REVISTA ELETRÔNICA DA BIBLIOTECA VIRTUAL CONSUELO PONDÉ – N.5 FEV DE 2017. ISSN 2525-295X

ARTIGO

 

 

 

OS USOS DO PASSADO NO CORTEJO DOS QUATRO SÉCULOS DE SALVADOR (BAHIA, 1949)

 

Alan Santos Passos1

 

 

Figura 12.2

 

 

Em 1949 a Cidade de Salvador comemorou seus quatrocentos anos de fundação. Dentre os diversos eventos que foram programados para celebrá-los destaca-se a encenação cívica e pública do passado baiano. Montado em forma de cortejo, o desfile foi idealizado pelo então prefeito José Wanderley de Araújo Pinho, que se inspirou no “grande cortejo” do VIII Centenário da Tomada de Lisboa aos Mouros, comemoração salazarista encenada em Portugal em 1947.2

 

Nada no cortejo soteropolitano foi feito de forma aleatória, muito menos arbitrária. Tanto a escolha dos eventos a serem rememorados quanto o trajeto percorrido foram muito bem pensados e discutidos. Ambos foram debatidos e aprovados por historiadores em sessão no IGHB presidida por Wanderley Pinho em fevereiro de 1949. Ficou acertado que seriam apresentadas “todas as figuras mais representativas da história da Bahia, desde a fundação”, tais como Tomé de Souza, bispo D. Marcos Teixeira, Visconde de Pirajá, Castro Alves, Maria Quitéria etc.3 Também ficou combinado que o cortejo sairia de um ponto a outro da cidade alta, repisando o antigo caminho do Conselho. A partida sairia da praça da Igreja da Vitória, na tarde de 29 de março, percorreria a Avenida Sete de Setembro, a Praça Castro Alves, a Rua Chile, a Praça Municipal, até a Praça da Sé, onde se dissolveria.4 Ainda que a cidade baixa tenha ficado de fora, utilizou-se para palco boa parte do sítio histórico relacionado ao passado quadricentenário dos soteropolitanos. Para organizar o desfile, a Prefeitura contratou o dramaturgo e cineasta português Eduardo Chianca de Garcia, que trazia no currículo a colaboração com Leitão de Barros na direção artística da produção do inspirador precedente português de 1947.5

 

Foram publicadas, na imprensa, diversas descrições detalhadas do que seria apresentado com o objetivo de propiciar à população uma compreensão prévia do que seria visualizado.6 Abordado por um repórter de A Tarde, o prefeito declarou que a cerimônia visava dar um “espetáculo de beleza, harmonia, ritmo e ao mesmo tempo uma lição de história ao povo, dizendo-lhe, de forma sugestiva, o que se comemora, a razão das festas centenárias”. A exibição se destinava “sobretudo ao povo”: sua função seria “emocionar e provocar entusiasmo cívico”.7 Desse modo, além do caráter pedagógico, esperava-se do expectador identificação, simpatia, emoção e, quem sabe, pulsação cívica com o que seria exibido.

 

As diversas publicações informativas partiram de alguns receios dos organizadores. Notícias na imprensa sugerem que a população estava indagando, ou se questionando, se o préstito seria uma espécie de carnaval fora de hora ou um novo e grande cordão carnavalesco, com as costumeiras algazarras. Numa reportagem do A Tarde, o prefeito, talvez irritado, pronunciou-se publicamente e declarou “não ter cabimento, em absoluto, o que se propala em torno do cortejo. Nenhum carnaval haverá com a saída do préstito”.8Ao contrário, indicava que todos deveriam emular espírito cívico e patriótico e aplaudir o cortejo com vibração e orgulho. Em outro momento, Chianca de Garcia reforçou as palavras do prefeito ao dizer que não havia “razões para aglomerações e brincadeiras”, pois não se tratava “de uma festa de carnaval, e sim de uma alta lição de história”.9 Portanto, ao contrário do tom de galhofa que tem definido, atualmente, determinada produção de narrativas históricas sobre temas brasileiros, hoje vendidos nas bancas de revistas, livrarias de aeroportos e estações rodoviárias, naquele evento a coisa era em outro tom.10 O principal objetivo não era entreter nem pilheriar, mas estimular sentimentos cívicos considerados como grandiosos.

 

Havia uma preocupação latente de que os espectadores se apropriassem das ruas na hora da passagem do cortejo.11 Visando evitar algazarras, algumas medidas foram adotadas pela prefeitura acentuando o cuidado rigoroso de como a população deveria se portar para que o espetáculo alcançasse o êxito em seu sentido pleno, a saber, a compreensão da “importância da Bahia na história do Brasil”.12 Diferente da tribuna reservada aos convidados ilustres, em reunião com autoridades e jornalistas, o prefeito definiu que o povo assistiria ao desfile em pé, nos passeios das ruas, e que não seria permitido o tráfego de pedestres e de veículos pelo cenário das ruas, evitando a “perturbação do desfile”. Também não seria permitido o uso de cadeiras.13 Um repórter do Estado da Bahia, preocupado por algumas ruas serem estreitas e sobrecarregadas de postes, indicou alguns locais propícios para que o povo estacionasse como o Corredor da Vitória, Campo Grande, Mercês, Piedade etc.14

 

Além das medidas acima, uma portaria do secretário de Segurança Pública informava que seriam colocados cordões de isolamento sob a vigilância de guardas civis e corporações militares em toda a extensão da Avenida Sete de Setembro para assegurar a contenção do povo às suas margens.15 Embora não fosse como o carnaval soteropolitano hodierno, em que a corda separa quem comprou o seu abadá e quem vai pipocar no lado de fora, o cordão cívico de 1949 apartava o povo da História, sob vistas da tropa. Esperava-se que um sentimento geral de vibração patriótica irmanasse a todos com retumbante ovação popular.16Desse modo, excetuando os integrantes do desfile, o povo teve a função de coadjuvante, talvez até vigiado, cujo papel era lotar as ruas e aplaudir o espetáculo.

 

 

Figura 1 Ao fundo da imagem é possível ver as cordas que delimitaram o espaço de onde o povo deveria permanecer. Quatro séculos de história da Bahia. Salvador, Revista Fiscal da Bahia, 1949, p.16.

 

 

Denominado de “Cortejo dos quatro séculos”, o desfile foi composto por doze carros alegóricos, exposto em cinco atos divididos por séculos (XVI ao XX). Congregaram-se mais de mil participantes voluntários. O espetáculo foi fotograficamente capturado pelas lentes habilidosas de Voltaire Fraga, Adriano Messeder e Silvanisio Pinheiro, e publicadas num álbum comemorativo para servir de recordação das comemorações e propaganda política do governo estadual.17

 

Na tarde do dia 29 de março “toda uma onda popular se aglomerava nas ruas aguardando o cortejo, com ânsia e impaciência”, só começando às 15 horas, com o sol brilhante, depois de uma manhã chuvosa.18 Como se vê na imagem abaixo, um robusto carro alegórico representando a frota portuguesa de Tomé de Souza abriu o desfile. Para as elites letradas baianas o quadricentenário era contado – claro – a partir de 1549, com a fundação da cidade pelos portugueses. Desse modo silenciava-se sobre todo um passado de povoamento indígena.

 

 

Figura 2 Representação das naus portuguesas que aportaram no Brasil em 1549 com Tomé de Souza. Quatro séculos de história da Bahia. Salvador, Revista Fiscal da Bahia, 1949, p.15.

 

 

Na sequência, surgiu a ala do século XVI e nela constaram representações de capitães de frotas, homens d’armas, os primeiros fidalgos, “patriarcas da civilização”, e os construtores (pedreiros, carpinteiros, oleiros etc) que edificaram a cidade “berço do Brasil”.19 No discurso simbólico da encenação, o país, no geral, e a Bahia, em particular, eram caracterizados como herdeiros diretos do processo de expansão europeia levado aos trópicos pelos portugueses. Desse modo, exaltou-se a saga lusitana.

 

 

Figura 3.2Figura 3.1
Representação dos homens d’armas, fidalgos e trabalhadores que vieram com Tomé de Souza em 1549. Quatro séculos de história da Bahia. Salvador, Revista Fiscal da Bahia, 1949, p.15-16.

 

Em seguida, apresentaram-se, ricamente vestidos, o primeiro magistrado, Pero Borges, e as primeiras raparigas quinhentistas que, com “júbilo, sofrimento e resignação”, contribuíram para o povoamento de descendência europeia em terras brasileiras.

 

 

 

 

Figura 4.1 Figura 4.2
Quatro séculos de história da Bahia. Salvador, Revista Fiscal da Bahia, 1949, p.17-18.

 

 

 

Num carro alegórico figuraram o mestre Luís Dias e Tomé de Souza, fundador da cidade e o primeiro Governador Geral do Brasil, projetando a cidade fortaleza.

 

 

 

Figura 5Tomé de Souza examinando plantas de construção da cidade com o arquiteto mestre Luiz Dias. Ao fundo, em perfil, aparece a cidade do Salvador, segundo gravuras do século XVII. Suplemento do jornal A Manhã, RJ, 10/4/1949, p.2, BNDIGITAL.

 

 

 

Catarina Álvares e Diogo Álvares, o Caramuru, foram lembrados como primeiro casal do Brasil e símbolo primordial da aliança das “raças”, representação que fez coro ao mito, já internacionalizado na época, de que o Brasil, e notadamente a Bahia, eram locais exemplares de acomodação racial. Tanto no álbum como nas reportagens preferiu-se denominar a índia pelo seu nome europeu e não pelo seu nome étnico, Paraguaçu, o que evidencia a predileção europeia das elites baianas.

 

 

 

 

Figura 6 Afonso Ruy (org). Glorificação da Bahia: no IV Centenário da Fundação da Cidade do Salvador e Estabelecimento do Governo Geral. Salvador: Imprensa Oficial, 1951, p.48.

 

 

 

 

Em seguida, como é possível ver na imagem abaixo, rememorou-se o ensino religioso católico e a missão catequizadora, descrita como “civilizacional”, ministrada aos indígenas pelo padre jesuíta Manoel da Nóbrega, tendo como pano de fundo a Sé de palha, a primeira igreja do Brasil. À exceção de Paraguaçu (europeizada), esse foi o único momento da encenação da História da Bahia que os índios foram representados e, mesmo assim, de forma passiva, secundária, silenciados, apenas para compor o quadro do ensinamento religioso.20 Apesar de toda ruidosa comemoração anual do 2 de Julho na qual as figuras do caboclo e da cabocla assumem e dão significado ao evento, na encenação celebrativa do quarto centenário a presença indígena no estado ficou restrita à encenação do início do período colonial.

 

 

 

Figura 7 Manoel da Nóbrega em sua ação catequética para os índios. Ao fundo, a primitiva Igreja da Sé de palha. Suplemento do jornal A Manhã, RJ, 10/4/1949, p.2, BNDIGITAL.

 

 

 

 

O século XVII foi apresentado como um período próspero da colônia portuguesa que despertou a cobiça dos estrangeiros. Ilustraram-se, em bandeiras empunhadas por jovens moças, os nomes das primeiras riquezas do mercado agroexportador como o pau-brasil, o açúcar, o fumo e o algodão simbolizando a importância econômica da Bahia para a América Portuguesa, a fertilidade de suas terras e a ação dos colonos que a enriqueceram com seus engenhos e fazendas. Paralelamente silenciaram-se, nesse mesmo quadro, sobre a mão-de-obra efetiva dos escravizados africanos que, com seu suor e tormenta, produziu essas riquezas.

 

 

 

 

Figura 8.2 Riquezas agrícolas. Quatro séculos de história da Bahia. Salvador, Revista Fiscal da Bahia, 1949, p.25.

 

 

 

Em seguida o cenário muda de tom, entrando em cena a representação da chegada de tropas holandesas na Bahia em 1624. Senhoras vestidas de luto encenaram o sofrimento causado à população pelos combates entre tropas holandesas e luso-brasileiras e, logo em seguida, a cena foi modificada com a reação do comandante improvisado no bispo D. Marcos Teixeira, que teria incorporado a força divina em prol da Bahia. Tropas vencedoras marcharam demonstrando o sacrifício, valentia e heroísmo dos baianos na defesa do Brasil. O padre Antônio Vieira também foi lembrado por suas pregações em defesa da Bahia contra os holandeses.

 

 

Figura 9.2 Figura 9.1
Tropas holandesas de 1624, D. Marcos Teixeira e o padre Antonio Vieira. Quatro séculos de história da Bahia. Salvador, Revista Fiscal da Bahia, 1949, p.26-28.

 

 

 

 

O ano de 1695 foi evocado para trazer à cena o inimigo invisível, o surto de febre amarela ocorrido na Bahia naquele ano (que eles não informaram que foi decorrente do aportamento de navios provenientes do tráfico de africanos) para homenagear a ação filantrópica de D. Francisca de Sande que transformou seu solar em enfermaria para socorrer os doentes. Além da generosidade, ela seria lembrada como a precursora da enfermagem no Brasil.

 

 

Figura 10

Francisca de Sande. Quatro séculos de história da Bahia. Salvador, Revista Fiscal da Bahia, 1949, p.29.

 

 

 

Para melhor compreensão dos espectadores, o século XVIII foi anunciado por um arauto que versou sobre os fatos ocorridos naquele período e o que seria encenado. Desfila o Marquês de Angeja, o primeiro vice-rei do Brasil e da Índia Portuguesa. Talvez por isso seus servos ou escravos estivessem representados vestindo indumentária diferenciada, característica das colônias das Índias Portuguesas, como é possível observar na imagem abaixo:

 

 

 

Figura 11 Pedro António de Meneses Noronha de Albuquerque, o marquês de Angeja, primeiro vice rei do Brasil. Museu Tempostal, Coleção Antonio Marcelino, nº 17953.

 

Logo em seguida, damas e cavalheiros ricamente paramentados, desfilaram representando o que, segundo as elites baianas, caracterizariam o setecentos: o predomínio da ostentação, requinte e elegância; fortuna que deu gosto dissipar.

 

 

Figura 12.2 Damas e Cavalheiros no “róseo e gentil” século XVIII. Quatro séculos de história da Bahia. Salvador, Revista Fiscal da Bahia, 1949, p.34-35.

 

 

 

O século XVIII foi exposto também como o momento vigoroso das instituições religiosas católicas com seus conventos e construções de templos devotos como a Igreja do Senhor do Bomfim. Sóror Vitória da Encarnação, serva do Convento do Desterro, representou essa temática, pois era considerada a primeira santa da Bahia, talvez do Brasil.

 

 

 

Figura 13Sóror Vitória da Encarnação ladeada por freiras. Quatro séculos de história da Bahia. Salvador, Revista Fiscal da Bahia, 1949, p.37.

 

 

 

O final do XVIII foi representado pela movimentação da Revolta dos Alfaiates de 1798 que as elites letradas baianas concebiam como um movimento precursor da independência do Brasil e do ideal republicano. Quatro rebeldes foram duramente reprimidos e levados à forca por defenderem ideais de liberdade, eram os quatro “Tiradentes” baianos.21

 

 

 

Figura 14 Os quatro precursores da independência condenados à forca. Quatro séculos de história da Bahia. Salvador, Revista Fiscal da Bahia, 1949, p.37.

 

 

 

Prossegue o fermento da separação do Brasil, e a representação do século XIX inicia-se num quadro militar com personagens evocativas das lutas de independência na Bahia através da figura de Maria Quitéria, mulher que se vestiu com trajes masculinos e empunhou um fuzil ao lado do Exército Libertador, e Joana Angélica, religiosa do convento da Lapa assassinada pelas tropas portuguesas. Ambas simbolizaram ideais de bravura dos baianos, inclusive das mulheres, e ao mesmo tempo indicavam que a consolidação da independência do Brasil se deu na Bahia, em 2 de julho de 1823. Como se nota, não faltou na exibição a presença das mulheres. Isso talvez se devesse à ação das militantes congregadas na União Democrática Feminina (UDF) que em 1948 se dispuseram a elaborar uma coletânea biográfica de “mulheres baianas já falecidas” com o intuito de romper, segundo elas, “o injusto silêncio que esconde nas trevas do esquecimento algumas dezenas de valores femininos de nossa terra”.22 Elas lamentavam o fato da representação feminina limitar-se a Maria Quitéria, Joana Angélica e Ana Nery e apresentavam um rol de nomes de mulheres pertencentes às elites e, segundo o mito bastante difundido, ao menos uma das camadas populares, Maria Felipa, que lutou na ilha de Itaparica em prol da Independência (mas que não aparece na encenação). Dentre as várias mulheres citadas leem-se, por exemplo, os nomes de Francisca de Sande e da condessa de Barral que, ao lado daquela tríade, também tiveram representação no cortejo.

 

 

Figura 15.2 Figura 15.1

 

Maria Quitéria, à esquerda, e Joana Angélica, à direita. Quatro séculos de história da Bahia. Salvador, Revista Fiscal da Bahia, 1949, p.39-40.

 

 

Houve também representação das tropas oficiais de Visconde de Pirajá e dos vaqueiros (estes, autênticos, participaram da encenação) que lutaram na independência, denominados de encourados de Pedrão, evidenciando a participação popular na guerra da independência.

 

 

Figura 16.1 Figura 16.2

Tropas oficiais do Visconde de Pirajá, à esquerda, e os encourados do Pedrão, à direita. Quatro séculos de história da Bahia. Salvador, Revista Fiscal da Bahia, 1949, p.41.

 

 

Em outra cena, novamente a bravura dos baianos foi encenada com a representação da Guerra do Paraguai, episódio recordado para informar que a Bahia foi o estado que mais mandou soldados para as batalhas, e a importância de Ana Néri, a enfermeira que cuidou dos soldados feridos, seguida pelo batalhão dos zuavos, soldados negros, com suas fardas marroquinas, encarnados nos membros do Corpo de Bombeiros.23

 

Figura 17.1Figura 17.2

À esquerda, Ana Nery: a enfermeira dos soldados feridos na Guerra do Paraguai; e à direita, o batalhão dos zuavos: soldados negros que lutaram na Guerra. Quatro séculos de história da Bahia. Salvador, Revista Fiscal da Bahia, 1949, p.43 e 31, respectivamente.

 

 

 

 

Dividem o penúltimo carro dois indivíduos que avultaram o cenário das letras e da política na segunda metade do XIX: o poeta Castro Alves e o jurista Ruy Barbosa. Ambos irmanados na ala da abolição como principais representantes da luta antiescravista no Brasil. Sem menosprezar a importância das ações desses sujeitos, a cena emudece sobre a histórica presença dos escravizados em prol de suas próprias liberdades e se prestava a fazer encômios àqueles que Teodoro Sampaio chamou de representantes da “raça emancipadora”.24

 

 

Figura 18Carro da abolição: Castro Alves, à frente, e Rui Barbosa ao fundo. Quatro séculos de história da Bahia. Salvador, Revista Fiscal da Bahia, 1949, p.44.

 

 

 

 

Finalizando a parada, representando o início do século XX, rodou o primeiro automóvel que circulou pela Bahia, o “Panchard & Levassor”, importado de Paris em fevereiro de 1900, relembrando o pioneirismo da família Lanat no uso do veículo motorizado e, possivelmente, sua associação aos cobiçados poços de petróleo descobertos na Bahia no final da década de 1930.25

 

 

 

Figura 19Primeiro automóvel a motor que circulou pela Bahia. Ao fundo, o palanque oficial. Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil (CPDOC-FGV), CMa, foto 162.

 

 

 

 

Seguiram-no as “pretas orgulhosas”, devotas da Irmandade da Boa Morte, convocadas à encenação para representarem as típicas “baianas” com seus balangandãs e saias rodadas que figuravam em canções, cartões postais e panfletos turísticos como representativas da Bahia.26 Um roteiro artístico-histórico de Salvador, publicado em 1949, esclarecia aos desavisados que se havia convencionado chamar de “baiana” a indumentária “outrora usada por africanas e crioulas, escravas e libertas, particularmente pelas que se dedicavam ao comércio de frutas tropicais ou de pratos de cozinha afro-brasileira”. O autor destacava que o traje não era “usual, nem costumeiro” e que era cada vez mais raro “crioulas ou negras” que persistiam no uso do “velho traje”, geralmente visto apenas nos “candomblés na cidade”.27 Talvez por querer demonstrá-las como algo raro, como “a beleza do morto”, que o então governador Otávio Mangabeira mandou buscar as senhoras da Boa Morte para fazerem parte do cortejo como algo folclórico, em vias de extinção.28 Parece que para os organizadores da encenação, tudo que se reportasse à África estaria condicionado à temporalidade passada, relegado ao esquecimento e em vias de desaparição com o passar do tempo. De todo modo, segundo relatos da imprensa, as senhoras da Boa Morte foram uma das cenas “mais apreciadas pelo público”.29

 

 

 

Figura 20.1Senhoras da Boa Morte representando as típicas baianas. Quatro séculos de história da Bahia. Salvador, Revista Fiscal da Bahia, 1949, p.47.

 

 

 

Contudo, quem figurou no carro da apoteose do quadricentenário de Salvador foi uma jovem moça da “sociedade”, branca, pomposa, sentada majestosamente em um trono ornamentado. Houve, até mesmo, um concurso para eleger quem seria a “rainha da cidade”.30 Venceu a “senhorinha Sonia Paranhos Dias Santos, padrão de beleza e feminilidade da mulher baiana”, que com sua “beleza juvenil”31, segundo uma nota em O Momento, parecia ter caído “do Olimpo por descuido imperdoável” e sequer dava “bolas para os simples mortais”.32 Isso nos sugere que aquela baiana “negra velha” era a “típica” do estado, a baiana “tradicional”, que representava grande parcela de sua população; e essa outra, jovial, seria a baiana padrão que as elites organizadoras do evento desejavam que iconizasse a Bahia. Talvez nesse ato estivesse em questão uma batalha representacional em torno da figuração do estado que expressava, igualmente, as contradições sociais daquele ambiente.

 

 

 

Figura 21 Jovem que personificou a Cidade do Salvador. Quatro séculos de história da Bahia. Salvador, Revista Fiscal da Bahia, 1949, p.49.

 

 

 

A partir do exposto é possível inferir que o desfile foi uma forma de apresentação épica, monumental, do passado baiano que, sustentado pelo repertório historiográfico baiano, representou de forma visual, alegórica e pública acontecimentos e personagens considerados notáveis da História da Bahia, que convidava os espectadores a reconhecer sua importância como um estado rico em exemplos de heroísmo e civismo.

 

Contudo, o caráter monumental que conduziu as festas não agradou a todos. Um dos descontentes foi o jornalista Cláudio Tuiuti Tavares que, em matéria conjunta com fotos de Pierre Verger publicada no Estado da Bahia, criticou a falta da “contribuição popular”, de “grande beleza”, que seria representada pela “capoeira” e “rodas de samba” – por ele nomeados de “folclore baiano”.33 Para Tavares, deveria ter havido exibição, na Praça da Sé ou no Largo do São Francisco, tanto dos capoeiristas de Angola, “alunos de Mestre Juvenal” como os “da Regional de Mestre Bimba”, o que deixaria “de queixos caídos aos turistas”. Também o samba, acompanhado de “baianas dengosas”; desfile de “baianas vestidas a caráter” e uma exposição de arte popular. Em tom de queixa, Tavares finaliza lamentando a ausência do “devido destaque da tradição popular” como “uma grande falta!”.

 

Além da ausência das manifestações populares e ao lado dos critérios glorificadores da encenação houve um aspecto sombrio, nada agradável. Não obstante os aspectos seletivos da representação histórica não ter comportado a presença negra e indígena (a não ser de forma tangencial), se olharmos atentamente pelas frestas34 de cenas da exibição podemos perceber, também, a coexistência figurativa de diferentes passados. Mesmo que grande parte da encenação tenha sido focada nos períodos colonial e imperial, portanto de maciça presença histórica de sujeitos escravizados, é possível notar que houve uma sutil tentativa de ocultar as referências ao passado escravista, que não cabia nos propósitos enaltecedores. Alguém deve ter percebido o mal-estar que causaria reavivar, com o intuito de celebrar, nas ruas que foram cenários de uma grande urbe escravista, o passado de cativeiro da maioria da população. Pouco mais de meio século após a abolição da escravatura, numa cidade predominantemente negra e no contexto de redemocratização nacional que a Bahia queria influir, a liberdade de brancos contrastava com a precariedade social dos negros. O heroísmo e brilho dos primeiros, mesmo que não fossem tão brancos, promoviam o eclipse para as outras Histórias que, sabia-se, haviam acontecido. Porém, em algumas cenas, o processo violento da escravidão – e de uma sociedade extremamente desigual e hierárquica – foi representado no próprio cortejo, como coadjuvante necessário – inextirpável – do passado; como a propósito, é possível perceber na imagem abaixo.

 

 

 

Figura 22 Representação do século XVII. Quatro séculos de história da Bahia. Salvador, Revista Fiscal da Bahia, 1949, p.29.

 

A importância destinada à figuração da escravidão era tão secundária que, segundo matéria do A Tarde, até a vestimenta destinada aos escravos foi esquecida pela comissão organizadora e confeccionada em “30 minutos” antes do desfile.35 Atentando para a linguagem visual das hierarquias sociais presentes na imagem acima (sobre uma cena do cortejo ambientada no século XVII), observamos a representação das serpentinas,36redes antecessoras das cadeiras de arruar, sustentadas em ombros de carregadores escravos. O foco do episódio era mostrar o que aparece no primeiro plano da fotografia, as damas, fidalgas, representando elegância e riqueza. Mas ela dá a ver também o que está por trás, pelas costas, o verso da cena, a extrema desigualdade que sustentava toda a riqueza que desejavam demonstrar. O flagrante dessas outras histórias fica ainda mais evidente na imagem abaixo:

 

Figura 23 Representação do século XIX. Cadeirinha de arruar. Quatro séculos de história da Bahia. Salvador, Revista Fiscal da Bahia, 1949, p.42.

 

Representando o que seria uma cena aristocrática típica do século XIX, a encenação pública do fausto na pompa da condessa de Barral foi capturada em foto tensa na qual os espectadores presentes (em sua maioria negros), e até mesmo a “senhorinha” sentada na cadeira de arruar, aparentam pouco conforto (físico ou emocional).37 O bem-estar, a ostentação e a fortuna da Bahia exigiram a presença muscular de homens negros livres, provisoriamente em cena reescravizados, para os propósitos do reavivamento histórico.

 

Sintetizando, para finalizar, pode-se perceber que a passeata cívica, com sua apologia da história, foi um veículo de difusão de ideias com propósitos reforçadores de um imaginário sobre o passado da Cidade de Salvador (e do estado da Bahia) que a destacava como a mais rica em tradições e a mais ufana de glórias de todas as cidades brasileiras.

 

 

 


 

NOTAS

 

1 Mestre em História Social – UFBA. E-mail: trudesks@gmail.com

2 A Tarde, 11/3/1949, p.2, Setor de Periódicos Raros da Biblioteca Pública do Estado da Bahia (doravante citado como: SPR-BPEB).

3 A Tarde, 3/2/1949, p.2, SPR-BPEB.

4 Diário de Notícias, 20/3/1949, p.3 e 2, SPR-BPEB.

5 Sobre a contratação de Chianca de Garcia e sua relação com o préstito de Portugal ver: A Tarde, 24/3/1949, p.2, SPR-BPEB.

6 Ver: A Tarde, 23/3/1949, p.2 e 10, SPR-BPEB; Estado da Bahia, 23/3/1949, p.3, SPR-BPEB; Diário de Notícias, 24/3/1949, p.8, SPR-BPEB e O Momento, 24/3/1949, p.2, SPR-BPEB.

7 A Tarde, 24/3/1949, p.2, SPR-BPEB.

8 A Tarde, 9/3/1949, p.2, SPR-BPEB.

9 A Tarde, 21/3/1949, p.2 e 11, SPR-BPEB.

10 Para uma crítica sobre autores que contam e divulgam, popularmente, a história em tom de pilhéria, tais como Eduardo Bueno e Leandro Narloch, ver: Jurandir Malerba. “Acadêmicos na berlinda ou como cada um escreve a História?: uma reflexão sobre o embate entre historiadores acadêmicos e não acadêmicos no Brasil à luz dos debates sobre Public History”. In: História da Historiografia, Ouro Preto, n.15, Agosto, 2014, p. 27-50.

11 A Tarde, 21/3/1949, p.2 e 11, SPR-BPEB; Estado da Bahia, 23/3/1949, p.3, SPR-BPEB e Estado da Bahia, 29/3/1949, p.1, SPR-BPEB.

12 A Tarde, 29/3/1949, p.2, SPR-BPEB.

13A Tarde, 20/3/1949, p.3 e 2, SPR-BPEB; O Momento, 21/3/1949, p.2, SPR-BPEB; A Tarde, 21/3/1949, p.2 e 11, SPR-BPEB; A Tarde, 22/3/1949, p.10, SPR-BPEB e A Tarde, 24/3/1949, p.3, SPR-BPEB.

14 Estado da Bahia, 23/3/1949, p.3, SPR-BPEB.

15 Diário de Notícias, 27/3/1949, p.8 e 2, SPR-BPEB e A Tarde, 29/3/1949, p.15, SPR-BPEB.

16 Estado da Bahia, 28/3/1949, p.5, SPR-BPEB e A Tarde, 29/3/1949, p.2, SPR-BPEB.

17 Quatro Séculos de História da Bahia. Edição comemorativa do quarto centenário de Salvador. Revista fiscal da Bahia. Salvador, 1949.

18 Estado da Bahia, 30/3/1949, p.5, SPR-BPEB e A Tarde, 30/3/1949, p.1, SPR-BPEB.

19 Quatro Séculos de…, p.16.

20 Quatro Séculos de…, p. 15-21.

21 Para uma análise mais recente sobre a Conjuração Baiana, ver: Patrícia Valim. Corporação dos enteados: tensão, contestação e negociação política na Conjuração Baiana de 1798. Tese (Doutorado em História). Universidade de São Paulo, São Paulo, 2012.

22 A Tarde, 8/3/1949, p.2, SPR-BPEB. A UDF foi criada em 1945 e tinha por função elevar o nível cultural e político das mulheres, sobretudo atuando na luta pela democratização do Brasil. Embora se dissesse apartidária, a União recebeu forte influência do Partido Comunista do Brasil. Ver: Iracélli Alves. A política no feminino: uma história das mulheres no Partido Comunista do Brasil – Seção Bahia (1942-1949). Dissertação (Mestrado em História). Universidade Estadual de Feira de Santana, Feira de Santana, 2015, especialmente o capítulo 3.

23 A Tarde, 21/3/1949, p.2 e 11, SPR-BPEB e Estado da Bahia, 23/3/1949, p.3, SPR-BPEB.

24 Citado em: Wlamyra Albuquerque. O jogo da dissimulação: abolição e cidadania negra no Brasil. São Paulo, Companhia das Letras, 2009, p.82.

25 Diário de Notícias, 27/3/1949, p.8, SPR-BPEB.

26 No início da década de 1940 era possível encontrar em exposição vestes das baianas no Museu do Estado da Bahia. Ver: Anadelia Romo. “O que é que a Bahia representa? O Museu do Estado da Bahia e as disputas em torno da definição da cultura baiana”. In: Afro-Ásia, nº 39, 2010, p.115-151. A citação “pretas orgulhosas” pertence a Estelita Santana, juíza perpétua da Irmandade da Boa Morte que rememorou a ida das senhoras da irmandade a Salvador, de navio, a pedido do governador Mangabeira. Ver: Gaiaku Luiza: força e magia dos voduns. Direção: Soraya Públio Mesquita, IRDEB-TVE, 2005, 1 DVD, 17’45” a 18’11”.

27 BAHIA, cidade museu: roteiro artístico-histórico da cidade do Salvador. São Paulo, Editora Brasil, 1949, p.79-80.

28 Sobre a ida das senhoras da Irmandade da Boa Morte de Cachoeira para Salvador, ver: A Tarde, 30/3/1949, p.10, SPR-BPEB e Estado da Bahia, 1/4/1949, p.3, SPR-BPEB. Sobre o uso da expressão “beleza do morto” para caracterizar o folclórico ou a cultura popular, ver: Michel de Certeau. “A beleza do morto”. In: _______. A cultura no plural. São Paulo: Papirus, 1995, p.55-86.

29 A Tarde, 30/3/1949, p.10, SPR-BPEB e Estado da Bahia, 1/4/1949, p.3, SPR-BPEB. Odorico Tavares também as recordou como “um grande momento, talvez o maior do belo cortejo”. Ver: Odorico Tavares. Bahia: imagens da terra e do povo. Rio de Janeiro, Jose Olympio Editora, 1951, p.221.

30 Sobre o início do concurso da rainha da cidade, ver: A Tarde, 24/1/1949, p.2, SPR-BPEB.

31 Diário de Notícias, 27/3/1949, p.3, SPR-BPEB.

32 O Momento, 29/3/1949, p.2, SPR-BPEB.

33 Estado da Bahia, 29/3/1949, p.2 e 10, SPR-BPEB. A mesma fonte para as demais citações do parágrafo.

34 Maria Clementina Pereira Cunha (org.). Carnaval e outras f(r)estas: ensaios de história social da cultura. Campinas: Unicamp, Cecult, 2002.

35 A Tarde, 31/3/1949, p.2, SPR-BPEB.

36 Frederico Edelweiss. A serpentina e a cadeirinha de arruar. UFBA, Salvador, 1968.

37 Tiveram cinco cadeiras de arruar no cortejo. Ver: A Tarde, 23/3/1949, p.2 e 10, SPR-BPEB. Frederico Edelweiss, em seu livro, lista cinco dessas cadeiras distribuídas no Paço do Saldanha, no Museu do Estado, no IGHB e na Casa dos Sete Candeeiros. Ver: Frederico Edelweiss. A serpentina e a…, p. 28-29. Maria Leal diz que existia uma cadeira no Liceu na década de 1930. Ver: Maria das Graças Leal. A arte de ter um ofício: Liceu de Artes e Ofícios da Bahia (1872-1972). Dissertação (Mestrado em História). Universidade Federal da Bahia, Salvador, 1995, p.234.