REVISTA ELETRÔNICA DA BIBLIOTECA VIRTUAL CONSUELO PONDÉ – N.4 AGO DE 2016. ISSN 2525-295X

ARTIGO

 

 

EDUCAÇÃO E CASAMENTO: UMA ANÁLISE FEMINISTA NA DÉCADA DE 1930

 

Claudia Andrade Vieira 1

 

 

Edith Mendes da Gama e Abreu - rosto

Edith Mendes da Gama e Abreu

 

A igualdade de direitos entre homens e mulheres, o papel das mulheres enquanto mãe e esposa, os limites impostos ao seu sexo, eram questões pouco discutidas publicamente entre as mulheres na Bahia até a década de 1930. Na imprensa, o debate público ganhou força a partir do engajamento de mulheres em um movimento feminista em torno da Federação Brasileira pelo Progresso Feminista. A filial baiana teve estrutura organizada, com sede própria, na qual passaram cerca de 300 mulheres.

 

Edith Mendes da Gama e Abreu2 foi, sem dúvida alguma, uma grande expressão desse movimento que se tornou mais conhecido por sua luta pela cidadania política. Ao reduzir a escala de observação em pesquisas realizadas em torno do movimento feminista do início do século XX, foi possível conhecer a trajetória de mulheres comprometidas com o movimento feminista, assim como as diferentes concepções que se fizeram presentes no movimento, sobretudo acerca da responsabilidade social da mãe e da mulher, da importância da educação e do sufrágio feminino.3

 

A escolha de Edith Mendes da Gama e Abreu como eixo articulador da minha pesquisa, deve-se ao fato de ter sido a mulher mais representativa da Bahia dos anos 1930 e 1940. É possível recuperar em sua carreira, na vida pública, uma sequência que teve início com as conferências; depois, o lançamento da sua primeira obra, “Problemas do Coração”; a presidência da Federação Bahiana pelo

 

Progresso Feminino (FBPF), juntamente com a atividade jornalística; o ingresso na Academia de Letras da Bahia (ALB), no Instituto Geográfico e Histórico da Bahia (IGHB) e na Faculdade de Filosofia da Bahia.

 

Para este artigo, contudo, o destaque é para a análise da sua obra “Problemas do Coração”,4 na qual expõe algumas ideias sobre normas de comportamento, casamento e educação feminina, que transcenderam a pauta de reivindicações da Federação Brasileira pelo Progresso Feminino.

 

 

Os contrastes na educação e os males conjugais

 

A publicação da obra “Problemas do Coração”, em 1930, é um marco na trajetória de Edith Mendes da Gama e Abreu, pois a insere na sociedade baiana como escritora ensaísta e declaradamente preocupada com as questões femininas. Na obra, analisa como ocorrem os preparativos para a vida conjugal e identifica os problemas enfrentados pelas mulheres como problemas de difícil solução, uma vez que os cônjuges possuíam uma educação marcadamente diferente. Nessa perspectiva, casamento, educação e feminismo se cruzam em suas considerações.

 

O discurso da autora apresenta-se em sintonia com o debate da imprensa em torno das ideias a respeito da modernização nas primeiras décadas do século XX. Num contexto em que a urbanização e os melhoramentos materiais alastraram-se por diversas capitais do país, variados segmentos profissionais sociais – entre eles engenheiros, sanitaristas, jornalistas, médicos –, faziam duras críticas às más condições de salubridade e higiene das cidades. Tais condições foram apontadas como causadoras da disseminação de várias epidemias e, problema maior, eram consideradas prejudiciais aos interesses econômicos da nação. O projeto higienizador, a princípio relacionado à estrutura e infraestrutura urbanas e à qualidade das habitações, não tardou em assumir uma dimensão social ao se preocupar com os hábitos da população. Referir-se à modernização, higienização e urbanização, portanto, implicava em ações de controle social, normatização e moralização dos costumes .5

 

Acompanhando as transformações que o país vinha sofrendo, as mudanças no comportamento feminino também tomaram um relativo ritmo, mais ou menos acelerado dependendo da classe, do meio e da profissão das mulheres, estimulando debates que envolveram diferen-

Imagem_problemas_do_coração

 Capa do livro Problemas do coração

tes posicionamentos diante das modificações nas relações entre homens e mulheres. Intelectuais de ambos os sexos conjugaram esforços para disciplinar toda e qualquer iniciativa que pudesse ser interpretada como ameaçadora à ordem familiar, tida como o mais importante “suporte do Estado” e única instituição capaz de represar as intimidadoras vagas da “modernidade”. Marina Maluf e Maria Lúcia Mott,6 analisando periódicos femininos do início do século XX, observaram que homens e mulheres se acusavam reciprocamente como os principais causadores de uma intolerável corrosão dos costumes. Nesse sentido é que “Problemas do Coração” surge como uma contribuição ao debate que, em Salvador, tornou-se mais acirrado com a fundação da filial baiana da Federação Brasileira pelo Progresso Feminino, no ano seguinte à sua publicação. Os objetivos da obra são apresentados pela autora no prefácio: “dar ao meu protesto contra algumas injustiças sociaes um feitio menos movel e menos transitório que o das palavras; pedir aos homens um pouco mais de amor aos homens”.7

 

Liderancas feministas da FBPF

Lideranças feministas da FBPF

 

Em seu discurso, é com os homens que Edith Gama e Abreu dialoga. As injustiças sociais que a autora analisa tem suas raízes na desigualdade de acesso à educação formal, dada aos homens e negada às mulheres. Mas, ela também se reporta ao espaço informal para tentar compreender outras dimensões das desigualdades entre os sexos e dar a sua versão acerca da origem das “injustiças sociaes”:

 

As ponderações aqui inseridas, neste punhado de paginas, vasadas de todo em todo na mais tenaz observação, deixam á mostra os desvios do homem no pacto conjugal e o meio adverso em que se debate a mulher para ter a coragem de manter-se virtuosa.8

 

A liberdade das mulheres – tema central abordado na sua primeira conferência intitulada “A Mulher”9 – não desapareceu nas suas reflexões sobre o casamento. Ao contrário, a questão foi aprofundada quando ela buscou na educação as origens da desigualdade entre homens e mulheres, dentro de uma perspectiva mais ampla. É feita uma minuciosa análise dos tratamentos desiguais dispensados para meninos e meninas no processo educacional, na qual a autora questiona a suposta “natureza feminina”, e demonstra os danos causados na prática. A mulher aqui aparece como a maior vítima da sociedade.

 

Escravisadas todas as mulheres, nem a todas nivelou a passividade do inconsciente, ou a pseudo-resignação do condemnado. O espírito de revolta, resultante da pressão subjugadora, haveria de surdir por entre os sentimentos nobres das opprimidas.10

 

Porém, não mais um ser passivo à espera de uma mudança, mas uma militante capaz de agir e reagir de diversas maneiras frente às diferentes situações.

 

A astucia, porém, emprestando ao caracter uma feição de mutabilidade continua, deu á mulher aquelle ar de mysterio interior; fez-lhe inaccessivel a psychologia.

Careceu um de ser tyranno para a segurança do jugo; a outra de ser hypocrita como estratagema para vencer.

(…)

A mulher soffreu e fingiu. Armou ciladas em revoltas, em queixas e em carinhos. Fez-se demonio e anjo. Preparou n’uma fraqueza simulada, de manso, de vagar, com uma pertinacia de seculos, o golpe certeiro contra a mais deprimente das escravidões.11

 

Na sua percepção, a astúcia, a hipocrisia e o fingimento fazem parte da prática feminina, não por sua natureza, mas como estratégia para enfrentar e se libertar da opressão sofrida. Já o homem é apresentado como tirano e egoísta, causador de todo o sofrimento da mulher. Essas diferenças são colocadas nos seguintes termos:

 

De um lado o homem livre, o egoismo, a tyrannia apoiada na injustiça das instituições sociaes; do outro a mulher subjugada, a hypocrisia como defeza, a astucia como arma.12

 

Em meio à associação da mulher com o bem e do homem com o mal, Edith Gama e Abreu continua a defesa do seu sexo levantando a questão:

 

Qual o melhor, a mulher ou o homem?

Não há melhor; há melhorados e em mais alto grau, porque negal-o? – a mulher.13

 

O argumento utilizado para explicar essa condição está na superioridade dos bons sentimentos cultivados pelos encargos da maternidade, dos deveres conjugais que lhe exigem dedicação, empenho e boas ações. Quanto ao homem, ela explica:

 

Retardatário do aperfeiçoamento moral, tem instinctos ancestraes mal refreados a par de inclinações elevadissimas. Ama com mysticismo e mata com ferocidade.

Na familia, ou na sociedade, é o egoismo seu caracteristico por essencia. Elle chegou, mesmo, a conquistar o direito de asphyxiar direitos. E foi disfarçando o despotismo na força dos preconceitos, na irregularidade das leis.14

 

Para a autora, o homem quersentir gozar o seu eu” para ser feliz sempre, mesmo que isso seja “a troco de victimas”; que o coração masculino, “nada mais é que modalidades do amor de si mesmo”; que “tem uma tendencia atavica de retribuir o mal com o mal”. Seguindo esse raciocínio, conclui que “Indubitavelmente elle ama menos e odeia mais que ella. E é a falta de amor ao cumulo de odio que se estende a immensa cadeia de delictos”.15

 

Apesar de Edith ter identificado tais características diferenciadoras da personalidade de homens e mulheres, ela questiona a suposta “natureza feminina” que dotaria a mulher biologicamente para desempenhar as funções da esfera privada. De acordo com o seu ponto de vista, é possívelajudar o instincto com a reflexão persuasiva eis o meio de apressar a evolução do bem, no homem como na mulher, egualmente passiveis do mesmo aperfeiçoamento”. A educação que a família e a sociedade se encarregam de ministrar a eles é o elemento determinante das desigualdades, pois “a differença de sexos, que a natureza creou para harmonia da vida, não corresponde ess’outra que o homem estabeleceu na partilha das alegrias e das penas”.

 

O que se percebe é que há limites no questionamento que ela faz no que diz respeito à “natureza feminina” pois, apesar de reconhecer que a desigualdade está na educação, foi construído um argumento de que a natureza criou homens e mulheres para a “harmonia da vida”, possível de ser atingida por meio da “evolução do bem”. Para se atingir tal evolução, a autora pressupõe determinados padrões de comportamento e os converte em rígidos papéis sociais. No ensaio, utiliza-se do argumento da educação diferenciada de homens e mulheres para explicar os estereótipos construídos, tais como: o homem é forte, as mulheres são fúteis e nervosas, e explica que “as futilidades e as nevroses, adquirem-n’as ellas no ambiente de uma educação mal-sã”.

 

As críticas são dirigidas aos pais: pelo excesso de mimos conferidos às meninas; pelo orgulho da coragem e valentia dos filhos, enquanto acham encanto na timidez de suas filhas; na adolescência, os rapazes “vão cursar philosophia, ler Virgilio e Horacio, ingressar nas escolas superiores”, enquanto as moças “aprendem linguas, aperfeiçoam-se em alguma arte ou em varias, bordam como fadas”. Por fim, conclui que “(…) na disparidade da maneira de educar, a mulher vae recolhendo as desvantagens que lhe demarcam na vida o caminho cheio de urzes…”.16

 

É no casamento que essas diferenças irão mostrar seus resultados. Os conflitos são agravados quando os pais se preocupam em formar homens de bem, que lhes engrandeçam o nome, cidadãos fortes, capazes de enfrentar com audácia os desafios da vida, enquanto não há qualquer orientação acerca dos seus “deveres de dedicação e fidelidade” no casamento. Mais grave ainda, destaca Edith, é que: “mal entrado na adolescência, toma o direito de começar o curso da perversão. Os amigos mais velhos iniciam-n’o; os clubs e lupanares completam-n’o”.

 

Às mulheres, que têm seu destino projetado no casamento, lê-se e relê-se o código de preceitos pelo qual precisa guiar-se uma moça, tendo sempre em mira o futuro marido. Este, por sua vez, exigirá uma noiva pura, dedicada, tolerante e fiel. Para atingir esse modelo, proíbe-se umas tantas companhias supostamente perigosas, determinadas leituras e alguns passeios suspeitos.

 

Será, pois, coherente a educação que apura a moral de uma jovem no cadinho da virtude, enquanto permitte os disturbios de um moço na escola da licenciosidade, destinados que são um e outro á vida em commum?

Não é esse contraste de moralidade, esse desencontro de habitos, a origem de tantos males e desditas conjugaes?17

 

A autora conclui que com o tempo “os lares vão-se saturando de lagrimas muitas vezes, de revoltas outras tantas e assoma, de par com o soffrimento, a tendencia para os delictos”. A responsabilidade por tantos equívocos, em sua opinião, é da sociedade que organiza normas de conduta, aponta códigos, estabelece princípios, sempre apoiada no egoísmo masculino. E chama a atenção para a urgente necessidade de reforma nos costumes, no sentido de “melhorar esta moral pregada pelos vendilhões da justiça, que prescrevem deveres á mercê das conveniencias do homem”. E finalmente se apresenta como feminista:

 

Allio-me, pois, com a mais arrojada das coragens ao grupo das que reivindicam para o meu sexo direitos taes quaes os dos homens, limitados pela sã moralidade, já se vê. Empunho com o mais seguro dos atrevimentos o camartello que derroque o multisecular preconceito da inferioridade feminina. Protesto com a mais resoluta das convicções contra as leis e as praxes que equiparam a mulher aos menores e aos loucos. Não admitto, porem, que ella chegue a prescindir do seu mister de mãe sob a allegação de ser chamada longe dos filhos para melhoria orçamentaria do casal, ou para a gloria de posições lisonjeiras.18

 

Vê-se que a liberdade feminina defendida por Edith Gama e Abreu começa no processo de “formação do caracter”, em que “a educação já não visa o ser; visa o sexo”, ao proporcionar-lhes um excesso de mimos, o estímulo à timidez, à fragilidade, ao se mascarar “cousas que só se tornam impuras ao contacto dos impuros”. Ao enfatizar que a mulher é moralmente superior ao homem, é também uma tentativa de convencer o público leitor de que ela fará “bom” uso da liberdade, diferente dos homens que a usam nos “clubs e lupanares, fermentando o espirito por toda a sorte de impurezas”.

 

Edith Gama e Abreu na Academia de Letras da Bahia Edith Gama e Abreu na Academia de Letras da Bahia

 

Já no final do século XIX eram frequentes as acusações mútuas entre cônjuges que, longe de indicar o colapso do casamento, apontavam para uma necessidade de remodelá-lo e reforçá-lo como instituição social. Os argumentos foram elaborados no sentido de tornar legítimas diferenças injustas, pois urgia converter a relação entre homens e mulheres em um vínculo disciplinado, ou mesmo harmonioso, de modo a tornar segura a reprodução da ordem e afastar os riscos que ameaçavam desarranjar os planos de organização doméstica.19 As ideias apresentadas por Edith Gama e Abreu não se distanciam do discurso apaziguador sobre o casamento. Entretanto, há peculiaridades no seu raciocínio ao denunciar as injustiças existentes nas relações conjugais e alertar a sociedade para a necessidade de mudanças nos costumes.

 

Ao tentar harmonizar essas relações, Edith Gama e Abreu aposta na educação formal que surge como uma necessidade em um contexto no qual “o homem vôa com o aeroplano, dispara com o automovel, sedento sempre de velocidade e entre exclamações queixosas de lhe não dar o tempo para os quefazeres da época”. Sensível às mudanças em sua volta, constrói mais um argumento em defesa da educação feminina, ao destacar que “a actualidade pede á mulher (e d’ella está obtendo-o) um grande coefficiente de trabalho. Deve pedir-lhe, tambem, uma bôa collaboração no resolver os problemas scientificos e sociaes”.20

 

Ao levantar essa questão, elabora uma análise acerca do tempo desprendido pelas mulheres nas atividades domésticas que, na sua opinião, precisa ser melhor administrado para que lhe seja reservado alguns momentos para investir na “cultura intelectual”. Entretanto, de acordo com a sua avaliação, falta-lhes estímulo para as “grandes escaladas no campo intelectual”, e faz uma crítica severa às mulheres que

 

(…) Preferem espanar moveis a polir o cerebro; acham mais interessantes que as difficuldades de um trecho de musica as complicações dos bordados; alegram-se com descobertas originaes no preparo de licores e guloseimas e se enfadam com pesquizas illustrativas, com estudos elevados.21

 

Edith Gama e Abreu não defendeu uma socialização entre marido e mulher do trabalho doméstico, mas o desdobramento das tarefas femininas, isto é, a conciliação das tarefas do lar e da maternidade com o trabalho intelectual. Reconheceu que para tal o desafio é grande pois,

 

(…) manter o aspecto, de ordem e esthetica no lar ha carencia de muita perseverança feminina porque os maridos, para quem se dispõe tudo com tanta canseira, o mais das vezes, têm a tal respeito uma incorrigível mania de destruição. Desfazem em minutos o trabalho de algumas horas.22

 

Portanto, o trabalho manual, por si, não “deslustra o mais fino espirito”, desde que não se constitua exclusiva preocupação. O conselho é no sentido de que a mulher consiga administrar seu tempo de maneira “inteligente”, para que “provendo ás necessidades do corpo, não se venha a tolher a cultura do espirito”.

 

Para a autora, as vantagens são inúmeras. Nas dificuldades dos negócios, o homem pode precisar de uma consulta, de uma opinião sincera. “Quem melhor do que a esposa, haveria de fazer-lhe as objeções elucidativas, lembrar-lhe a solução mais vantajosa, detel-o na attitude mais firme?” Por isso é alertado às mulheres que o culto extremado à beleza, às futilidades, o apego destemido às diversões, a preferência pelas leituras fúteis, a preguiça para os estudos superiores e o trato incessante com os trabalhos rudes, “além de estorvarem os grandes surtos para o ideal, afastam os elos entre esposos, que se devem tanto e tão fortemente apertar”.

 

Além de boa esposa, uma mulher “culta” também “enobrece o encargo da maternidade”. É preciso prevenir-se, pois “a vida não nos poupa homens requintadamente imbecis, incapazes de um fremito espiritual, adstritos ás contingencias materiaes da vida tão somente”. Com um marido tal, a mulher não tem o direito de futilizar-se, deve ser “a melhor mestre” de seus filhos.

 

A imprensa feminina, das primeiras décadas do século XX, já chamava a atenção para a importância e o sentido da educação na vida de uma moça, pois a realidade assim o exigia. Os propósitos positivistas foram então acolhidos numa tentativa de moldar o pensamento, o comportamento e, em última análise, o caráter das gentes.23 Estratégias de educação amorosa também foram elaboradas com o objetivo de preservar o tradicional modelo matrimonial num contexto de modernização das cidades. Às antigas tarefas das mulheres foram acrescentadas novas atribuições, sobretudo aquelas que diziam respeito à produção de cidadãos saudáveis. A preocupação com a criança e a família traz para a discussão médica novas leituras e reflexões sobre as atribuições femininas. Construiu-se um modelo ideal de mãe-esposa-dona-de-casa pautado em normas elaboradas pelas elites, pressupondo uma estrutura urbana moderna, higienizada, civilizada, porém, pouco condizente com a realidade da maior parte da população feminina.

 

Quando Edith Gama e Abreu mostra-se indignada pelo fato das mulheres se interessarem mais em manter móveis espanados, elaborar complicados bordados e descobrir novas receitas de licores e guloseimas ao invés de “pesquizas illustrativas”, indica o grau de dificuldade das mulheres da elite em adaptar-se às novas exigências impostas pela sociedade. Os novos padrões higiênicos propagandeados pelos médicos exigiam, por exemplo, maior controle sobre os empregados pouco informados sobre questões dessa natureza. Preparar meninas de tenra idade, dadas ou emprestadas pelas mães para o serviço doméstico ou de ama seca, também conhecidas como “Catarinas”, era tarefa que poderia levar anos.24 Ao assumir certos hábitos novos de consumo, exercer vigilância cobrada pelos médicos sobre a saúde dos filhos, engajar-se em campanhas assistenciais, instruir-se para desempenhar melhor as novas exigências domésticas, progressivamente, essas mulheres urbanas e das camadas médias e altas da sociedade romperam com as antigas normas e fronteiras da casa e começaram a circular mais pelos espaços extra-domésticos, recriando novos limites entre o dentro e o fora, entre a rua e o lar.25

 

Em abril de 1931, foi fundada a filial baiana da Federação Brasileira pelo Progresso Feminino. O fato conquistou a primeira página dos principais jornais de Salvador, acrescentando a uma tímida discussão, argumentos respaldados no movimento de nível nacional, produzindo um amplo debate. A participação política das mulheres – o sufrágio feminino –, o direito à mesma educação formal que os homens, incentivo pelas questões relacionadas à vida pública e à escolha de uma profissão, foram alguns dos objetivos de destaque do movimento feminista.

 

Edith Gama e Abreu que já se apresentava publicamente a favor da igualdade de direitos, assumiu definitivamente a militância feminista ao assumir a presidência da Federação Bahiana pelo Progresso.

 

Solenidade com presenca do entao Presidente Getulio Vargas Solenidade com presença do então Presidente Getúlio Vargas

 

Apesar do seu engajamento no movimento feminista e das críticas dirigidas aos homens, “Problemas do Coração” a inseriu numa instituição masculina e rígida nas suas normas para os padrões da época: a Academia de Letras da Bahia (ALB), em 1938.

 

 

Considerações Finais

 

As diversas conferências e as múltiplas funções desempenhadas por Edith Gama e Abreu, como: Presidente da Federação Bahiana pelo Progresso Feminino, membro do Conselho Oficial de Educação e Cultura do Estado da Bahia, Presidente da Sociedade Baiana de Combate à Lepra, Presidente da Pró-Mater da Bahia e Conselheira do Abrigo do Salvador, foram fundamentais para a conquista do seu espaço na ALB e posteriormente no IGHB, uma vez que criou laços de amizade com uma elite que se dedicava tanto às letras, como à atividade política.

 

Ao analisar a relação entre processo político e produção intelectual no período compreendido entre 1930 e 1949, Paulo Silva mostra que os espaços para o exercício de atividades intelectuais eram conquistados e ampliados pelas amizades, vínculos familiares ou filiações políticas.26 Partindo desse ponto de vista, Edith Gama e Abreu preenchia os três requisitos: era filha e irmã de político; consolidou suas amizades com intelectuais que compunham a classe dirigente do Estado; e, por fim, nas eleições de 1933, saiu como candidata para a Assembleia Nacional Constituinte pelo grupo de oposição ao interventor da Bahia, Juracy Magalhães, sob a legenda A Bahia ainda é a Bahia.

 

Ainda que o feminismo de Edith Gama e Abreu possa parecer tímido; que a sua fé em determinadas mudanças pouco alteraria a estrutura mais profunda da sociedade; que a estratégia de luta tenha sido a negociação com instâncias formais de poder; como não considerá-la feminista diante de suas declaradas posturas, de suas críticas, de suas visões de mundo e de sua atuação na Federação Brasileira pelo Progresso Feminino? Edith fez parte da história das lutas feministas na Bahia, com a compreensão do sistema de dominação ao qual as mulheres estavam submetidas. Em seus discursos, ela compartilhava da pauta de reivindicações da Federação, que reconhecia a necessidade de pôr fim à subalternidade civil e política das mulheres. Para além dessa pauta, avançou no debate quando colocou em discussão, na sua primeira obra publicada, uma face do problema pouco exposta no contexto da época: as injustiças de gênero nas relações conjugais, como fazendo parte de um sistema socialmente imposto pela ordem patriarcal e androcêntrica.

 

 


 

NOTAS

 

1 Claudia Andrade Vieira é historiadora, doutora em Estudos Interdisciplinares em História das Mulheres, Gênero e Feminismo pelo PPGNEIM/UFBA, e professora da Universidade do Estado da Bahia – UNEB. Contato: candradev@uol.com.br

2 Filha de João Mendes da Costa e de Maria Augusta Falcão Mendes da Costa, Edith Mendes da Gama e Abreu nasceu em 13 de outubro de 1903 em Feira de Santana, interior da Bahia. Seu pai foi coronel da Guarda Nacional, político e prefeito de Feira de Santana no período compreendido entre 3 de janeiro de 1931 e 29 de maio de 1933. Possuía dois irmãos: João Mendes da Costa Filho, advogado, Constituinte de 1946 e Ministro Vice-Presidente do Superior Tribunal Militar; e Judith Mendes da Costa, musicista. Casou-se com Jaime Cunha da Gama e Abreu, paraense, engenheiro e professor da Escola Politécnica da Universidade Federal da Bahia. O casal não teve filhos.

3 O resultado da pesquisa pode ser conferido em: Claudia Andrade Vieira. História das Mulheres: feminismo e política na Bahia. Simões Filho, Ba: Editora Kallango, 2015. (Coleção Bahia Plural)

4 Edith Mendes da Gama e Abreu. Problemas do Coração (considerações sobre o amor e o casamento). Bahia: Officinas Graphicas d’ “A Luva”, 1930.

5 Rinaldo Cesar Nascimento Leite. E a Bahia Civiliza-se… Ideias de civilização e cenas de anti-civilidade em um contexto de modernização urbana: Salvador, 1912 – 1916. Salvador, UFBA, 1996. (Dissertação de Mestrado)

6 Marina Maluf; Maria Lúcia Mott. “Recônditos do Mundo Feminino”. In.: Nicolau Sevcenko. História da Vida Privada do Brasil. São Paulo, Companhia das Letras, 1998. P. 367 – 421.

7 Edith Mendes da Gama e Abreu. op. cit. 1930. P. 9. Foi mantida a grafia original no texto.

8 Ibidem. P. 14.

9 Edith Mendes da Gama e Abreu. A Mulher. Feira de Santana, 8 de fev. de 1914. Fl. 1-2 (Texto manuscrito apresentado no Grêmio Literário Rio Branco).

10 Edith Mendes da Gama e Abreu. Op. Cit. 1930. P. 18.

11 Ibidem. P. 19.

12 Ibidem. P. 18-19.

13 Ibidem. P. 21.

14 Ibidem. P. 26.

15 Ibidem. P. 28.

16 Ibidem. 1930. P. 33.

17 Ibidem. P. 37.

18 Ibidem. P. 136 – 137.

19 Marina Maluf; Maria Lúcia Mott. Op. Cit. 1998. P. 384 – 385.

20 Edith Mendes da Gama e Abreu. Op. Cit. 1930. P. 107.

21 Edith Mendes da Gama e Abreu. Op. Cit. 1930. P. 108.

22 Ibidem. P. 110.

23Ao tratar da imprensa feminina não me refiro apenas às publicações de Edith Mendes da Gama e Abreu, ou mesmo às publicações locais, mas às publicações em diversas partes do país voltadas ao público feminino como, por exemplo, a Revista Feminina pesquisada de forma sistemática entre 1915 e 1925 por Marina Maluf; Maria Lúcia Mott. Op. Cit. 1998. Com uma tiragem de até 25 mil exemplares por mês, ela foi vendida em todo o Brasil.

24 Hildegardes Vianna. Antigamente era assim. Rio de Janeiro, Record, Salvador, Fundação Cultural do Estado da Bahia, 1994.

25 Sobre as mudanças na educação feminina no contexto da Primeira República em Salvador, ver: Márcia Maria da Silva Barreiros. Educação, cultura e lazer das mulheres de elite em Salvador, 1890-1930. Salvador: UFBa, 1997. (Dissertação de Mestrado).

26 Paulo Santos Silva. Âncoras de Tradição: luta política, intelectuais e construção do discurso histórico na Bahia (1930 – 1949). Salvador, EDUFBA, 2000.