Sêneca (Contemporâneo de todas as épocas), Carlos Magno, Ricardo Coração de Leão, Leonardo Da Vinci (o Homem da Renascença), Miguel Angelo (O mestre dos mestres),[7] Joana Darc (A donzela de Orleans), Cristóvão Colombo (o descobridor), Napoleão (O filho da revolução). Tais biografias para o público infanto-juvenil foram apresentadas em edições de bolso, baratas, entre 90 e 160 páginas. De fato, mesmo sendo adaptações de originais, demandaram grande energia e tempo por parte de Adonias Filho. Assim se aproximam momentos iniciais e finais da carreira de Adonias Filho: uma produção intensa de obras não originais para o mercado, obras estas marcadas por um caráter formativo, inspiracional.

 

Assim, par a par com seu projeto ficcional, Adonias Filho realizava um projeto intervencionista na cultura nacional ao prover publicações para o grande público que evidenciam escolhas axiológicas bem claras: a defesa de um humanismo heroico-trágico, o das figuras isoladas que contribuem para todas e pouco se beneficiam dessa contribuição. Desse modo, mesmo que haja uma crítica, uma oposição a algo, esse humanismo heroico-trágico não se concentra na denúncia, e sim na aceitação, na resignação, pois, o bem maior, a doação suprema, passa pela automortificação.

 

Como se pode observar, mais para o fim de sua carreira literária, os títulos não literários e/ou de perfil híbrido predominam: Adonias vai despedindo-se da ‘grande literatura’ para cumprir um papel de formador de opinião e produtor de obras paradidáticas. Não se trata de mensurar esse movimento em uma escala, propondo algo como literatura maior ou menor. São projetos escriturais diferentes. Exemplo disso temos, por exemplo, o texto Uma Nota de Cem (Ediouro 1973). Esse apólogo moral moderno, mesmo que eivado de digressões sobre a cobiça e corrupção dos costumes, possui em vários momentos a assinatura de um grande estilista do idioma. E mais: em 1937, iniciando-se em sua produção textual publicada, sob o pseudônimo de Raul, Adonias publica uma narrativa chamada ‘História de um vintém’, cuja protagonista, uma moeda, faz crítica ao materialismo e à ambição muito comuns na sociedade.[8]

 

Dessa forma ligam-se as pontas: o escritor que se inicia em livro com o ensaísmo de O Renascimento do Homem em 1937 sempre teve em mente os grandes valores, a utopia, o uso da escrita como um instrumento de intervenção cultural.  Este ambicioso projeto desdobrava-se no autoesclarecimento e nas publicações que objetivavam insuflar este ânimo pelas maiores e melhores coisas.

 

É assim que se faziam os intelectuais nos trópicos: estes se dedicavam a causas e ideias em si muito relevantes, mesmo que muitas vezes sem nenhum resultado efetivo além da formação de grupos ligados por interesses mútuos.

 

Em todo caso, seus últimos livros, seu canto do cisne, demonstram um vigor outro, alheio ao autismo das ideias e dos ideais: Os Bonecos de Seu Pope (Ediouro, 1990) e o póstumo O Menino e o Cedro (FTD, 1992) apresentam uma superação do melancólico estoicismo dos trágicos herois da cultura em prol do fantástico, do extraordinário da vida em seus instantes entre o fascínio e a fragilidade da beleza e a brutalidade dos homens e das coisas.

 

 

APÊNDICE

 

Nas crônicas escritas para o jornal Última Hora, Adonias Filho assume um papel mais beligerante, defendendo e atacando posições dentro da dicotomia mundo ocidental versus comunismo.[9] Como forma de indicação para outras leituras e para compreensão de outras facetas de Adonias Filho, aponto as seguintes crônicas:

 

A ideia e o terror final”, de 18/11/1983;

A Ilha”, de 20/12/1983;

A nossa igreja”, de 22/03/1983;

“As direitas e o voto livre”, de 8/11/1983;

“As patrulhas ideológicas”, de 2/08/1983;

“Economias em confronto”, de 19/04/1983;

A estatização dos bancos“, de 24/05/1983;

A Rússia e a União Soviética”, de 21/09/1983;

“A engenharia”, de 13/12/1983;

A denúncia”, de 27/12/1983;

“Escolaridade e trabalho”, 18/01/1983;

“Futuro sem futuro”, de 12/04/1983;

“Goeldi”, 10/01/1984;

“O intelectual e a revolução”, 25/01/1983;

“No fundo das cavernas”, 13/12/1983;

“O equívoco socialista”, 31/05/1983;

“O espectro de Marx”, 29/03/1983;

“O fracasso socialista”, 7/02/1984;

“O pesadelo do Rio”, 17/05/1983;

“O poder conservador”, 15/03/1983;

“O problema habitacional”, 26/04/1983;

“O quadro negro”, 31/01/1984;

“O voto facultativo”, 6/12/1983;

“Os conservadores”, 8/02/1983;

“Os motins contra Mitterrand”, 10/05/1983;

“O outro Vietã”, 26/07/1983;

“Que democracia é esta?”, 12/07/1983;

“O terror tribal”, 3/05/1983;

“Um ano começa”, 03/01/1984;

“Um quadro assustador”, 7/07/1983″;

“A Unesco e a imprensa”, 14/02/1984;

“Voltando ao que já fomos”, 21/06/1983;

“Um ano roxo”, 11/01/1983.

 

Marcus Mota é professor de Teoria e História do Teatro na Universidade de Brasília. É dramaturgo e compositor com diversos espetáculos realizados, entre eles os musicais As partes todas de um Benefício (2003), Salada para três (2003), Um dia de Festa (2004) Saul (2006), Caliban (2007), No Muro (2009), David (2012), Sete contra Tebas (2013) e Uma noite de Natal (2013).

 

 


 

 

[1] Não vou aqui abordar os textos de crítica literária.

[2] http://panorama-direitoliteratura.blogspot.com.br/2015/02/adonias-filho-vida-obra.html. Sobre o material do jornal Imparcial, ver A.M. Pinho. Uma história da literatura de Jornal: O imparcial da Bahia (Tese de Doutorado, PUC-RS, 2008).

[3] Para uma análise mais detida da obra, ver R.N. Dantas. Entre a Arte, a História e a Política: Itinerários e representações da ‘Ficção Brasiliana’ e da nação brasileira em Adonias Filho (1937-1976) (Tese de Doutorado, Unicamp, 2010). “Futuro sem futuro”, de 12/04/1983;”Goeldi”, 10/01/1984;”O intelectual

[4] Agradeço diálogo esclarecedor com R. Dantas sobre este tópico.

[5] L. Reis. “Relações comerciais e políticas entre Brasil e Angola: uma possibilidade em Luanda, Beira, Bahia de Adonias Filho”. Littera1, n. 1 (2011), pp. 405-418; M. A. S. Souza. Renegado começo: discurso fundacional e mestiçagem. Narrativas de Jorge Amado, Sosígenes Costa e Adonias Filho (Tese de Doutorado, UFBA, 2010). Para uma crítica ao romance, M.L. Lepecki. “Resenha crítica de Luanda Beira Bahia”, Colóquio Letras, n. 6 (1972), p. 90.

[6] O original deste é de Maria Luz Morales.

[7] Recontado por Adonias Filho a partir do original de José Baeza.

[8] Pinho. Uma história da literatura de Jornal, p.113.

[9] Agradeço a Cyro de Mattos pela informação da existência das crônicas.