REVISTA ELETRÔNICA DA BIBLIOTECA VIRTUAL CONSUELO PONDÉ – N.4 AGO DE 2016. ISSN 2525-295X

ARTIGO

 

 

“BAIANIDADE” E ARQUITETURA MODERNA: DA INTEGRAÇÃO DAS ARTES À BUSCA POR UMA ARQUITETURA REGIONALISTA

 

Nivaldo Vieira de Andrade Júnior 1

 

Instituto do cacau

 

A constituição de uma identidade regional: a “baianidade”

 

A ideia de “baianidade” foi construída a partir da década de 1930, através da produção de um grupo de artistas e intelectuais, dentre os quais se destacam inicialmente o romancista Jorge Amado (1912-2001) e o compositor Dorival Caymmi (1914-2008), ambos baianos. A partir da segunda metade dos anos 1940, artistas e intelectuais forasteiros, como o artista plástico argentino Carybé (1911-1997), o pintor sergipano Jenner Augusto (1924-2003), o jornalista pernambucano Odorico Tavares (1912-1980) e o fotógrafo francês Pierre Verger (1902-1996) se radicam na Bahia e contribuem para consolidar e difundir localmente, mas também no restante do Brasil e no exterior, essa “identidade baiana”.

 

A partir do início deste século, têm-se ampliado os estudos acadêmicos voltados a analisar a identidade baiana e os valores culturais a ela associados. Agnes Mariano, por exemplo, em sua dissertação de mestrado intitulada “A arte de ser baiano segundo as letras de canções da música popular”, defendida em 2001, analisa as “canções que, cada qual a seu modo, enunciam um modo baiano de ser e viver através de narrativas, dissertações e descrições de diferentes aspectos, ritos e qualificativos definidos como próprios dos baianos.” (MARIANO, 2009, p. 33)2

 

Mariano (2009, p. 33) destaca que, embora muitos dos compositores analisados por ela não fossem baianos – e alguns deles sequer tenham conhecido a Bahia3 –, é indiscutível “o papel que eles exerceram na constituição e manutenção do tema da baianidade no imaginário local e nacional.”

 

Dentre os temas que contribuíram para a constituição da baianidade e que são recorrentes não só nas canções analisadas por ela, mas também nos trabalhos de literatos e cronistas da primeira metade do século XX, Mariano (2009, p. 34) destaca “os temas da religiosidade, alimentação, aptidão especial para a dança e alguns traços psicológicos que caracterizariam uma ‘personalidade baiana’.” Mariano (2009, p. 71) observa ainda que “a beleza da cidade, do mar, das igrejas e sobrados aparece aqui e ali, mas com frequência e em dimensões extremamente menores àquelas encontradas na segunda metade do século, quando Salvador se torna um produto turístico […].”4

 

Deste modo, a música popular brasileira contribui indiscutivelmente para consolidar uma Bahia “da magia, dos feitiços e da fé”5, “terra da felicidade”6. Enfim, uma ideia de Bahia mítica e mística que permanecerá no imaginário coletivo ao longo das décadas seguintes, até os dias de hoje.

 

No mesmo período, iniciado na década de 1930, estes elementos que constituem a baianidade, como as festas populares, a culinária local, as danças, o candomblé, a capoeira e a baiana sedutora “que desperta o apetite sexual”, serão recorrentes também nos romances de Jorge Amado. A partir de meados da década de 1940, essa presença se amplia com a chegada à Bahia de nomes como os artistas plásticos Carybé (argentino) e Jenner Augusto (sergipano), o fotógrafo francês Pierre Verger e o jornalista pernambucano Odorico Tavares, além da adesão dos principais artistas plásticos modernos locais, como Carlos Bastos (1925-2004), Genaro de Carvalho (1926-1971) e Maria Célia Amado (1921-1988). De modo geral, e ainda que com nuances em cada caso, estes e outros artistas e intelectuais trabalharão em suas obras os mesmos temas da baianidade identificados por Agnes Mariano. Verger, por exemplo, que havia decidido se transferir para Salvador após ler o romance “Jubiabá” de Jorge Amado, em 1946, tornaria-se conhecido pelas fotografias das festas populares, do candomblé e da gente baiana. A obra de Carybé, por sua vez, está impregnada pela ideia de baianidade, com suas mulatas, seus orixás e capoeiristas e suas puxadas de xaréu.

 

Deste modo, entre as décadas de 1930 e 1950, se constituiu uma identidade baiana – a baianidade –, calcada em elementos e símbolos tradicionais, como as festas populares, os pescadores, as frutas tropicais, a feira popular e a culinária baiana, e indiscutivelmente vinculada a aspectos selecionados da cultura local.

 

 

Baianidade versus modernidade?

 

A constituição de uma identidade regional – a baianidade – baseada em símbolos tradicionais e populares encontra semelhanças com o Manifesto Regionalista do pernambucano Gilberto Freyre, originalmente redigido em 1926 – apenas quatro anos após a Semana de Arte Moderna de São Paulo – e publicado em 19527. Segundo Ruben George Oliven, em seu manifesto Freyre defende “a conservação dos valores regionais e tradicionais do Brasil em geral e do Nordeste em particular” e “faz a defesa do popular que precisaria ser protegido do ‘mau cosmopolitismo e do falso modernismo’” (OLIVEN, 2002, p. 26). Para Oliven (2002, p. 28, grifos nossos), Gilberto Freyre “constrói uma oposição que, em última análise, se resume a: popular e regional equivalem a tradicional (e bom), ao passo que cosmopolitismo equivale a modernismo (e ruim). Sua posição aproxima-se muito da visão dos românticos que se ocuparam da cultura popular na Europa do século XIX […].”

 

Não é paradoxal, portanto, que a constituição e difusão da ideia de baianidade, entre as décadas de 1930 e 1950, seja contemporânea ao aparecimento, na Bahia, das primeiras expressões de uma modernidade arquitetônica em um primeiro momento claramente referenciada na Europa – Bauhaus e expressionismo, dentre outros (Figuras 01 e 02) – e, em um segundo momento, vinculada à escola carioca de Oscar Niemeyer (1907-2012), Lucio Costa (1902-1998) e Affonso Eduardo Reidy (1909-1964), dentre outros. Podemos mesmo entender a constituição da baianidade enquanto identidade calcada na tradição e no popular como uma reação às transformações urbanas e sociais decorrentes do crescimento demográfico de Salvador e do início das ações de planejamento moderno da cidade.

 

 

instituto-cacau
Escola_Normal_da_Bahia

 

Em cima e embaixo, respectivamente – Instituto do Cacau da Bahia, projeto do alemão Alexander Büddeus, logo após sua inauguração, em 1939, e Escola Normal da Bahia, projeto de autor desconhecido (atribuído ao mesmo arquiteto), logo após sua inauguração, em 1939.
Fonte: Acervo da Construtora Carioca Christiani-Nielsen, Rio de Janeiro.

 

Portanto, tampouco são paradoxais os contrastes existentes entre a Bahia pré-moderna retratada entre os anos 1930 e 1950 nas canções de Caymmi, nos romances de Amado e nas pinturas de Carybé e outros, e as radicais transformações propostas para Salvador entre 1943 e 1950 no âmbito do Escritório do Plano de Urbanismo da Cidade do Salvador (Epucs), sob a coordenação do engenheiro Mario Leal Ferreira (1895-1947) e do arquiteto autodidata Diógenes Rebouças (1914-1994). Enquanto a voz de Caymmi encanta o Brasil e o exterior com as sacadas e sobrados da Velha São Salvador, onde “há lembranças de donzelas do tempo do imperador”8, divulga a (fictícia) existência de 365 igrejas na antiga capital brasileira9, registra as festas populares10 e exalta espaços bucólicos e anti-urbanos como a Lagoa do Abaeté e Itapuã11, o Epucs está desenhando vias de alta velocidade para os vales da cidade e propondo alterações modernizadoras no tecido urbano da cidade fundacional que incluem o alargamento e a retificação de vias, visando a incorporação em larga escala dos automóveis (Figura 03).

 

Dorival Caymmi que, com Jorge Amado, “inventou” a Bahia e Diógenes Rebouças que, com Mário Leal Ferreira, modernizou Salvador através do Epucs, não apenas pertenciam à mesma geração, mas nasceram com um intervalo de apenas uma semana, em 1914. Entretanto, suas visões de cidade são radicalmente distintas. Como observa Antônio Risério (1993, p. 108-109), “Caymmi compôs uma versão idealizada da Bahia. […] ele ignora o que não se ajusta à imagem diferencial da região. É o caso das novidades urbanas, por exemplo”. Risério registra que

 

Caymmi recriou esteticamente a Cidade da Bahia tal como a conheceu entre as décadas de 20 e 40 […]: uma cidade tradicional, semi paralisada, culturalmente homogênea, curtindo seus dias de vagarosa estância da vida urbana pré-industrial. […] Sua leitura do espaço estético é esquiva às novidades urbanísticas pós-coloniais. Para ele, Salvador é a cidade do samba de roda, das velhas igrejas, de pé de guiné no caco de barro, da batida do agogô no afoxé. Não é nunca a cidade do cálculo de engenharia, do incipiente planejamento urbano, da agência bancária, do sonho industrialista têxtil. Não: é a Bahia das sedas e das rendas; das feiras e dos casórios; das mulatas, gamelas e malaguetas (RISÉRIO, 1993, p. 63).

 

A construção de grandes avenidas e grandes obras de engenharia, o planejamento urbano e qualquer “novidade urbanística pós-colonial”, como aqueles propostos e, em parte, executados pelo Epucs, são, portanto, opostos à visão romântica de baianidade constituída por Caymmi e companhia.

 

Proposta EPUCS 1940

 

Projeto elaborado pelo Epucs na década de 1940 propondo a criação de moderna e retilínea avenida na área fundacional de Salvador (hoje Centro Histórico de Salvador).

Fonte: Arquivo Histórico Municipal/Fundação Gregório de Mattos/Prefeitura Municipal de Salvador.

 

 

Integração das artes: arquitetura “carioca” e arte “baiana”

 

Se a literatura, a música popular, as artes plásticas e até mesmo a fotografia modernas baianas, produzidas entre meados da década de 1940 e o final da década de 1960, se caracterizam pela temática regionalista, veremos que, de modo geral, a arquitetura moderna produzida na Bahia no mesmo período se referencia na arquitetura europeia – especialmente a obra de Le Corbusier – e principalmente, na arquitetura carioca de nomes como Oscar Niemeyer, Lucio Costa e Affonso Eduardo Reidy, dentre outros.

 

A influência da produção carioca na Bahia neste período decorre da admiração dos arquitetos locais, em especial Diógenes Rebouças, pelos colegas do Rio de Janeiro, e da atuação recorrente de profissionais da Capital Federal no Estado, muitos deles, como Roberto Burle Marx (1909-1994), Alcides da Rocha Miranda (1909-2001), José de Souza Reis (1909-1986) e Paulo Antunes Ribeiro (1905-1973), a convite direto do Epucs. As consultas aos colegas do Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Sphan) no Rio de Janeiro, como Costa, Rocha Miranda e Renato Soeiro, eram constantes por parte de Rebouças, tendo ocorrido no processo de desenvolvimento de alguns de seus principais projetos, como o Complexo Esportivo da Fonte Nova e o Hotel Paulo Afonso.

 

Assim como nas obras da escola carioca, a integração das artes se tornou corrente na arquitetura moderna baiana das décadas de 1940 a 1960, quase sempre através de pinturas murais e outras intervenções nos elementos de vedação dessas obras. Dezenas de edificações modernas construídas no período na Bahia incorporaram obras de arte dos principais artistas modernos baianos, como Carybé, Mário Cravo Júnior (nascido em 1923), Jenner Augusto, Genaro de Carvalho, Carlos Bastos e Maria Célia, além de, excepcionalmente, obras de forasteiros como Candido Portinari e Carlos Magano.12

 

Essa integração entre artes plásticas modernas e arquitetura de vanguarda na Bahia apresenta algumas contradições. Enquanto a arquitetura é caracterizada pelos pilotis, telhados borboleta, cobogós, brise-soleils e esquadrias em venezianas de madeira e vidro da escola carioca de matriz corbusiana, as obras de artes integradas, inseridas nas fachadas e nos interiores de residências unifamiliares, edifícios de apartamentos e de escritórios, hotéis, escolas e até mesmo hospitais, adotavam quase sempre temas ligados à baianidade, como os orixás, as festas populares, os capoeiristas e os pescadores.

 

Esta contraditória integração entre uma arquitetura de certo modo “carioca” e obras de arte orgulhosas de sua baianidade pode ser percebida em obras de diferentes escalas, de arquitetos locais ou forasteiros. No Hotel da Bahia (1947-51), projeto do baiano Diógenes Rebouças e do carioca Paulo Antunes Ribeiro, o restaurante abriga um monumental afresco intitulado “Festas Regionais”, pintado em 1950 por Genaro de Carvalho. Considerado à época o maior mural do Brasil, com 50 m de circunferência por 4 m de altura, o mural do restaurante do Hotel da Bahia é representativo do rumo que o muralismo baiano assumiria nas décadas seguintes: embora possua claras influências do cubismo, trata-se de uma ode à cultura popular baiana.

 

O mural de Genaro de Carvalho foi a primeira manifestação, no muralismo moderno baiano, desta expressão regionalista, focada na cultura popular local e que será a tônica da maior parte da produção de artistas como Carybé ao longo das décadas seguintes. Na apreciação do crítico de arte José Valladares,

 

[…] dentro de uma organização espacial herdada do cubismo, com predominância do amarelo, do terra e do azul, tão gritantes em nossa paisagem, o verde, o vermelho e outras cores de nosso meio marcando certo ritmo, apresenta o mural meia dúzia de cenas da chamada Bahia histórica e pitoresca, todas simplificadas plasticamente (VALLADARES, 1951a, p. 191, grifo nosso).

 

As primeiras casas construídas na Bahia inspiradas pela arquitetura da escola carioca foram projetadas pelo irmão caçula de Diógenes Rebouças, o engenheiro civil Antônio Rebouças (1922-2013), em parceria com o arquiteto autodidata Lev Smarcevscki (1924-2004): são a residência Jorge Cintra Monteiro (1948), no bairro da Graça; as casas de Raul Faria (1949) e Manuel Marques de Souza (1950), no bairro da Barra; e a residência Waldemar Gantois (1949), na longínqua praia de Piatã – à época, tão bucólica quanto a Itapoã de Caymmi. A vinculação destas residências à escola carioca é evidente, pelos pilotis – ora de seção circular, ora em “V” –, pelo telhado borboleta, pelas marquises, pelos cobogós e pelas esquadrias em veneziana de madeira e vidro.13

 

Estas casas tão modernas, impregnadas de um repertório trazido das obras de Le Corbusier e Niemeyer, abrigavam, porém, murais dos jovens artistas com temas ligados à cultura popular local, como a “Capoeira”, título do mural de Carybé localizado no interior da residência Cintra Monteiro; a feira de “Água de meninos” (Figura 05), mural de autoria de Maria Célia instalado na sala de visitas da casa de Raul Faria; ou a “Pesca do xaréu”, tema do esgrafito de Carybé na sala de estar da residência Marques de Souza e também do mural de autoria de Jenner Augusto que ocupava toda a parede lateral da sala de estar da residência Waldemar Gantois.

 

Residência Raul Faria
Água de Meninos de Maria Célia

 

Em cima e embaixo, respectivamente – Residência Raul Faria na Barra, em Salvador, projeto de Lev Smarcevscki e Antônio Rebouças: vistas geral e do mural “Água de meninos”, de Maria Célia, que ficava na respectiva sala de estar.

 

Fonte: SALVADOR, 1954 (fig. acima); DUTRA, 1956 (fig. abaixo).

 

O nível alcançado pela integração entre arte e arquitetura na Bahia não era desconhecido fora do Estado, como demonstra um pequeno artigo publicado pelo crítico de arte paulista Geraldo Ferraz na sua coluna dominical na revista d’O Jornal em 17 de junho de 1951. Ferraz contrapõe a frágil integração das artes pernambucanas à “adequação” e às “correspondências que estabelecem um princípio de identidade” entre arte e arquitetura moderna produzidas na Bahia:

 

Enquanto no Recife se encontram apenas alguns esforços fragmentários, na conservação de um passado recente, a sombra do mestre Cícero Dias ainda dominando, uma imprecisão muito grande nos artistas jovens – salvo a presença mais alta de Lula Cardoso Aires, buscando eliminar, numa rigorosa auto-crítica, os pontos mais precários de sua pintura – na Cidade do Salvador há um outro interesse. Vi no Recife alguns painéis de Cícero Dias, salvo os que os dirigentes do SAPS resolveram destruir; vi painéis de Abelardo da Hora, de Augusto, de Hélio Feijó, de Lula (agora terminando o seu melhor trabalho no Cinema São Luiz, em construção), mas esses trabalhos são colocados arbitrariamente nas paredes de uma arquitetura que não os comporta e que se serve deles para recobrir a sua franciscana miserabilidade.

Na cidade do Salvador não é assim, ou pelo menos, na maioria dos casos, está se produzindo uma adequação. Em quatro casas particulares, Mário Cravo, Jenner Augusto e Caribé realizaram painéis e murais com várias técnicas – mas estas casas são já tentativas de arquitetura moderna (FERRAZ, 1951, p. 02, grifos nossos).

 

Em outras edificações erguidas na Bahia entre as décadas de 1940 e 1960, a abordagem mais folclórica do tema baianidade era substituída por paisagens urbanas ou pelo registro de momentos históricos de Salvador. Assim, o hall de entrada do edifício de escritórios Cidade do Salvador, projetado por Diógenes Rebouças e inaugurado em 1951 no bairro do Comércio, é marcado pelo mural em têmpera a ovo sobre madeira “Fundação da Cidade do Salvador”. Na Escola-Classe II, inaugurada em 1951 na invasão do Corta-Braço, o mesmo artista representou o frontispício de Salvador, com inspiração cubista e tons pastéis. As obras de arte inseridas em edifícios modernos que fogem a esse caráter regionalista são aquelas integradas aos edifícios do Centro Educacional Carneiro Ribeiro (com exceção da Escola-Classe II, já citada), assim como os dois painéis de Genaro na Clínica Tisiológica da Universidade da Bahia.

 

A partir dos anos 1950, mesmo as agências bancárias de Salvador – que, segundo Risério, representavam o oposto da cidade imaginada por Caymmi – passaram a receber murais e esculturas representando orixás e outros temas da cultura local.14

 

Em Salvador, a arquitetura que moderniza a paisagem urbana e muitas vezes rompe com a cidade tradicional, abriga murais que mitificam e sacralizam essa mesma urbe ancestral, então em plena transformação. A baianidade, contudo, se restringe às obras de arte integradas, e neste momento não alcança a arquitetura, que permanece vinculada a modelos internacionais e nacionais.

 

 

Regionalismo e escola carioca na obra de Diógenes Rebouças

 

Diógenes Rebouças, principal responsável pela consolidação da arquitetura moderna na Bahia e seguidor de Costa e Niemeyer, foi também o primeiro arquiteto moderno baiano a incorporar elementos e materiais da arquitetura tradicional em suas obras.

 

A primeira casa projetada por Diógenes Rebouças a incorporar referências à arquitetura tradicional foi a residência do banqueiro Fernando Goes, no Morro Ipiranga, finalizada em 1952 (Figura 06).

 

Residência Fernando Goes

 

Vista geral da residência Fernando Goes, no Morro Ipiranga, em Salvador, projetada por Diógenes Rebouças em 1952. Foto de Assis Reis.

 

Fonte: Acervo pessoal do arquiteto Assis Reis.

 

Nesta casa, encontramos não apenas reflexos da reinterpretação, na obra de Lucio Costa, de elementos e formas arquitetônicas do passado colonial, mas precisamente os quatro “elementos essenciais tomados de empréstimo à tradição luso-brasileira” por Costa, como conceituou Yves Bruand (1981, p. 148): os telhados de telhas-canal com grandes beirais, as venezianas e muxarabis, as varandas e galerias de circulação externas e os revestimentos de azulejos. Esta linguagem, caracterizada por Paulo Ormindo de Azevedo (2002, p. 07) como sendo uma “expressão regionalista […] nascida na Bahia”, denota mais, a nosso ver, uma clara influência da arquitetura de Lucio Costa – portanto, mais uma vez, uma vinculação à arquitetura da escola carioca.

 

A obra de Diógenes Rebouças que mais se aproxima do hibridismo luciocostiano é o mercado de peixe nas proximidades do Forte de Santa Maria, na praia do Porto da Barra, em Salvador. Construído entre 1949 e 1950, o novo mercado teve como objetivo abrigar a venda do pescado que já era realizada pelos pescadores da região em duas construções permanentes e grosseiras e em uma série de barracas improvisadas, montadas no horário da venda do peixe.

 

A escala reduzida do novo mercado e a elegante varanda que o torna quase diáfano garantem o protagonismo do Forte de Santa Maria naquele ambiente praiano, ao tempo em que o volume maciço do mercado, construído em alvenaria de pedra aparente com arrasto sobre a praia, faz referência direta à cantaria da plataforma de artilharia da antiga fortificação. A reinterpretação de elementos da arquitetura tradicional é inequívoca e certamente encontra suas raízes nas obras de Lucio Costa – no mercado do peixe de Rebouças é possível ouvir ecos, com maior ou menor ressonância, do Museu das Missões em São Miguel das Missões (1938-1940), do Park Hotel São Clemente, em Nova Friburgo (1940-1944) e, principalmente, da Residência Saavedra, em Araruama (1942).

 

O crítico de arte José Valladares considerava o mercado do peixe de Rebouças uma pequena obra-prima da arquitetura moderna baiana. Em um artigo publicado em 1951, no qual se propõe a fazer um balanço da arquitetura produzida no governo Otávio Mangabeira (1947-1951), Valladares defendeu a baianidade – ainda que sem usar esse termo – do mercado:

 

Comecemos pelo que é pequeno, mas onde o bom gosto se requintou numa de suas mais felizes manifestações entre nós: – o mercadinho de peixe no porto da Barra. É como um grande pássaro que tivesse pousado naquele recanto de praia, sem interferir na beleza da paisagem. […] O mercadinho, filho legítimo do local onde nasceu, aí se integra com a naturalidade de um membro da família. E é para os olhos uma visão de amenidade e graça – a graça e a amenidade que respiram em Salvador (VALLADARES, 1951b, p. 194-195, grifos nossos).

 

 

Regionalismo e baianidade na obra de Gilberbet Chaves

 

Uma arquitetura autodeclarada “baiana” surgiria apenas em 1963, com a reforma realizada em uma casa recém-adquirida pelo escritor Jorge Amado para sua moradia, no bairro do Rio Vermelho, em Salvador. O autor, o arquiteto Gilberbet Chaves (nascido em 1927), pertence à segunda geração de arquitetos modernos baianos. Graduado em 1957 no curso de arquitetura da Escola de Belas Artes da Universidade da Bahia, reformulado no início daquela década por um grupo liderado por Diógenes Rebouças, Gilberbet elaborou, no final dos anos 1950, uma série de projetos de residências em parceria com o amigo e colega de turma Assis Reis. Segundo Alberto Hoisel, as “casas burguesas” projetadas por Gilberbet e Assis já se diferenciavam “dos caixotinhos funcionais de fachada inclinada e coluna em ‘V’ que então predominavam” pelas “vistosas coberturas em telha canal” (apud NERY, 2002, p. 77).

 

Se as casas projetadas por Assis Reis e Gilberbet Chaves no final dos anos 1950 se afastavam da linguagem niemeyeriana e se aproximavam da arquitetura de Lucio Costa e do próprio Diógenes, a residência de Jorge Amado (Figura 07), projetada apenas por Gilberbet, era uma ruptura radical com a arquitetura moderna corbusiana então em voga, referenciando-se em uma tradição regional baiana e valorizando o artesanato popular como nenhuma outra obra assinada por um arquiteto moderno havia ousado até então: espaços simples, de planta retangular, caracterizados pelas paredes caiadas, pelos telhados sem forro em telhas canal e estrutura em ripas de ipê e pelos pisos de cerâmica realizados por artesãos de Cachoeira, com janelas de treliça em guilhotina e cobogós, além de azulejos antigos oriundos de velhas construções demolidas… Tudo isso circundado por uma vegetação exuberante e permeado por obras dos principais artistas plásticos modernos baianos, representando orixás e suas insígnias. Como registrou Jorge Amado, “Gilberbert [sic] projetou e construiu uma casa que não se parece com nenhuma outra” (apud AMADO et al., 1999, p. 15).

 

Residência de Jorge Amado

 

Vista geral da varanda da residência Jorge Amado, no bairro do Rio Vermelho, em Salvador. Projeto de reforma de Gilberbet Chaves de 1963.

 

Fonte: CHAVES 1963.

 

Nas palavras do próprio arquiteto, no memorial publicado na revista Módulo em 1963 e sintomaticamente intitulado de “Uma experiência de arquitetura baiana”:

 

[…] A fôrça expressiva de sua arquitetura está fundamentalmente ligada à problemática do regionalismo e dos valores plásticos da arquitetura popular e do passado. […] Para tal, nos fundamentamos na vivencia cotidiana com o meio físico, urbano, histórico, climático, cultural e sobretudo na valorização do trabalho artesanal que é uma tradição do passado. […] Presumimos que no Brasil atualmente não se trata de realizar ùnicamente uma arquitetura moderna de uma beleza criativa própria, e sim de incorporá-la ao condicionamento de nossos hábitos, de nossas condições, de nossos costumes, de nossas necessidades e sobretudo de sua diferenciação regional que está de certo modo condicionada ao desenvolvimento industrial e tecnológico. […] Não devemos perder as nossas origens deixando de ser o que somos, […]. Precisamos criar uma arquitetura que atenda às nossas necessidades psicológicas, aos nossos hábitos, à nossa maneira de ser (CHAVES, 1963, p. 25-26, grifos nossos).

 

Para Yves Bruand, quanto à residência Jorge Amado:

 

Decidido a criar uma arquitetura tipicamente baiana, ao mesmo tempo simples e aristocrática, [Gilberbet Chaves] misturou com habilidade antigo e moderno; conseguiu dar ao conjunto um aspecto atual, utilizando apenas materiais tradicionais locais […] O arquiteto conseguiu criar um ambiente muito bem-sucedido, onde a nota principal é dada pela cor local, mas sem que haja nisso o menor artifício: perfeitamente adaptada ao clima e ao meio, a casa reflete fielmente a atmosfera que convém a seu proprietário, profundamente vinculado a sua terra natal, fonte de sua inspiração […]. (BRUAND, 1981, p. 146)

 

 

Conclusões

 

Nas artes plásticas, literatura e música popular produzidas na Bahia entre as décadas de 1940 e 1960 pode-se falar efetivamente em regionalismo, uma vez que as manifestações artísticas do período – pelo menos aquelas que obtiveram maior repercussão – estão impregnadas da ideia de baianidade. No que se refere à arquitetura produzida no mesmo período, contudo, o que predomina são as referências à escola carioca de matriz corbusiana, ainda que nas obras de arte integradas a essa arquitetura – e que eram predominantemente pinturas murais – sejam recorrentes as temáticas vinculadas à tradição local: capoeiristas, festas populares, pescadores, feiras e outros aspectos da cultura autóctone.

 

Apenas a partir do final dos anos 1940 e início dos anos 1950, e mesmo assim ocasionalmente, percebe-se na arquitetura moderna baiana a incorporação ou reinterpretação de elementos da arquitetura tradicional. Essa incorporação, contudo, não é em nada distinta daquela realizada por Lucio Costa no Rio de Janeiro a partir do início dos anos 1940, sendo inadequado, portanto, se referir, nestes casos, a uma arquitetura regional ou baiana.

 

Somente no início dos anos 1960, com a capacidade de Gilberbet Chaves de reinterpretar, na reforma da residência de Jorge Amado, a baianidade concentrada nos romances do proprietário, podemos falar efetivamente em uma “arquitetura baiana”, referenciada em uma tradição regional local e valorizando o artesanato popular. Na casa de Jorge Amado, pode-se igualmente dizer que há, de fato, integração entre as obras de arte de caráter regionalista e a ambiência prenhe de baianidade promovida pela sua arquitetura.

 

 


 

NOTAS

 

1 Professor da Faculdade de Arquitetura e do Programa de Pós-Graduação em Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal da Bahia. E-mail: nivandrade@gmail.com

2 A dissertação de mestrado de Agnes Mariano foi posteriormente adaptada e publicada em formato de livro (MARIANO, 2009) e é essa a fonte que utilizaremos neste trabalho.

3 Como, por exemplo, o paulista Denis Brean, autor da famosa “Bahia com H”, lançada por Francisco Alves em 1947 (“Eu sou amante da gostosa Bahia, porém / Pra saber seu segredo serei baiano também / Dá licença, de gostar um pouquinho só / A Bahia eu não vou roubar, tem dó! / Já disse um poeta que terra mais linda não há / Isso é velho e do tempo que a gente escrevia Bahia com H”). É notório que Brean jamais esteve na Bahia, como confirmam relatos de um dos seus mais famosos intérpretes, o músico baiano João Gilberto.

4 Em artigo publicado há mais de uma década (ANDRADE JUNIOR, 2004), ressaltamos a recorrência, nas canções de baianos como Dorival Caymmi e de forasteiros como Ary Barroso e Herivelto Martins, de elementos arquitetônicos, urbanísticos e paisagísticos do centro histórico de Salvador, como o casario colonial, as igrejas barrocas, equipamentos de transporte como o Charriot (Plano Inclinado Gonçalves) e espaços públicos como a Barroquinha, a Calçada e o Taboão.

5 Trecho da canção “A Bahia Te Espera”, parceria do fluminense Herivelto Martins com o português Chianca de Garcia, originalmente gravada pelo Trio de Ouro em 1950.

6 Trecho da canção “Na Baixa do Sapateiro”, do mineiro (radicado no Rio de Janeiro) Ary Barroso, lançada por Carmen Miranda em 1938. Ainda hoje, “Na Baixa do Sapateiro” é uma das músicas brasileiras mais conhecidas no exterior. O mote “Bahia, terra da felicidade” se tornaria, décadas depois, slogan da empresa oficial de turismo da Bahia.

7 Ruben George Oliven (2002, p. 25) observa que há controvérsias sobre a data da primeira publicação do Manifesto Regionalista de Freyre: Joaquim Inojosa afirma que sua primeira publicação teria sido em 1952 e que Freyre o teria redigido naquela ocasião, enquanto este último declara que o texto havia sido lido pela primeira vez no Primeiro Congresso Brasileiro de Regionalismo, realizado em Recife em 1926, e publicado em primeira edição em 1952.

8 Trecho da canção “Você já foi à Bahia?”, de Dorival Caymmi, de 1941.

9 A canção “365 Igrejas”, de Caymmi, foi gravada originalmente em 1946 e afirma que “365 igrejas / A Bahia tem”.

10 Dentre outras canções de Caymmi que abordam as festas populares, merecem destaque “Festa de rua” [1949], que registra a Festa do Senhor Bom Jesus dos Navegantes, e “Dois de Fevereiro” [1957], que retrata a Festa de Iemanjá.

11 Refiro-me às composições “A lenda do Abaeté” e “Saudade de Itapoã”, compostas por Caymmi e gravadas em um compacto em 1948.

12 Uma primeira análise, menos aprofundada, da integração das artes na Bahia entre as décadas de 1940 e 1960 foi apresentada pelo autor no 8º Seminário DOCOMOMO Brasil (ANDRADE JUNIOR; CARVALHO; FREIRE, 2009). Naquele artigo, contudo, as contradições entre uma arquitetura universal/nacional e artes plásticas de temática regional não foram abordadas. Esta seção é uma síntese de algumas questões tratadas na tese de doutorado do autor (ANDRADE JUNIOR, 2012), onde a questão foi abordada com maior profundidade e detalhamento.

13 A residência Jorge Cintra Monteiro foi projetada apenas por Lev Smarcevscki, antes do início da sociedade com Antônio Rebouças. As demais foram projetadas em conjunto pela dupla (ANDRADE JUNIOR, 2012).

14 Como, por exemplo, o magnífico conjunto de 27 pranchas entalhadas em madeira representando os orixás, executada por Carybé em 1968 para uma agência do Banco da Bahia. Posteriormente essa obra-prima foi transferida para o Museu Afro-Brasileiro da Universidade Federal da Bahia, na antiga Faculdade de Medicina do Terreiro de Jesus, do qual é atualmente a principal atração.

 

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

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