REVISTA ELETRÔNICA DA BIBLIOTECA VIRTUAL CONSUELO PONDÉ – N.5 FEV DE 2017. ISSN 2525-295X

ARTIGO

 

PASSANDO DE FASE: A MONOPOLIZAÇÃO DO MERCADO DE VIDEOGAMES.

 

 

Diogo Carvalho1

 

 

game3

 

 

O conceito de imperialismo de Lênin foi formulado há 100 anos, mas a conjuntura contemporânea insiste em criar as condições para perpetuação de sua validade analítica. A partir desta constatação, debateremos a seguir a aplicabilidade do conceito de imperialismo desenvolvido por Lênin no mercado de jogos eletrônicos, com o objetivo de analisar o fenômeno monopolizante que caracteriza a indústria de consoles.

 

LÊNIN E O IMPERIALISMO COMO FASE SUPERIOR DO CAPITALISMO.

 

O conceito de imperialismo formulado por Lênin foi vulgarizado. É bastante usual a aplicação do termo imperialismo para descrever relações de submissão entre Estados ao longo da história. Isto acontece devido ao fato de que os Impérios possuem instrumentos de dominação que são confundidos com o conceito formulado por Lênin. Não negamos a natureza coercitiva das políticas imperiais, contudo, a diferenciação entre estas ações e o conceito acerca do imperialismo formulado por Lênin é essencial para destacar a aplicabilidade singular e inovadora do imperialismo como uma fase superior do capitalismo, e não a relação entre os impérios e os povos subjugados. Esta distorção do conceito persiste até a atualidade e não contribui para o verdadeiro entendimento da dinâmica de concentração do capital e da renda no mundo contemporâneo. Ou seja, tal vulgarização não permite a aplicação do significado do conceito de Lênin, cuja validade ainda está atual, pois as principais tendências do desenvolvimento do capitalismo ainda permanecem intrinsecamente ligadas à própria natureza de reprodução do capital.

 

É importante ressaltar que Lênin escreveu este texto há exatamente 100 anos atrás, em um contexto revolucionário e de conflito global entre potências interimperialistas. Os primeiros anos do século XX foram caracterizados pela expansão do modo capitalista de produção. A expansão do capitalismo foi feita a partir do centro industrial europeu para economias agrárias e coloniais (África-Ásia e America Latina) que passaram a servir de mercado consumidor e de fornecimento de mão de obra para as metrópoles e suas empresas. Essa partilha do mundo não foi realizada de maneira equânime entre as potências capitalistas: as nações onde o Estado Nacional teve uma formação precoce e onde o capitalismo industrial foi desenvolvido mais cedo levaram vantagens no processo colonial e acabaram ocupando áreas mais relevantes do que nações com os desenvolvimentos tardios do Estado Nacional e do capitalismo industrial. Esse quadro vai gerar intensas disputas interimperialistas que resultarão na primeira e na segunda guerra mundial.

 

O conceito de imperialismo como etapa superior do capitalismo descreve um período histórico do sistema capitalista. A principal característica deste período, segundo Lênin, é a concentração do capital em empresas monopolistas, superando o período de livre concorrência. Para fazer tal afirmação o autor estudou o funcionamento do sistema capitalista a partir de dados estatísticos em diversos países do mundo, a exemplo da Alemanha, Inglaterra, EUA etc. Lênin construiu sua hipótese analisando a tendência de concentração da produção, a partir de séries estatísticas, em empresas gigantescas que eliminavam a concorrência e monopolizavam os mercados.

 

Lênin demonstrou que a superação da livre concorrência e, consequentemente, a formação dos monopólios, já tinha sido apontada por Marx na redação d’O Capital. Contudo, a ignorância e o boicote em torno da obra de Marx não permitiram que estas observações fossem debatidas profundamente pelos economistas.2

 

Lênin traçou um panorama evolutivo dos monopólios à luz da evolução do capitalismo industrial para dar um sentido histórico ao desenvolvimento do imperialismo, o que ajuda muito a elucidar como os monopólios constituíram sua própria trajetória histórica, a qual não pode e nem deve ser dissociada da história do desenvolvimento do sistema capitalista.

 

Assim, o resumo da história dos monopólios é o seguinte: 1) Décadas de 1860 e 1870, o grau superior, culminante, de desenvolvimento da livre concorrência. Os monopólios não constituem mais do que germes quase imperceptíveis. 2) Depois da crise de 1873, longo período de desenvolvimento dos cartéis, os quais constituem ainda apenas uma exceção, não são ainda sólidos, representando ainda um fenômeno passageiro. 3) Ascenso de fins do século XIX e crise de 1900 a 1903: os cartéis passam a ser uma das bases de toda a vida econômica. O capitalismo transformou-se em imperialismo.3

 

Os monopólios são estruturas de produção que se organizam através de cartéis. De acordo com Lênin, uma característica peculiar da organização monopolista é a formação de cartéis que controlam todos os ramos da produção e combinam os preços das mercadorias que serão consumidas no mercado. Assim, segundo a lógica de superação da livre concorrência, os monopólios se tornariam oligopólios que, através dos cartéis, dominariam todos os estágios de produção e de oferta de mercadorias em determinado setor econômico. Os cartéis representaram, neste sentido, um importante instrumento de pressão econômica por parte dos donos dos meios de produção. Ou seja, os cartéis são uma consequência do processo de extinção da livre concorrência, que por sua vez se constituem enquanto mecanismo que impede o regresso ao status anterior do capitalismo, pois uma atividade cartelizada não permite a entrada de novos concorrentes.

 

Lênin ressalta que a combinação de diversas atividades industriais em uma só empresa é um fenômeno novo, característico do imperialismo; trata-se do germe do monopólio e do processo de cartelização da economia. Ou seja, o capitalismo daquele período criou as condições para uma maior estabilidade da taxa de lucro, através da atividade produtiva combinada e do monopólio das etapas do processo produtivo.

 

A partir destas observações, temos um quadro de empresas gigantescas, que dominam diversos ramos da atividade produtiva, e que se organizam em cartéis que controlam as matérias primas, a produção, a oferta de mercadorias e, consequentemente, os preços dos produtos:

 

Os cartéis estabelecem entre si acordos sobre as condições de venda, os prazos de pagamento, etc. Repartem os mercados de venda. Fixam a quantidade de produtos a fabricar. Estabelecem os preços. Distribuem os lucros entre as diferentes empresas etc.4

 

Esta configuração estrutural do capitalismo propiciou que houvesse “a deslocação da atividade comercial, no anterior sentido da palavra, para uma atividade organizadora e especulativa”.5 O fim da livre concorrência criou condições para que as principais características da atividade comercial fossem superadas pelas fórmulas organizativas e especulativas típicas do mercado financeiro. Isto significa que houve uma penetração do capital financeiro no capital industrial, que por sua vez passou a ser regido por uma lógica diferente da anterior no que diz respeito à dinâmica organizacional e de planejamento das empresas.

 

Para Lênin, os monopólios são a maior expressão da fase imperialista do capitalismo, contudo seu significado não teria densidade sem a explicação do papel dos bancos na economia monopolista.6 O processo de concentração também ocorreu no setor bancário, na medida em que aumentaram as operações bancárias e os bancos deixaram de ser apenas intermediários de pagamentos e passaram a ocupar um papel monopolista de controle do capital dinheiro, e consequentemente no financiamento das empresas. Além disso, a concentração das operações bancárias em uma única empresa possibilitou que a situação financeira dos usuários dos bancos fosse conhecida pormenorizadamente, o que levou a possibilidades de criação de instrumentos de controle e pressão dos bancos sobre a indústria. Uma atividade que possui a natureza essencialmente técnica, e pertencente à razão de existência dos bancos, se tornou um importantíssimo trunfo político, que possibilitou a realização de planejamentos estratégicos do mercado financeiro à luz da situação contábil das empresas, aprofundando a relação de dependência do capital industrial em relação ao capital financeiro.

 

Estes simples números mostram, talvez com maior evidência do que longos raciocínios, como a concentração do capital e o aumento do movimento dos bancos modificam radicalmente a importância destes últimos. Os capitalistas dispersos acabam por constituir um capitalista coletivo. Ao movimentar contas correntes de vários capitalistas, o banco realiza, aparentemente, uma operação puramente técnica, unicamente auxiliar. Mas quando esta operação cresce até atingir proporções gigantescas, resulta que um punhado de monopolistas subordina as operações comerciais e industriais de toda a sociedade capitalista, colocando-se em condições – por meio das suas relações bancárias, das contas correntes e de outras operações financeiras-, primeiro de conhecer com exatidão a situação dos diferentes capitalistas, depois de controlá-los, exercer influência sobre eles mediante a ampliação ou a restrição do crédito, facilitando-o ou dificultando-o, e, finalmente, de decidir inteiramente sobre o seu destino, determinar a sua rendibilidade, privá-los de capital ou permitir-lhes aumentá-lo rapidamente e em grandes proporções etc.7

 

Essa relação entre o capital industrial e financeiro vai além destas duas esferas sociais e também penetra no seio do Estado, através das participações de determinadas figuras públicas nos conselhos de administração destas sociedades empresariais frutos da fusão entre o capital financeiro e industrial.

 

Essa situação relativa às oportunidades geradas pelas exportações de capitais criou as premissas para que houvesse uma partilha das áreas para onde o capital excedente foi destinado. De acordo com Lênin (1916), os capitalistas primeiro repartiram o mercado interno. Como na lógica capitalista existe uma relação global, ou melhor, entre o local e o global, foi natural que os espaços externos também fossem partilhados. A mundialização do modo de produção capitalista, na sua fase imperialista, propiciou o surgimento de cartéis internacionais, que por sua vez, propiciaram aquilo que Lênin chama de supermonopólio.

 

Para Lênin, existe uma situação peculiar na partilha do mundo, após a superação da livre concorrência, que consiste na inexistência de terras que não estejam sob o controle de algum Estado. Tal fato cria uma singularidade relativa a este período e que revela quão potente foi a expansão do capitalismo na sua fase imperialista, na qual o globo foi repartido entre os cartéis internacionais, cujo resultado foi a pauperização e o saque de regiões do mundo. Ou seja, a nova fase do capitalismo ocasionou a criação de um novo mundo colonial, cujas metrópoles proeminentes foram aquelas onde o capitalismo se desenvolveu de forma prematura e, portanto, havia excedente para ser exportado. Tal conjuntura não permitiu que nações formadas tardiamente fossem contempladas na partilha, mesmo que houvesse um capitalismo robusto, como foi o caso da Alemanha. É importante ressaltar que as causas da primeira guerra mundial podem ser compreendidas à luz desta disputa interimperialista por espaços coloniais.

 

A seguir, tentaremos verificar a aplicabilidade dos conceitos de Lênin sobre o imperialismo na análise do mercado de videogames.

 

UMA ANÁLISE DO MERCADO DE VIDEOGAMES À LUZ DO CONCEITO DE LÊNIN SOBRE IMPERIALISMO.

 

 

Depois de 100 anos das formulações de Lênin sobre o imperialismo, é salutar questionar a aplicabilidade do conceito para descrever a atual fase do capitalismo no século XXI. Este é um debate que permeia as ciências humanas e rendeu boas polêmicas nos últimos anos. Em seu livro Império e Imperialismo,8 Atílio Boron demonstrou, através da análise do processo histórico contemporâneo, que algumas das características do imperialismo descritas por Lênin ainda continuam válidas e possíveis de serem percebidas na análise da história das disputas geopolíticas contemporâneas.

 

Uma das primeiras leituras que podemos fazer sobre os acontecimentos no Iraque é que a superpotência solitária assumiu-se plenamente como imperialista, e não apenas não tenta ocultar esta condição, conforme ocorria no passado, como ainda o demonstra claramente. Interveio militarmente no Iraque, como certamente o fará em outras partes do mundo, obedecendo à mais grosseira e mesquinha defesa dos interesses do conglomerado de gigantescos oligopólios que configuram a classe dominante norte-americana, interesses que graças à alquimia da hegemonia burguesa se convertem, milagrosamente, em interesses nacionais dos Estados Unidos. Os homens da indústria petroleira que hoje transitam pelos salões da Casa Branca precipitaram-se, alegando pretextos absurdos, sobre um país a fim de apoderar-se de enormes riquezas que guarda em seu subsolo. Pura e simplesmente, a ocupação militar do Iraque não passa de uma conquista territorial a cargo do ator central da estrutura imperialista dos nossos dias. Não há nada ali de “desterritorializado” ou imaterial. É a velha prática reiterada pela enésima vez.9

 

Borón vai além, e observa que a Globalização, cujos defensores argumentam que o imperialismo foi sepultado por este fenômeno, é um novo período do imperialismo. E que, além destes fatores relativos à partilha do mundo, processo ainda vigente na contemporaneidade, e a cartelização da economia através de grandes conglomerados monopolistas, a Globalização aguçou as características predatórias do imperialismo:

 

Entretanto, o que se vem ratificando já há algum tempo […] é que a globalização podia ser mais bem caracterizada não como a superação do imperialismo, mas como uma nova fase dentro da etapa imperialista do capitalismo… A interpretação que se obtém das discussões sustentadas demonstra que, longe de diluir o imperialismo numa espécie de império benévolo, inócuo e inofensivo, a globalização causou, pelo contrário, uma radicalização dos traços tradicionais do imperialismo, reforçando extraordinariamente sua natureza genocida e predatória.10

 

A priori, Mészáros coaduna com a crítica ao papel messiânico que alguns autores, influenciados pelo mercado, deram à globalização. Para Mészáros, a perspectiva de uma sociedade global, sem princípios mínimos de igualdade econômica e social, é contraditória com a lógica de reprodução capitalista. Ou seja, aquilo que os defensores do capitalismo global apregoam é incoerente com a natureza do sistema. “Evidentemente, portanto, o sistema do capital, em todas as suas formas concebíveis ou historicamente conhecidas, é totalmente incompatível com suas projeções – ainda que distorcidas de universalidade globalizante.”11

 

Mészarós também deu um sentido histórico ao imperialismo e dividiu o mesmo em três fases distintas que exemplificam suas características. Essa afirmação da existência de três fases distintas do imperialismo não rompe com a perspectiva de Lênin, mas complementa-a, pois sugere uma cronicidade lógica para as etapas do capitalismo imperialista.

 

1. O primeiro imperialismo colonial moderno construtor de impérios, criado pela expansão de alguns países europeus em algumas partes facilmente penetráveis do mundo;

2. Imperialismo ‘redistributivista” antagonicamente contestado pelas principais potências em favor de suas empresas quase-monopolistas, chamado por Lênin de “estágio superior do capitalismo”, que envolvia um pequeno número de contendores, e alguns pequenos sobreviventes do passado, agarrados aos restos da antiga riqueza que chegou ao fim logo após a Segunda Guerra Mundial; e

3. Imperialismo global hegemônico, em que os Estados Unidos são a força dominante, prenunciada pela versão de Roosevelt da “Política de Porta Aberta”, com sua fingida igualdade democrática, que se tornou bem pronunciada com a eclosão da crise estrutural do sistema do capital – apesar de ter se consolidado pouco depois da Segunda Guerra Mundial – que trouxe o imperativo de constituir uma estrutura de comando abrangente do capital sob “um governo global” presidido pelo país globalmente dominante.”12

 

 

Assim, levaremos em consideração este recorte histórico em nossa análise, que irá focar na dinâmica de produção e consumo dos videogames ao redor do mercado global, a partir das premissas analíticas sobre o imperialismo formuladas por Lênin e que continuam atuais, como demonstram os estudos de Atílio Boron e de autores como Mészáros.

 

Grosso modo, o mercado de games pode ser dividido em duas áreas principais. A produção de consoles de videogames e a produção de jogos eletrônicos que serão utilizados nestes consoles. Atualmente, o mercado de videogames movimenta mais recursos que a indústria cinematográfica. O volume de recursos atraiu grandes multinacionais, que passaram a investir fortemente no mercado. A Sony e a Microsoft não foram fundadas como empresas destinadas à produção de consoles ou jogos eletrônicos, porém, passaram a dominar o mercado global de videogames ao lado da Nintendo. Vale ressaltar que duas dessas empresas são japonesas: Sony e Nintendo. E uma delas é norte-americana, a Microsoft. Ou seja, o mercado mundial de consoles de videogames é dominado por apenas três empresas pertencentes a países que possuem o primeiro (EUA) e o terceiro (Japão) PIB do mundo.

 

 

grafico1

Fonte: https://www.statista.com/statistics/268966/total-number-of-game-consoles-sold-worldwide-by-console-type/. Acesso em: 01/12/2016

 

 

O gráfico acima demonstra que o mercado de videogames pertence a três empresas que, historicamente, com exceção de alguns períodos anômalos, dominaram o mercado. Os números do quadro são referentes aos consoles mais vendidos em toda a história. Apenas dois consoles, entre os mais vendidos, não pertencem à Sony, Microsoft ou Nintendo: o Atari 2600, produzido pela ATARI, que vendeu 27.64 milhões de unidades e o Sega Genesis, produzido pela SEGA, com 29.54 milhões de unidades vendidas. O total de unidades de videogames vendidas ao longo dos anos, de acordo com estas estatísticas, foi de 1.422.380.000 (um bilhão, quatrocentos e vinte e dois milhões e trezentos e oitenta mil). Deste total, apenas 57 milhões de unidades foram vendidas por marcas que não sejam a Nintendo, Sony ou Microsoft, este número correspondendo a 3,8% das vendas desde o lançamento dos consoles.

 

Estes dados comprovam que há uma concentração monopolista na produção e na venda de consoles de videogames que afetam todo o mercado. Tais dados também demonstram que as tendências apontadas por Lênin relativas à acumulação e concentração da renda e da produção ainda continuam válidas, pois se verifica um monopólio de três empresas que dominam o acesso a jogos eletrônicos via consoles.13

 

 

grafico2
Fonte: https://www.statista.com/statistics/268966/total-number-of-game-consoles-sold-worldwide-by-console-type/. Acesso: 11/12/2016

 

 

Esta tendência também é confirmada quando confrontamos os dados do primeiro quadro com o do segundo. Esta comparação é válida, e demonstra que o monopólio do mercado entre a Nintendo, Sony e Microsoft continua, e suas vendas seguem o padrão relativo aos lançamentos dos consoles pelas empresas. Assim, as vendas aumentam quando novos consoles são lançados, e caem quando os mesmos já possuem um número de consoles significativos circulando entre os consumidores. Outra hipótese para a queda nas vendas pode ter relação com a reflexão proposta por Jeffry Babb e Neil Terry (2013), e que consiste na probabilidade de que os usuários de consoles de videogames estão comprando várias plataformas que coexistem, ou seja, um usuário de um console da Sony também pode comprar um console da Microsoft ou da Nintendo. Isso pode ocorrer por vários motivos, dentre eles o fato de que atualmente os desenvolvedores de jogos estão fechando contratos de exclusividade com as principais plataformas. Por exemplo, o Jogo Gran Turismo Sport (2016) foi lançado exclusivamente para o Playstation 4, a mais recente plataforma da Sony. A priori, para poder jogar o jogo, deve-se adquirir o console lançamento da Sony. Isso não significa que todos os jogos possuem exclusividade, pois muitos títulos são lançados para diversos consoles, porém verifica-se na indústria atual, principalmente na sétima geração de consoles, uma tendência aos lançamentos exclusivos. Esta prática se tornou tendência ainda na década de 1990, quando a Nintendo instituiu algumas destas práticas monopolistas.

 

Acima de tudo, a Nintendo tinha aprendido a controlar sua plataforma e seu produto, implantando medidas técnicas e legais que restringiam o acesso de desenvolvedores independentes de software para seu console baseado no cartucho. Por exemplo, a Nintendo protegeu vigorosamente a sua patente sobre o dispositivo de cartucho para restringir os desenvolvedores de softwares de jogos de publicar cartuchos compatíveis sem a sua permissão explícita.14

 

 

Além disso, os videogames são tão arraigados no cotidiano de muitos jogadores que as pessoas estão comprando jogos em uma variedade de plataformas (por exemplo, os telefones inteligentes móveis, consoles de jogos, computadores, etc.) e estão cada vez mais jogando online (através da Internet) e estão dispostos a pagar pelo privilégio de fazê-lo; World of Warcraft da Blizzard Entertainment, por exemplo, tem mais de 11 milhões de jogadores / assinantes em todo o mundo, e mais de US $ 1 bilhão por ano em receitas.15 (Babb & Terry, 2013, p.1).

 

 

O desenvolvimento da plataforma propicia controle do processo de desenvolvimento de games e o controle do acesso aos games. Sobre esta relação entre consumidores de jogos de consoles e desenvolvedores de games, Babb e Terry compreendem que há “um mercado bilateral” (BABB &TERRY, 2013 p.28). Este mercado bilateral é a grande fonte de renda das multinacionais que fabricam os consoles, pois as plataformas da sétima geração em diante possuem ambientes online que vendem jogos e permitem aos jogadores a utilização dos modos multiplayers dos jogos. Assim, as vendas de jogos via streaming permitem que os fabricantes cobrem preços baixos pelo hardware. De acordo com Rysman, (2009) o mercado bilateral pode ser distinguido através da análise do comportamento dos intermediários. No caso dos games, os intermediários são as empresas que fabricam consoles e intermediam a relação entre desenvolvedores e jogadores.

 

A literatura sobre os mercados bilaterais é distinguida pelo seu foco nas ações do intermediário do mercado. De um modo geral, a pesquisa nos mercados bilaterais explora as escolhas dos intermediários do mercado, em particular os preços, quando há algum tipo de interdependência ou externalidade entre grupos de agentes com quem os intermediários atuam.16

 

Durante o período de estudo (2006-2011), os dados mostram claramente que os jogos de videogame lançados pela sétima geração de consoles de jogos domésticos dominam as vendas do mercado. Isso é, em grande parte, de propósito, uma vez que os fabricantes de hardware, tais como Microsoft, Sony e Nintendo, têm desenvolvido cuidadosamente um mercado voltado para plataformas para as quais as vendas de softwares subsidiam hardware relativamente barato.17

 

Como falamos anteriormente, há jogos que são exclusivos para determinadas plataformas, porém também existem jogos que são lançados para várias plataformas. Ou seja, os lançamentos exclusivos criam mais custos aos consumidores de videogames, que são obrigados a manter várias plataformas na sua casa para poder jogar determinados jogos. Por outro lado, os lançamentos em múltiplas plataformas exigem custos maiores, em função da necessidade de manutenção de equipes de desenvolvimento e suporte, que desenvolvam os jogos para as especificidades técnicas de consoles distintos.

 

Multi-homing não é “livre” para desenvolvedores de software, e muitas vezes os custos de manutenção de um desenvolvimento de software “base de código” para múltiplas plataformas são elevados; por vezes, exigindo a manutenção de equipes de desenvolvimento totalmente separadas. Isto não é um problema novo e tem sido experimentado no mercado de computação pessoal durante anos e atualmente na indústria da telefonia móvel inteligente. Como tal, multi-homing também afeta o usuário de tal forma que maiores custos de multi-homing reduzem a disposição do usuário para manter a ligação com redes que fornecem serviços semelhantes concorrentes; tal como entre o iPhone e Android, ou entre o Xbox e PlayStation.18

 

A arquitetura da indústria de consoles de games criou uma relação de dependência entre os consumidores/desenvolvedores e os fabricantes de consoles. Tanto o acesso quanto a venda dos produtos obrigam desenvolvedores e consumidores a aderirem a determinado console, ou a vários deles.

 

Além disso, os produtores e consumidores neste mercado bilateral também estão sujeitos ao controle coercitivo exercido pelos proprietários das plataformas (Parker & Alstyne, 2005). Os proprietários de plataformas como Microsoft, Sony, e a Apple geralmente cobram dos produtores e consumidores pelo direito de acessar a plataforma; tais encargos têm forma no preço de revenda, assinaturas, e licenciamento.19

 

Através do uso da plataforma, as empresas obtêm uma grande parte de suas receitas, pois exigem dos consumidores e dos produtores de games o uso do respectivo hardware. Somente três empresas dominam o mercado de venda de consoles no mundo. Estas empresas instituíram um monopólio através da institucionalização de uma arquitetura de negócios, onde os consumidores e produtores de conteúdo são obrigados, se quiserem consumir e vender, a adquirir a plataforma e a participar das suas redes.

 

As empresas que dominam os mercados de videogames também costumam cartelizar os preços dos jogos que são lançados. Uma rápida pesquisa entre os sites que vendem títulos para ambas as plataformas (Sony e Microsoft) expõe as estratégias das empresas de equiparar os preços dos seus produtos. No site Extra.com o jogo lançamento Battlefield 1 custa R$ 229,00, tanto para a versão desenvolvida para Playstation 4 20, quanto para a versão destinada ao X BOX ONE 21. No entanto, no site do Walmart 22, temos uma diminuição do preço de Battlefield 1 para as versões da Sony e da Microsoft, mas o mesmo valor continua sendo cobrado para consoles diferentes e concorrentes ao custo de R$ 184,00. Os mesmos preços para produtos que funcionam em dispositivos concorrentes, em lojas que possuem expressão significativa na venda de games em meio físico no mercado brasileiro, permitem vislumbrar indícios23 de cartelização dos preços.

 

CONCLUSÃO

 

 

Ao longo deste artigo, discutimos o conceito de imperialismo e procuramos identificar determinadas características desta fase do capitalismo no mercado de videogames. Vimos que o mercado de games foi monopolizado por empresas que atuam no comércio global de jogos eletrônicos. O mercado de jogos eletrônicos foi criado na fase superior do capitalismo, portanto, herdou características inatas ao período imperialista.

 

Seria impossível analisar o mercado de games através da lógica da livre concorrência, porque, de fato, ela não existe mais. A lógica monopolizante, da atual fase de reprodução do capital, moldou a indústria de games a esta semelhança. O número restrito de empresas que dominam o mercado mundial de consoles é a expressão deste fenômeno. Suas práticas relativas à reserva de mercado e o monopólio de acesso a alguns títulos refletem práticas alertadas por Lênin e que continuam atuais na contemporaneidade.

 

Grosso modo, houve uma agudização destas práticas monopolistas em virtude da natureza do produto, a partir da sétima geração de consoles de videogames, que foram desenvolvidos em conjunto com redes de relacionamento de cada empresa e que não se comunicam entre si. Isso permitiu que as multinacionais criassem mecanismos de fidelização, tanto de consumidores quanto de desenvolvedores de games, o que revela uma preocupação em garantir reserva de mercado através de estratégias de uso dos seus produtos e não pela livre escolha do consumidor. Tais mecanismos de fidelização são práticas comerciais monopolistas, que não diferem muito daquelas descritas por Lênin (1916) em seu artigo. Essas práticas objetivam controlar todos os aspectos da cadeia produtiva de videogames, com vistas a garantir uma taxa média de lucro constante e a dominação do mercado global de plataformas, bastante restrito quanto à oferta de consoles.

 


 

NOTAS

 

 Licenciado em História pela UFBA. Mestre em Cultura e Sociedade. No doutorado, pesquisa as representações do imperialismo norte-americano nos videogames. Email: diogocarvalho_71@hotmail.com

2 Vladimir Lênin. Imperialismo Fase Superior do Capitalismo. 1ª Edição. São Paulo. Editora Global. 1987. p.7.

3 Ibid.

4 Ibid. p. 8.

5 Ibid. p. 9

6 Ver: Ibid.p.11

7 Ibid.p.14.

8 Atílio Boron. Império e Imperialismo: uma leitura crítica de Michael Hardt e Antônio Negri. 5ª Edição. Buenos Aires. 2004. Consejo Latinoamericano de Ciencias Sociales. 168 p.

9 Idem. p. 13. (Tradução do Editor)

10 Idem., 2004. p. 126-127.

11 István Mészáros. O Século XXI: socialismo ou barbárie. 1ª Edição. São Paulo. Boitempo Editorial. 2003. p.16.

12 Ibid. p. 72

13 Dados do The Economist demonstram que a concentração de renda no PIB norte-americano ainda é gigantesca e possui uma intensidade maior do que quando o fenômeno ocorria no início do século. Segundo a matéria, atualmente, as empresas de tecnologia possuem uma fatia do PIB maior do que as empresas clássicas como Standard Oil and Sears, US Steel etc possuíam antes da crise de 1929. Para mais informações, ver: http://www.economist.com/news/special-report/21707048-small-group-giant-companiessome-old-some-neware-once-again-dominating-global?fsrc=scn/fb/te/pe/ed/theriseofthesuperstars. Acesso em: 15/12/2016

14 Henry Lowood. “A Brief Biography of Computer Games”. In: Peter Vorderer and Jennings Bryant. Playing Computer Games: Motives, Responses, and Consequences. 1ª Edição. New York/London. Routledge. 2006. p. 40.

15 Jeffry Babb, Neil Terry. “Comparing Game Sales By Gaming Platform”. Southwestern Economic Review. Canyon. Vol, 40. 2013. p .1.

16Marc Rysman. “The Economics of Two-Sided Markets”. Journal Of Economic Perspectives. Pittsburgh. Vol, 23. N° 3. 2009.p. 126. Ver em: http://pubs.aeaweb.org/doi/pdfplus/10.1257/jep.23.3.125 Acesso em: 11/12/2016.

17 Jeffry Babb, Neil Terry. “Comparing Game Sales By Gaming Platform”. Southwestern Economic Review. Canyon. Vol, 40. 2013. p .28.

18 Ibid.p. 29

19 Idem.

20Acesso em: http://www.extra.com.br/Games/Playstation4/JogosPlaystation4/Jogo-Battlefield-1-PS4-10212007.html?recsource=busca-int&rectype=busca-2518. Visto em: 18/12/2016

21 Acesso em: http://www.extra.com.br/Games/XboxOne/JogosXboxOne/Jogo-Battlefield-1-Xbox-One-10237143.html?recsource=busca-int&rectype=busca-2678. Visto em 18/12/2016.

22Acesso em: https://www.walmart.com.br/busca/?ft=Battlefield&PS=20 Visto em: 17/12/2016

23 Mais estudos com foco no consumo e na oferta de títulos de games no mercado brasileiro são necessários para uma maior compreensão das estruturas de preços dos games produzidos para consoles e vendidos no Brasil. Por isso nossa pequena análise não pode ser conclusiva quanto à cartelização do mercado, contudo, percebemos indícios que levam a questionamentos das práticas comerciais realizadas pelas gigantes do mercado de produção e distribuição destes produtos.

 

BIBLIOGRAFIA

 

Eric Hobsbawm. A Era dos Extremos: o breve século XX. 2ª Edição. São Paulo. Companhia das Letras. 2007. 598 p.

 

Vladimir Lênin. Imperialismo Fase Superior do Capitalismo. 1ª Edição. São Paulo. Editora Global. 1987.

 

Atílio Boron. Império e Imperialismo: uma leitura crítica de Michael Hardt e Antônio Neri. 5ª Edição. Buenos Aires. 2004. Consejo Latinoamericano de Ciencias Sociales. 168 p.

 

___________. Hegemonia e Imperialismo no Sistema Mundial. In: Atílio Boron (ORG). Nova Hegemonia Mundial: alternativas de mudança e movimentos sociais. 1ª Edição. Buenos Aires. Consejo Latinoamericano de Ciencias Sociales. 2004. 208p.

 

István Mészáros. O Século XXI: socialismo ou barbárie. 1ª Edição. São Paulo. Boitempo Editorial. 2003.

 

Henry Lowood. “A Brief Biography of Computer Games”. In: Peter Vorderer and Jennings Bryant. Playing Computer Games: Motives, Responses, and Consequences. 1ª Edição. New York/London. Routledge. 2006. 27-48p.

 

Jeffry Babb, Neil Terry. “Comparing Game Sales by Gamming Platform”. Southwestern Economic Review. Canyon. Vol, 40. 2013. 25-46 p.

 

Marc Rysman. “The Economics of Two-Sided Markets”. Journal of Economic Perspectives. Pittsburgh. Vol, 23. N° 3. 2009. 125-143.