REVISTA ELETRÔNICA DA BIBLIOTECA VIRTUAL CONSUELO PONDÉ – N.5 FEV DE 2017. ISSN 2525-295X

ARTIGO

 

A CASA DE NANÃ BUROKÊ: ESPAÇO SAGRADO EM MANGAL / BARRO VERMELHO – SÍTIO DO MATO – BAHIA

 

 

Nivaldo Osvaldo Dutra1

 

 

Foto BarcoEmbarcação transportando passageiros do porto de Paratinga para as comunidades ao longo do rio São Francisco, 20122.

 

Ao falar sobre a região do São Francisco, Erivaldo Fagundes Neves3 comenta: “Na transição para o século XVIII, haveria nos sertões da Bahia mais de 500 criatórios. Somente na borda direita do São Francisco encontravam-se 106 fazendas de gado estabelecidas por Antônio Guedes de Brito e arrendatários de suas terras.” A maioria desses trabalhadores que exerciam atividades na lida do gado era escravizada: índios, negros e mestiços. Isto justifica a grande presença negra na região do Médio São Francisco, característica essa ainda visível nos dias atuais, o que leva a crer que no pós-abolição muitos desses negros e seus descendentes permaneceram na região e foram formando as comunidades que na atualidade reivindicam o reconhecimento de seus territórios como terras tradicionais pertencentes a antigos quilombos, e lutam com base no artigo 68 da Constituição Federal para terem seus direitos reconhecidos.

 

Conforme o Laudo Antropológico realizado em 1998 pelos antropólogos Marcos Luciano Lopes Messeder e Marco Troboni de S. Nascimento, a comunidade negra de Mangal/Barro Vermelho é uma delas, ocupando uma pequena faixa de terras na margem esquerda do Rio São Francisco, município de Sítio do Mato, emancipado de Bom Jesus da Lapa no final dos anos 80.

 

Os moradores do Mangal utilizam, com muita frequência, o transporte fluvial feito através das barcas que cruzam o rio, levando passageiros e comercializando alguns produtos industrializados, entre os trechos dos municípios de Paratinga, na margem direita, com aproximadamente três horas de viagem (mapa abaixo).

 

 

Mapa 1

Comunidade quilombola Mangal, Sítio do Mato, Bahia, 20104.

 

 

Os moradores de Mangal viajam também para o distrito de Gameleira, pertencente à cidade de Sítio do Mato. Outra via de acesso ao Mangal são as estradas das fazendas que estão no seu entorno. Partindo de Gameleira, que está ao norte, passa-se pela precária estrada que corta a fazenda Igarimã e Barro Vermelho; alternativo é o caminho da fazenda Vale Verde, que desemboca na estrada que liga a BR 242, ao norte, à BA 349, ao sul. Mesmo sendo Bom Jesus da Lapa a antiga sede do município que abrigava o Mangal, a referência dos moradores da comunidade é a sede municipal de Paratinga, muito mais próxima.

 

Entre tantas histórias vividas pelos moradores de Mangal/Barro Vermelho, damos destaque neste artigo à trajetória vivida por Maria Guedes da Rocha, entre outras narrativas de moradores da comunidade, envolvendo a construção do espaço sagrado dedicado a Nanã Burokê.

 

Em carta endereçada aos membros da Comissão Pastoral da Terra (CPT), Diocese de Bom Jesus da Lapa, Maria Guedes da Rocha, conhecida no Mangal como Maria Domingas, assim se expressa:

 

 

Mangal B. Vermelho 07 /08/05

Prezadas

Amigas Marilene e todos os seus companheiros.

Eu Maria Guedes peço todos vocês um apoio de me ajudar com uma contribuição de que você possa me ajudar com o que vocês puder. Que eu to passando um problema dificio e não estou tendo condições de resolver ai estou pedindo Deus uma proteção ao Bom Jesus e Nossa Senhora do Rosário para mim conseguir resolver a este decreto mandado por Deus. Quero fazer uma obrigação para o meu Orixá e é meio dificio por que a minha condições esta falando o que eu sou e tem que ser.

Ai estou pedindo porque vai ser no dia 20 agora de agosto e vou receber o déclar do Orixá.

E também convido para este dia que vai ser dia vinte de agosto vai ser realizado em Gameleira com uma mãe de santo Ela e quem vai resolver

Você me responde por esta mesma pessoa que é o Joãozinho.

Vai o meu abraço quilombola Maria Guedes.

Peço esta ajuda CPT e todas entidades.

Que eu posso resolver minha obrigação do Orixá que é a cabocla Nanã

Sou negra e meu Sangue é Africano5

 

A carta demonstra as dificuldades financeiras por que estava passando Maria Guedes, ao mesmo tempo em que observamos o seu compromisso com os orixás: ela precisa cumprir as obrigações com sua entidade, mas está passando por muitos problemas. Dessa forma, através da carta, solicita ajuda dos membros da CPT. Mais à frente, a partir de suas narrativas, vamos buscar compreender o que aconteceu com Maria Guedes e como se tornou uma das lideranças da comunidade de Mangal/Barro Vermelho, responsável hoje pela principal casa de culto afro-brasileiro da comunidade.

Ao falar sobre como se deu o início de sua participação no culto e na construção da casa de Nanã Burokê6, Maria Guedes faz o seguinte comentário:

 

Foi doença, foi problema de saúde, lembro que eu adoeci, ficava doente, gastei muito com médico. Aí eu ia pro médico, tinha vez no mesmo dia que eu passava em dois médicos, quando acabava de chegar, eu voltava pra outro canto, aí depois que vim descobrir que era esse problema espiritual.

Então, foi uma pessoa que chegou e me rezou, aí me falou: “a senhora pode ir pro médico, mas o problema da senhora não é problema de médico, é espiritismo”.

Era um homem de Paratinga, ele chamava Chiquinho Babado, mas o nome dele era Francisco. Ele trabalhava junto com outra pessoa, mas só que ele trabalhava particular também se precisasse, igual ele fez comigo também, ele era conhecido, ele era junto com uma mulher daqui, filha daqui. Que já era iniciada também. Essa mulher era Argimira, que era esposa dele, ela mora aqui ainda.7

 

As manifestações de ordem espiritual podem acontecer de várias formas, uma delas aparece como problemas de saúde, casos em que a própria medicina não consegue explicação. Isso parece ser o que estava acontecendo com Maria Guedes, que não conseguia respostas para seu problema via medicina. Decide, então, procurar a ajuda de um rezador, Chiquinho, que consegue indentificar o que ela tinha e o que precisava fazer para seguir seu caminho: servir aos orixás.

Ainda construindo sua narrativa, Maria Guedes enfatiza:

 

Então aí que o velho falou que fazia isso por mim, então ele foi fazer o trabalho por mim, eu tinha saúde bastante num instante, foi me dando dentro de um minuto, e em um minuto eu gastei o que não podia. Os médicos, eles passavam remédios, pediam os exames, eu fazia, depois eu voltava de novo, diziam que não estava achando a doença minha. Ói, eu não vou dar conta não, eu sei que de Paratinga, Ibotirama, Bom Jesus da Lapa, tudo eu andei. De tudo eu passei. Ah, meu Deus, era tanto problema que eu nem sei, viu. Dor não, dor era difícil, era porque eu não podia comer, eu não podia beber, porque quando eu ia comer, ouvia uma voz, se era pra beber, tomar uma água, eu ouvia uma voz, “se você beber, você morre”. Se eu bebesse eu morria, falava, e os remédio eu também não tomava […]. Não, mas, depois, não sabia por que eu não tinha conhecimento, aí depois que foram me falando, eu já tava também com uma dúvida, porque a gente não sabia que era desse jeito que começava com a gente, aí o remédio também não tomava, porque quando pegava os comprimidos para tomar, ele falava, não vai tomar esse remédio que você morre, aí eu pegava e não tomava, jogava pra riba da casa, na casa lá tem muitos remédios mesmo. Eu jogava, era aquele aperto na minha cabeça, que eu via, na semana que era muita coisa, outra hora eu sentia ia atacar um derrame, uma coisa assim que eu esquecia. Sem nada eu ia pro rio, o povo junto vinha me trazer. Aí alguns falava que depois deu pra acreditar que era, já outros dizia que não, então a primeira fé e força tem que ser de nós dentro de casa né, e foi isso que eu achei, e mãe sempre, sabe que mãe pro lado de filho, ela morre e dá a vida. Não era naquele estado, eu sentia aquele pavor primeiro, eu não suportava ficar dentro de casa. […] Já tem muito tempo, só que agora eu não sinto, mas muito tempo já. Aí comecei a sentir melhora, já fui melhorando, já fui comendo, já podia beber, o medo que eu sentia, a voz que eu ouvia já não ouvia mais, no sonho eu já sonhava, aí eu já via o que era, antes eu ouvia a voz e depois do trabalho eu via. Eu via as pessoas, eu via homem, mulher, aí eu já via tudo, só que aí eu via e não sentia medo.8

 

As narrativas de Maria Guedes são impressionantes. Ela nos coloca diante dos desafios da vida, do processo de aceitação de seu compromisso, como tudo foi difícil para o seu entendimento e a aceitação de cumprir com suas obrigações com seres que remontam à ancestralidade de seu povo e que estão ligados aos princípios culturais, às tradições dos mais antigos. A crença na revelação agora através dos sonhos, a visão de homens e mulheres nesses sonhos, as vozes que somem e ganham formas nos sonhos de Maria Guedes da Rocha.

As dificuldades no entendimento para realizar seus compromissos com as entidades levam Maria Guedes a novas crises, até se firmar no culto aos orixás. Ela assim comenta:

 

Então depois disso aí, que eu fiz esse trabalho, que eu melhorei, eu retornei a cair de novo, aí depois eu tinha que dar a obrigação pro santo, […] só que não tinha conhecimento com o condomblé, com isso né, mas só que eu já sabia que era outra força que tinha, aí eu senti doente, aí depois outra pessoa… a primeira pessoa foi o médico, agora esse médico foi que me falou. Eu pra mim ele era espírito, ele trabalhava aqui, mas ele era espírito, porque ele trabalhava bem as coisas certas, era o doutor, como é o nome daquele doutor que estava aqui meu Deus, o doutor Bezerra, aí eu fui passar com o doutor Bezerra, e eu contei a doença sentida, aí ele foi e me falou, ele olhou pra mim e falou assim, a senhora é uma linda pessoa, o problema da senhora não é aqui. Aí eu fui pra essa pessoa, essa mulher aí mesmo que tem em Gameleira, aí eu fui e ela me falou o que era, porque a santa tava cobrando a obrigação, tinha que dar um bori pra ela. O nome do centro eu não vou dizer, porque eu não sei, porque eu não vim aqui pra enxergar nenhum nome né, só sei que é de Exu Maré… é, acho que a casa é dele. Logo que ela jogou o búzio, ela falou que Nanã era casa aberta, ela falou que a casa dela era aberta, então aí dessa vez eu tive que iniciar.9

 

Seu compromisso e suas obrigações com as entidades vão se fortalecendo cada vez mais até o momento da construção e organização do Terreiro Ilê Axé Nanã Burokê.

 

 

Foto Maria Domingas - Peji

Maria Domingas ao lado do Peji do terreiro de Ilê Axé Nanã Burokê, 201310

 

 

Aí eu senti muito apoio aqui, muito mesmo apoiada, graças com certeza, a muitos, muitos, mas outros não, sabe que não é todo mundo, mas o apoio teve bastante aqui dentro, todo mundo ajudou, foram cortar, foram pra mata tirar a madeira, e ajudaram a bater o barro, foi eles que juntaram, fizeram foi um mutirão, teve todo mundo essa força, esse apoio, dia de festa todo mundo luta, todo mundo ajuda na luta. É… já vai pra oito anos. Participa bastante pelo menos aqui no santo só aquela menina (aponta para a moça que está sentada) ela também é do santo, e os outros tá desenvolvendo (sem entendimento) aquele velho ali também (aponta) é desenvolvido aqui dentro já bastante e tem muitos.

Aqui é Ile axé Luz divina. Aqui pra mim, o que significa é muito respeito, e um amor que eu tenho.11

 

Outra entrevistada, Cleide Farias do Carmo, faz a seguinte observação sobre sua participação e de outras pessoas na casa de culto a Nanã Burokê:

 

Antes ninguém frequentava, tinha o candomblé, mas aqui antes era cultivado, tinha e eram poucos os que participavam, e hoje… era uma coisa mais fechada em segredo, porque às vezes acontecia e quase ninguém sabia, poucas pessoas sabiam que tava acontecendo e só ia mesmo aquelas pessoas que tava já em frente que sabia, e os outro não participavam, e hoje tem, mas só que hoje é aberto, a pessoa que tem a boa vontade comparece lá, assiste e muitos vão, a maioria frequenta o espaço do candomblé. Eu vou e me sinto bem, mesmo que eu não frequente assim diretamente, mas sempre quando tem eu tô lá, vou lá, fico um tempo e retorno.12

 

Maria Domingas, como é conhecida a mãe de santo da comunidade, falando sobre a participação e como está se desenvolvendo a prática do culto aos orixás na comunidade de Mangal, tece o seguinte comentário:

 

Muitas vêm outras não vêm, e só que eu ainda não pego muito esse compromisso aqui né, responsabilidade, porque ainda não, acho muito ainda a fraqueza muita, pra mim ter uma pessoa aqui firme mais eu, ainda não tem essa pessoa, pra mim pegar esse compromisso tem que ter uma responsabilidade muito grande, eu tenho que tá com uma pessoa firme junto comigo aqui dentro, então eu dispenso, eu não pego, porque eu sei que eu não posso.

Aqui, quando eu tô virada no santo ou num caboclo, eles pega eles pede. Eu não, eles pede pela saúde, mas é por isso aqui, pela saúde, pelo menos os que têm vindo aqui que tenha fé, graças a Deus, curaram.13

 

Ao perguntarmos se cobra ou se recebe algum agradecimento pelos trabalhos que faz, Maria Domingas assim se expressa: ‘Aqui, eu vou me calar, porque silêncio não responde né’.

 

Aqui já, já isso lido e passo pra elas, agora só que é primeiramente a boa vontade né, mas eles têm por obrigação, todo mundo sabe que acha que eles faz isso aqui, por obrigação acho que a maioria todo mundo sabe, só as ervas que são muito importante pra isso todo mundo sabe, pra limpeza todo mundo conhece. Eu vou falar duas ervas que pra nós aqui alfazeme é o manjericão, a espada de Ogum, espada a de São Jorge e tem mais levante, tem muitas ervas aqui, aí é só olhar. Eles faz chá, banho, se for de beber de tomar o chá, se for de banho é o banho.14

 

Narrando um pouco sobre o cotidiano da casa de Nanã Burokê, Maria Guedes ao falar sobre o que ocorre durante o culto aos orixás, comenta: “Primeiro começa com a oração, pra depois ter o batuque do caboclo. E o principal é o primeiro que a gente faz aqui, é o Pai Nosso, que é a oração mais forte que nós temos, a oração mais forte que tem é essa que é a principal, primeiramente”.15

 

Ainda falando sobre a funcionalidade da casa, Maria Domingas comenta sobre a participação de seus filhos e como consegue ajuda para tocar os instrumentos que a auxiliam para incorporação das entidades.

 

Meus filhos, eles participam junto comigo, e valorizam, tem um que toca, esse que está em Brasília é quem tocava mais aqui junto com nós, e no momento sabe que a dificuldade aqui é mais difícil e pra ele ficar aqui, abri essa casa aqui não dá pra manter, ele teve que sair, ele é quem tocava o atabaque aqui da casa, tá em Brasília, mas toca de lá pra cá, lá ele luta, lá ele me ajuda. Aí tem o irmão daquela menina (aponta para a moça que está sentada), Humberto e vem outro de fora sempre que vem tocar aqui comigo. Eles aprenderam por dom deles, é por dom, é de cabeça, ninguém ensinou.16

 

Ao falar sobre o sincretismo religioso que ocorre na casa de culto, Maria Guedes tem consciência, e com firmeza assim se expressa: “Daqui da casa, hoje, igual hoje Senhora Santana, na igreja hoje é Senhora Santana e no candomblé hoje é Nanã Burokê”.17

 

Ainda falando do sincretismo e das festividades na casa de culto, a mesma entrevistada comenta:

 

Eu faço a fogueira no sábado, em homenagem a Santana, a Nanã Burokê, aí depois nós dá uns comes e bebes aqui pra todo mundo, a menina trouxe o bode, tá lá em casa, tá começando o preparo, graças a Deus, pode tá uma coisa difícil mas quando chega o dia da festa, o dia dela, não tem nada difícil, tem as pessoas já que ajudam, que preparam a comida, tem todo mundo que colabora aqui e participa, todo mundo colabora com a gente.18

 

Maria Guedes parece entender bem o seu papel e o compromisso que assumiu com sua entidade protetora. Ao ser perguntada sobre as oferendas e o que precisa fazer para agradar seu santo, traça a seguinte narrativa:

 

Tem sim, a oferenda dela, ela gosta de coco, de canjica, de pipoca, de milho, tudo que tiver referente a grão. E tem o bolinho dela que a gente tem que fazer. Eu faço, faço pelo menos assim, a criação, não é sempre que no dia tem, porque a gente é mais difícil. Hoje mesmo, nesse dia dela é a cabra, aí quando a gente não acha aquilo, não deixa o povo, e pra mim por causa assim do povo que vem de fora, mas sabendo que não é pela obrigação, a comida é dela.

 

 

Tem samba, tem o momento do samba, pra chegar pro final tem o samba, o marujo samba, Quem samba é o marujo, ele tem um nome, eu não sei, eu nunca procurei, eles não podem falar, tem o momento deles falar, aí ainda não teve, alguém aqui não informa e nem posso tá informando pra ele, a mim o dia que eu precisar que romper ele tem que me passar. Tem o momento certo em que ele vai revelar.19

Maria Domingas, mesmo com essa experiência que tem na lida com suas entidades na casa de Nanã Burokê, acredita que precisa conhecer outros lugares de candomblé para aperfeiçoar seus conhecimentos, fazer a raspagem da cabeça, que ela ainda não fez. Falando sobre essas questões, ela comenta:

 

Pelo que eu faço aqui, pelo que eu sou, é meu conhecimento pelo meu dom mesmo. Não porque por onde eu passei ainda não me deu essa explicação. Mas que eu tenho essa vontade de conhecer, e pra mim mais aprender. É a raspagem que eu tenho que ter, já tá passando, que eu não fiz ainda, e tá passando, ainda não dei porque não tenho condições, mas eu confio em Deus e em minha mãe, porque de hoje em diante, em qualquer momento eu sei que ela abre essas portas, porque quando a gente anda a gente vai conhecer mais, então aí em qualquer momento sei que ela abre essas portas, ela vai me dar caminho.20

Ainda falando de sua experiência na casa de culto Nanã Burokê, Maria Guedes traça o seguinte comentário:

 

Eu mesmo gostaria de dizer o seguinte: que a gente tem que aprender, conhecer, dar valor, valorizar o que a gente tem que respeitar, e a casa tá disposta pra atender todo mundo com amor, com amor. O amor e a paz e o respeito, e a boa vontade do povo, e pra quem vir, seja bem vindo, que ela está aqui disposta pra receber todo mundo. 21

Na continuidade de sua narrativa, Maria Guedes, também conhecida na comunidade como Maria Domingas, comenta sobre o que acontece quando incorpora orixás e caboclos em sua casa:

 

Eu não, eu fico melhor de quem fica aqui sentada, graças a Deus não sinto nada, os que não roda no trabalho, que ficam aqui sentado, eles amanhecem cansados, menina que não roda, no outro dia amanhece cansada, e eu tanto do começo tem aquele intervalo e não fico cansada. Dia de festa não tem horário, dia da festa dela aqui não tem horário para parar, hoje é o dia que nós toca o dia dela vinte e seis, ontem vinte e cinco nós começa a tocar, nós toca vinte e cinco e vinte e seis, se fosse tocar o dia dela era hoje, como eu adiei pra sábado, então amanhã nós já começa a tocar, amanhã nós toca até umas certas horas, amanhã nós dá um esquento aqui pra sábado tá iniciado aqui, e não tem canseira de ninguém, os que rodam aqui não tem não, fica mais forte que os que não roda, fica queixando.22

Durante muitos anos, a comunidade de Mangal foi denominada terra de feiticeiros, onde seus moradores tinham poderes e sabiam fazer feitiços fortes que assustavam muita gente. Maria Guedes comenta sobre isso:

 

 

A gente era chamada de feiticeiro, com certeza eu mesmo sentia de primeiro, quando eu saía daqui, eu não dizia que era daqui, porque dizia que o povo daqui era feiticeiro, então nós tinha medo, nós tinha medo deles e eles tinha medo da gente porque dizia que a gente era feiticeiro, só que hoje não, não tenho medo, é o entendimento, e eu me conheço, então hoje eu não nego meu natural, porque não é assim, nós não somos feiticeiros, sou macumbeira, hoje eu não nego o meu natural, onde eu andar não posso esconder.23

Em pesquisa realizada por Valdélio Santos Silva, o autor assim comenta sobre a presença do feitiço na Comunidade de Mangal:

 

 

Desde a época do Capitão João, no século XIX, circula em todo o Médio São Francisco a representação de que o “povo do Mangal é feiticeiro”. Pela maneira corriqueira como esse atributo negativo permaneceu na sociedade. […]. Imediatamente me ocorreram as referências às famosas lendas sobre os “feiticeiros” do Mangal que circulam em todo o território quilombola do Médio São Francisco.24

Essa questão de considerar a população de Mangal como grandes feiticeiros, pessoas perigosas na arte da magia, parece ter sido superada nos últimos anos, principalmente depois do reconhecimento de seu território como área pertencente a antigos quilombos.

 

Ao se referir sobre a feitiçaria e o poder emanado no Mangal, Julita Abreu, agente da CPT, tece o seguinte comentário a partir das narrativas dos moradores sobre as mulheres, principalmente as mais velhas:

 

Eles diziam que ali na frente do quilombo só pescavam, tinha uma matriarca ali, então ela de certa forma era proteção do povo, de que pescadores que não eram amigos deles e que poderiam ameaçar a segurança deles ali, então eles tinha uma forma, essa matriarca ela segurava de forma que os pescadores iam, não conseguiam passar daquela direção do quilombo, era um lugar onde tinha, onde o rio era mais raso, então ali não passava, mas tinha os canais fundos, mas a canoa não passava. Isso é uma coisa que eles relatam, mas eles falam que não era verdade. […] Eles falam assim que essas matriarcas elas protegiam eles de todas as formas, são mulheres velhas da comunidade, a avó de Carlinhos, ela era uma dessas mulheres que eram as protetoras ali do quilombo, eles não consideram que essas mulheres eram feiticeiras, mas que elas cuidavam deles.25

 

Outra entrevistada, Clene Farias, ao falar sobre o “poder de feitiçaria” presente em Mangal, comenta:

 

Às vezes a gente ouvia, a gente ouvia muitos dizia que a questão aqui era, falava de onde vieram? Do Mangal, então falava: ah, é lá onde diz que o povo coloca, para a lancha no meio do rio, parava a lancha, a lancha chegava no porto, tinha que encostar, se não encostasse dizia que a lancha ficava rodando.26

Essas questões de Mangal como um povo de poder e de feitiçaria, fazem parte do imaginário, e ainda estão presentes nas comunidades que circundam a região do velho Chico.

Pesquisando o tema da feitiçaria na região do médio São Francisco e particularmente nas comunidades quilombolas, o trabalho de Valdélio Silva27 aponta para a questão de que existem várias modalidades, que o feiticeiro aprende a partir de suas vivências e as utiliza de acordo com cada situação:

 

Mas, por ser a feitiçaria um sistema dinâmico e que se renova constantemente, nem sempre as medidas primárias adotadas de proteção conseguem ser eficazes. Além do mais, existem variadas modalidades de feitiçaria. E o feiticeiro aprende ao longo de sua prática as feitiçarias mais apropriadas para cada situação. […]. Somente assim, é possível agir para anular o que foi feito para atingir um indivíduo ou um bem de sua propriedade.28

 

Ao perguntarmos a Maria Guedes que tipo de proteção ela usa em seu dia a dia, de imediato responde:

 

Tenho as mizangas, ciliconde, tenho o contecum. Têm as roupas, todo mundo tem a sua roupa, eu tenho o branco e tenho várias cores.

Isso, que eu ando hoje de cabeça erguida, mas nós tinha aquela preocupação de sair pro modo daquilo, outra coisa: “ah, ali é um negro”, mas hoje não, eu fico é muito satisfeita quando uma pessoa me diga que eu sou uma negra, eu gosto, eu me sinto com muito orgulho mesmo, hoje eu não tenho preocupação de ir pra canto nenhum, hoje eu ando de cabeça erguida.29

 

As experiências sociais que também são culturais vão se mutiplicando entre esses sujeitos, renovando suas energias espirituais, firmando suas identidades, influenciando nas relações que se forjam no cotidiano comunitário.

 

 


 

 

NOTAS

 

1 Professor da Universidade do Estado da Bahia (Uneb), campus VI, Caetité. Doutor em História pela PUC-SP (2015). Pesquisado do Grupo de Pesquisa Cultura Sociedade e Linguagem-GPCSL/CNPq. Email: nartud@yahoo.com.br.

2 Acervo pessoal. Fotografia: Nivaldo Osvaldo Dutra.

3 Erivaldo Fagundes Neves (Org.). Sertões da Bahia – Formação Social, Desenvolvimento Econômico, Evolução Política e Diversidade Cultural. Salvador: Arcádia, 2011. p.254.

4 Fonte: Sase Cartográfica. INGÁ (2004, 2010). Elaboração: Projeto GeografAR (2010).

5 Carta de Maria Guedes da Rocha – acervo não catalogado, Comissão Pastoral da Terra (CPT) Diocese de Bom Jesus da Lapa.

6 Encontramos escritas diferenciadas, como: Nanã Burucu, Nanã Buroquê ou Nanã Burokê. Aqui, adotamos a última. A mais velha divindade do panteão, associada às águas paradas, à lama dos pântanos, ao lodo dos rios e dos mares. O único Orixá que não reconhece a soberania de Ogum por ser o dono dos metais. É tanto reverenciada como sendo a divindade da vida, como da morte. Seu símbolo é o Ibíri – um feixe de ramos de folhas de palmeira com a ponta curva e enfeitada com búzios. Disponível em: <www.google.com.br/?gws_rd=ssl#q=Nan%C3%A3+Buroque>. Acesso em: 02 dez. 2014. Para Roger Bastide, Nanã dança com seu xaxará entre os braços, ninando-o com mãos trêmulas de uma mulher velha; o xaxará não é então senão o símbolo do pequeno Obaluaê que acaba de nascer e que sua mãe Nanã procura adormecer. (Roger Bastide. O candomblé da Bahia: rito nagô. Tradução Maria Isaura Pereira de Queiroz; revisão técnica Reginaldo Prandi. São Paulo: Cia das Letras, 2001. p. 142).

7 Maria Guedes da Rocha. Entrevista concedida em 26 de julho de 2012.

8 Idem.

9 Maria Guedes da Rocha. Entrevista concedida em 26 de julho de 2012.

10 Acervo pessoal. Fotografia: Nivaldo Osvaldo Dutra.

11 Maria Guedes da Rocha. Entrevista concedida em 26 de julho de 2012.

12 Cleide Farias do Carmo. Entrevista concedida em 26 de julho de 2012.

13 Maria Guedes da Rocha. Entrevista concedida em 26 de julho de 2012.

14 Idem.

15 Maria Guedes da Rocha. Entrevista concedida em 26 de julho de 2012.

16 Idem.

17 Idem.

18 Idem.

19 Maria Guedes da Rocha. Entrevista concedida em 26 de julho de 2012.

20 Idem.

21 Maria Guedes da Rocha. Entrevista concedida em 26 de julho de 2012.

22 Idem.

23 Idem.

24 Valdélio Santos Silva. Rio das Rãs e Mangal: Feitiçaria e poder em territórios quilombolas do Médio São Francisco. 2010. Tese (Doutorado em Estudos Étnicos e Africanos) – Universidade Federal da Bahia (UFBA), Salvador-BA, 2010. p. 291-292.

25 Julita Rosa de Abreu Carvalho. Entrevista concedida em 06 de julho de 2014.

26 Clene Farias dos Santos. Entrevista concedida em 27 de julho de 2012.

27 SILVA, op. cit., 2010.

28 SILVA, op. cit., 2010. p. 337.

29 Maria Guedes da Rocha. Entrevista concedida em 26 de julho de 2012.