REVISTA ELETRÔNICA DA BIBLIOTECA VIRTUAL CONSUELO PONDÉ – N.5 FEV DE 2017. ISSN 2525-295X

ARTIGO

 

 

UM CERTO LADO DA HISTÓRIA DE FUNDAÇÃO DO ILÊ AIYÊ

 

Armando Almeida*

 

Ilê-Aiyê-Sábado-Foto-André-Frutuôso-6-617x289Foto: André Frutuôso

 

O Ilê Aiyê é o primeiro bloco afro do Brasil. Estreia no carnaval de Salvador em 1975, inaugurando com sua atuação na festa, e fora dela, uma modalidade bem diferenciada de combate ao racismo. Uma ação organizada por jovens, inspirados pelo espírito libertário que marca decisivamente o Ocidente no final dos anos sessenta e por toda a década seguinte. A contracultura, a luta pelos direitos civis nos Estados Unidos, o Maio de 68 e o Tropicalismo no Brasil são expressões desta época. Estavam todos comprometidos com mudanças de atitude e comportamentais. É precisamente neste contexto que surge a palavra de ordem Black is Beautiful. Uma das mais revolucionárias daquele momento. Em torno de seu sentido político e estético, o Ilê se organiza e ressignifica as estratégias de resistência à nossa sutil naturalização do racismo.

 

O bloco afro é uma modalidade bem específica de “agremiação”. Uma entidade carnavalesca comprometida politicamente com a luta contra a discriminação racial, que busca operar uma mudança de comportamento na população afrodescendente por meio da valorização das tradições de origem africana e do desenvolvimento de ações sociais nas áreas de educação, arte e cultura. Uma instituição comprometida com uma radical mudança de atitude, especialmente voltada para a comunidade afrodescendente brasileira.

 

Os jovens que levaram o Ilê para a rua – em plena época da ditadura militar brasileira – portanto, ressignificaram a negritude contemporânea em Salvador e seu Recôncavo e atingiram um ponto nevrálgico do racismo: desmontaram, como nunca, o conceito eurocêntrico de beleza. A nova estética proposta pelo Ilê atinge frontalmente os fundamentos do racismo institucionalizado, atributo culturalmente construído, diga-se de passagem, e que, como não poderia deixar de ser, também costuma ser internalizado pelo próprio afrodescendente. A eficácia da ação do Ilê se realiza, como se vê, no campo da negociação simbólica, onde os valores são sedimentados e onde se determina o lugar que ocupamos no mundo.

 

Mas neste artigo, o que nos interessa destacar é que esta revolução que o Ilê Aiyê ajudou a promover e a sintetizar é resultado do cruzamento de muitas variáveis contextuais e da atuação de atores bem diversos. Histórias e contextos, equidistantes e culturalmente heterogêneos, convergiram e geraram afinidades de propósitos. Cada um dos atores envolvidos, à sua maneira, e segundo uma sabedoria acumulada, ajudou a plasmar uma nova negritude na Bahia e no Brasil. Foram fundamentais no processo de associação da negritude com a beleza. Fundamentais para que eclodisse uma negritude orgulhosa e de cabeça erguida, ciente da carga simbólica que carrega, com uma capacidade enorme de reduzir o tamanho do fardo que herdamos da escravidão, alterando mecanismos seculares de exclusão e classificação social e racial.

 

Estamos diante, não resta dúvida, de uma das mais eficazes maneiras de combater o racismo no mundo contemporâneo. Esta é uma grande lição que o Ilê nos dá.

 

Em minhas pesquisas sobre a criação do Ilê e sobre o que motivou aquela atitude criadora, consegui identificar algumas pessoas de especial ascendência sobre os jovens que fundaram e fizeram acontecer o Ilê. Importantes intelectuais orgânicos deste processo, como o foram também aqueles jovens. Cito aqui aqueles que mais me chamaram a atenção: Mãe Hilda, Clyde Morgan, Mário Gusmão e Radovan Borojevic.

 

Ironicamente, estes personagens são produto de contextos radicalmente bem diversos. Por isto mesmo, atuaram diferentemente sobre aqueles jovens. A história os uniu porque tinham pontos em comum, ainda que vividos com intensidade diversa e de diferentes maneiras. A questão racial era uma das mais significativas delas. Especialmente Clyde, Mário e Radovan tinham em comum as fortes marcas da contracultura em suas formações intelectuais.

 

Quando entrevistado, em 2009, Clyde estava, desde 1987, professor e diretor artístico da companhia Sankofa African Dance and Drum Ensemble, da Universidade Estadual de Nova York, na pequena cidade de Brockport. Mantinha apartamento em Salvador, onde costumava passar alguns meses todos os anos, e onde me concedeu uma longa entrevista.

 

ClydeMorgan2Clyde Morgan. Foto: Jennifer Carvalho.

 

Mário faleceu em 20 de novembro de 1996. Mas, graças ao esforço criterioso de pesquisa de Jeferson Bacelar, muitos aspectos importantes de sua história foram organizados e tornaram-se acessíveis através da biografia que dele publicou (2006).

 

Entretanto, optei por destacar nesta Revista Virtual apenas um destes personagens, não apenas pelo desconhecimento que o grande público tem sobre sua importância, mas para trazê-lo para a “história” e também pelo que sua história nos elucida: Radovan Borojevic.

 

101Mário Gusmão. Foto extraída do livro de Jeferson Bacelar. Mário Gusmão: um príncipe negro na terra dos dragões da maldade. Rio de Janeiro, Pallas, 2006. (Detalhe)

 

Uma frase de Clyde, na entrevista que me concedeu, não poderia deixar de atiçar minha curiosidade. A frase foi esta: “A casa de Radovan foi a sede da revolução”. Lá, Clyde afirma que ouvia músicas africanas modernas (African Pop) e que foi lá que ele conheceu outras pessoas ligadas ao Ilê, Vovô e Macalé, que, junto com Apolônio1, formaram o núcleo central de sua criação. Este nome já havia aparecido bem incidentalmente no pioneiro livro de Antonio Risério, Carnaval Ijexá (1981). Ali, nas últimas linhas de um capítulo que trata da criação do Ilê – e vou mesmo abusar da redundância – ele revela algo bem revelador, nos instigando para uma investigação. Dizia ele que havia um “iugoslavo, criado na França”, que haveria trabalhado como geógrafo em Salvador, chamado Radovan, que teria sugerido o nome do Ilê Aiyê (1981: 46). No filme O Anjo Negro da Bahia, de Élson Rosário (2005), sobre Mário Gusmão, há um depoimento de Vovô que o coloca ao lado de Radovan como fonte de conhecimento e referências intelectuais significativas para o Ilê. “Mário estava no Ilê desde o início. Junto com Macalé2 e Radovan, pessoas que davam informação”. Foi na casa de Radovan que Macalé e Vovô ouviram Fela Kuti3 pela primeira vez, e o que havia de mais atual na música africana pop.

 

Foi assim que ficou evidente a necessidade de se obter um depoimento de Radovan. Quase um desconhecido, não fosse sua rica biografia em outras áreas da atividade humana. Não foi difícil encontrá-lo. Clyde Morgan havia dito que ele era um cientista francês. No Google encontrei um Radovan professor titular da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), a um ano de sua aposentadoria compulsória por completar 70 anos e uma das maiores referências no país em células tronco do coração. Era ele. Através do e-mail fornecido pelo Currículo Lattes, obtive dele a confirmação de que ele era ele e a disposição de me conceder uma entrevista em Petrópolis, onde reside. Como se vê, ele não é um geógrafo, é um biólogo. Radovan Borojevic é diretor do programa avançado de Biologia Celular Aplicada à medicina da UFRJ.

 

Curioso que ele tenha sido homenageado com os títulos de Doutor Honoris Causa pela UFBA e Cidadão Soteropolitano pela Câmara de Vereadores, sem que em nenhuma destas ocasiões se tenha mencionado esta sua fundamental participação em algo que muda o rumo da história baiana de maneira tão radical. Ainda assim, no dia da sessão de entrega do título na Reitoria da UFBA todos foram surpreendidos com a “invasão” alegre do Ilê lhe homenageando.

 

Embora seja fenotipicamente um branco, Radovan tem uma sensibilidade aguçada para a questão étnica. Nasceu croata – filho de pai sérvio de origem bósnia e de mãe croata – onde viveu até os dezoito anos, sentindo a discriminação na pele por ser de uma tradicional etnia da Bósnia. O que o fez nunca sentir a Iugoslávia como pátria e a sentir-se um estrangeiro em casa. Falando sobre o assunto, ele ilustra a situação declarando ter sido tratado na Croácia como foram os judeus pelos alemães durante o nazismo. Vir da Bósnia era mais violentamente estigmatizador na Croácia do que na França, onde nunca diz ter se sentido verdadeiramente como um cidadão francês, mesmo possuindo esta naturalização. O desconforto desta situação o fez migrar para a França entre 1959 e 1960, e lá viver, em seus primeiros anos, como um andarilho beatnik. Fato curioso e ilustrativo.

coroaRadovan lendoCarnaval Ijexá, de Antonio Risério. Foto do acervo do autor.

 

Ele diz que “viviam como mendigos, como hippie americano”, e que levava “uma vida totalmente paralela à sociedade”. E que era um tipo de “beatnik introspectivo”. Neste período, cantava em uma banda que fazia shows em casas noturnas. Mesmo antes do Flower Power, ele diz que já era “um paz e amor”. Foi, pois, com esta turma que ele primeiramente se identificou na França.

 

As afinidades de Radovan com a questão não se encerram por aí. Ele era alguém que havia sentido com muita força o impacto do Maio de 68 na França. E isto lhe acontece a menos de um ano de vir viver por aqui. Naquele ano ele estava concluindo um doutorado na Universidade de Paris, defendendo uma tese sobre mecanismos celulares de regeneração. Mais uma vez os ventos contraculturais interferem no seu caminho. No final dos anos 60 o vento foi muito mais forte. Levava uma vida toda “bem traçada”, bem como mandava a tradição de sua família. Seu bisavô, seu avô e seu pai foram acadêmicos. Ele diz que Maio de 68 o “sacudiu”. Que tinha “um lado de contracultura, de proibido proibir” que “internalizou” com muita força, num espaço de dias. A resposta tinha vindo com o vento.4

 

Segundo Radovan, em maio de 68 ele estava no meio da confusão:

 

 

Morava no centro da muvuca. Na época estava muito envolvido com meu doutorado. Tudo o que era mais careta e quadrado possível. O Maio chegou como algo inesperado e surpreendente. No meu ambiente estudantil eu não tinha nenhuma relação com as áreas humanas. Chegou como uma surpresa, muito interessante porque mexia comigo. Mostrou-me que havia outro mundo. Abriu-me os olhos.

 

 

Com tudo isto, entretanto, Radovan não teve como não se decepcionar com o dia seguinte ao Maio de 68. Para ele, um mês depois de tudo, quando se reorganizava a vida na academia, as discussões mais essenciais caíram no campo das questões materiais de sobrevivência e colocação no mercado de trabalho. “Pensava-se prioritariamente no bolso”. Não era isto que ele via como contracultura. A visão que ele tinha da contracultura estava totalmente associada com a valorização de uma vida alternativa, e à margem. Ter comemorado seu aniversário de 20 anos com mendigos embaixo de uma ponte de Paris é citado como exemplo deste espírito.

 

Mais uma vez o espírito aventureiro o predispôs a vir para o Brasil, três meses depois de concluir seu doutorado, em novembro de 1968, em cumprimento ao serviço militar obrigatório francês, depois de obter a cidadania francesa. Quando chega à Bahia, em 1971, Radovan já tinha completado 30 anos. Ele e Clyde têm a mesma idade e chegaram à Bahia no mesmo ano. Eles eram, aqui no Brasil daqueles anos, agentes a serviço da contracultura. Completaram 70 anos em 2010. Quando os dois chegaram a Salvador, Vovô tinha apenas 15 anos. Era um menino, mas que já organizava passeios ao Litoral Norte, junto com Apolônio, que era da sua mesma faixa etária, e com Macalé que já tinha mais de 20 anos. Estamos falando de três a quatro anos antes de o Ilê desfilar na avenida.

 

Quando o Ilê vai para a avenida, Radovan, Clyde e Mário já eram homens maduros. Vovô ainda não tinha 20 anos. Alafiju, o nome de santo que Clyde recebe, significa pai. Mário era o “tio” de todos. Dos muitos epítetos identificados para qualificar Mário,5 a imagem mais forte que fica é a de ser uma referência intelectual, especialmente para a juventude baiana dos anos 70, e para a juventude de Ilhéus,6 onde esteve morando nos anos 80. Uma espécie de liderança espiritual contemporânea, um Babalaô de seu tempo.

 

 

Armando e ClaydeArmando Almeida e Clyde Morgan. Foto: Jennifer Carvalho.

 

 

Logo nos primeiros anos, Radovan conheceu Clyde Morgan e passou a frequentar ambientes e a relacionar-se com pessoas ligadas à dança. Quase um ano depois de chegar à Bahia, Radovan faz amizade com Macalé, que conhece dançando em um espetáculo de grupo folclórico baiano (Olodumaré II) que lhe haviam sugerido para melhor conhecer o “folclore” local. “Eu tinha muito contato com Macalé. Um dançarino deste grupo. Minha referência era ele”. Os irmãos dele, Vovô e “toda uma turma aí em volta”, por sua vez, passam a frequentar a sua casa, levados por ele mesmo: Macalé.

 

Bastou um final de semana em Itapoã com seus novos amigos para ele achar muito mais interessante aquela Bahia, do que a sociedade de amigos e colegas médicos que se encastelavam em clubes e em reuniões muito familiares. “Achei que o mais interessante na Bahia era a sociedade negra”. É ele mesmo quem diz que neste aspecto não foi nada original, seguiu os passos de muitos outros estrangeiros, como Pierre Verger, Carybé, e o próprio Clyde Morgan. Encantou-se por este novo mundo. Muito “rico” e “agradável”. Passou a frequentar candomblés. Passou a ir aos “bairros de Salvador”. Conheceu Mãe Hilda, mãe de Vovô e grande liderança do Curuzu, como se sabe.

 

Mas, apesar de demonstrar respeito e admiração por ela, frequentou muito mais a outros candomblés, especialmente aqueles que lhe foram apresentados por Ieda Alves, amiga que trabalhava na Bahiatursa – empresa de turismo do Estado da Bahia, e por Pierre Verger. Deles, o que mais frequentou foi o Axé Opô Afonjá, casa de santo de “Mãe Estela de Oxossi”, uma das mais respeitadas Iyalorixás de Salvador. Onde Clyde é Ogã, ou seja, pessoa de elevada posição na hierarquia da Casa. Bom destacar que, costumeiramente, uma bem articulada e capilar rede de Ogãs ajuda a legitimar e dar sustentação política e prestígio aos terreiros. Eles têm a importante missão de zelar por seu Ilê, sua casa de santo.

 

Estas preferências não deixaram de lhe render críticas. “Isto me criou alguns embaraços”, disse Radovan Borojevic. Eram jovens e negros em sua maioria. A composição daquele grupo incomodava. “Este mal estar que eu sentia na atitude de meus colegas médicos em função de minha convivência com uma sociedade pobre, culturalmente outra e acompanhado por amigos pretos, me incomodava muito. Havia clubes e blocos que excluíam negros. Isto fazia com que a questão racial fosse recorrente em nossas conversas”. Antes de ir para Salvador desfilou na Salgueiro, no Carnaval do Rio de Janeiro, e foi por isto também repreendido pela Marinha, onde no Rio estava sediado o centro de pesquisas onde pesquisava sobre doenças tropicais.

 

Somente depois que chega ao Brasil é que Radovan Borojevic começa a ir à África. Inicialmente ele havia sido designado para desenvolver estudos sobre os recursos naturais marinhos brasileiros junto à Marinha Brasileira, chegando a participar de várias missões oceanográficas ao longo das costas americanas do Sul do Atlântico e da implementação da Estação Marinha de Cabo Frio e do Laboratório de Biologia Experimental no Rio de Janeiro. Só depois disto é que ele vai para Salvador estudar sobre doenças tropicais. Foi isto que o colocou com um pé na África, para onde ele começa a ir com certa assiduidade a partir de 1973, e também a outros ambientes de interesse da medicina tropical, como o Haiti e Martinica. Naquela época havia sido convidado pela Cooperação Francesa a trabalhar em um projeto de estudos de universidades brasileiras em parceria com o Instituto Pasteur, que ainda mantinha filial nas ex-colônias francesas da África. A mais importante delas ficava em Dakar, por este motivo foi a cidade que mais visitou naquele período. Viagens à França e à Suíça também foram importantes para a aquisição de discos com as últimas novidades da música pop africana que começava a chamar a atenção do mercado europeu. Macalé lembra que eles não tinham dinheiro para ter acesso a estas informações. A convivência com a Bahia e com as pesquisas de Verger e outros o fez ver a África com um duplo interesse. Não apenas pelo lado da pesquisa em biomedicina, mas também a pesquisa sobre a cultura africana. Segundo Radovan Borojevic:

 

 

Dakar é um desfile permanente de beleza na rua. Primeiro, porque o tipo físico é muito elegante e fino. São altos. Eles têm este negócio de saber se mostrar. Andam de cabeças erguidas. As mulheres andam com turbantes e brincos enormes, com roupões estampados e com muito ouro. Impressionaram-me muito pela beleza.

 

 

“Foi na época que passei a frequentar Dakar que começamos a trabalhar na ideia do Ilê. Isto aconteceu simultaneamente ao processo de sua criação” 7. Segundo Radovan, foi na casa dele que eles decidiram não criar mais um bloco de índios, mas um bloco de negros africanos. Estavam presentes Vovô, Macalé, Ieda Alves, e outros. Radovan confirma que Apolônio, embora não frequentasse sua casa por não se dar bem com Macalé, segundo ele, teve mesmo papel central na fundação do Ilê, principalmente por sua atuação como cantor e mobilizador cultural no bairro da Liberdade.

 

Na época, os negros se reuniam, não declaradamente, em blocos de índios8. “Nada a ver com a história”, dizia Radovan. “Façam um bloco de negros africanos”. Segundo Borojevic, os afoxés e o renascimento do Gandhi não tiveram grande influência sobre a criação do Ilê: “o Gandhi ainda era muito associado ao sagrado na festa. O candomblé era coisa de adulto e velho. Eles eram todos jovens”. É Vovô quem diz, reforçando esta impressão: “a maioria dos negros saía em blocos de índios. Eu não saía em bloco, saía em grupos de mortalha. Os afoxés saíam de terreiros”. Estas declarações nos fazem pensar que a idealização que se fazia da África como referencial de origem e símbolo da negritude estava muito menos presa às tradições litúrgicas e aos formatos tradicionais.

 

Embora esta acima seja uma boa explicitação da disposição e espírito que moviam aqueles jovens que fizeram o Ilê, não se pode, por outro lado, deixar passar em branco os fortes vínculos do Ilê e dos blocos afro com o candomblé. É sabido que quase sempre eles têm um pé no terreiro. Com eles, também o sagrado e o profano saem para fazer o Carnaval, pode-se mesmo dizer. Em Salvador, especialmente nos bairros onde predominam as populações negro-mestiças, a figura da mãe ou pai de santo ainda se reveste de uma autoridade central, legitimada por uma ampla maioria. A quem os mais jovens desde cedo aprendem a respeitar e ouvir. Milton Moura identifica neste aspecto um ponto em comum entre os blocos afro. Segundo ele:

 

 

O que há de comum a quase todos esses grupos que alcançaram legitimidade nos seus próprios ambientes originários é a forte presença do candomblé como referência identitária, não necessariamente como culto ou vinculação litúrgica (2001, p.215).

 

A imensa maioria dos blocos afro realiza a cerimônia do padê antes de começar a desfilar. Soltando pombas, queimando pólvora e jogando pipocas nas pessoas presentes, pedem licença a Exu para que abra os caminhos para o divino e que aquela ação pelos deuses seja abençoada. Alberto Pita, do Cortejo Afro, Vovô do Ilê e João Jorge, do Olodum, são filhos de mulheres com fortes vínculos com o candomblé.

 

 

MÃE HILDAMãe Hilda Jitolu. Foto: André Frutuôso

 

 

Os dois primeiros são filhos de mãe de santo, respectivamente Mãe Santinha e Mãe Hilda. Não se pode menosprezar a transferência de parte deste poder para os filhos. De certa maneira, reproduzindo uma estrutura muito característica da formação de nossa sociedade. Pelo menos três filhos de Mãe Hilda fazem parte da diretoria do Ilê Aiyê: Antônio (Vovô), Nivaldo e Dete.

 

Mãe Hilda Jitolu foi uma importantíssima líder espiritual, especialmente no bairro da Liberdade e arredores. Foi ela uma das pessoas que aconselhou o Ilê a não colocar o nome de “Poder Negro” no bloco. Em entrevista que nos concedeu, em meados de 2009, a menos de três meses de sua morte, ela disse que temeu que este nome viesse a tornar além da conta a dose de ousadia que representava aquela intervenção política e estética no Carnaval da Bahia. Ela tinha clareza do impacto que causaria. O seu envolvimento com o assunto não a fez deixar de se envaidecer com a grandiosidade do feito, mencionando os desdobramentos de seus impactos na vida social e cultural da comunidade, citando diversas ações sociais promovidas pelo Ilê Aiyê.

 

Perguntada sobre sua participação na criação do Ilê, ela disse:

 

Foi um apoio de mãe para filhos. Foi preciso muita força e muita compreensão para botar um bloco de negros, justamente naquele momento em que nos Estados Unidos os negros estavam revoltados. Eu estava sempre ali, aconselhando, orientando. Eles perguntaram: ‘e aí mãe, o que é que você acha de a gente fazer um bloco afro?’ Eu disse: ‘tudo bem, é a origem…’. Tivemos que ter muito cuidado. Foi muita ousadia, a música também era pesada.

 

Radovan assim se referiu sobre ela: “Mãe Hilda mantinha uma posição de rainha. Ao mesmo tempo era generosa. Dava apoio ao bloco, sempre com uma dignidade soberana”. Macalé, sobre ela fez o seguinte comentário: “se não fosse Mãe Hilda, não sei se haveria Ilê. Ela dava todas as diretrizes. Estava sempre presente nos momentos mais delicados”.

 

Na virada dos setenta, as escolas de samba do Rio ainda eram o modelo preferido dos afrodescendentes baianos que, por falta de condições financeiras, primeiro começavam a se organizar a partir de uma batucada, sem alas. Naquela época, eles gradativamente começam a criar blocos que transformam o formato carioca de fazer o Carnaval da Bahia, mas que ainda não explicitavam a negritude. Os blocos permitem maior disponibilidade para a participação, são mais acessíveis financeiramente e mais descontraídos. Bastava vestir a velha “mortalha”, que logo passou a se chamar abadá. Geralmente, o território de origem destes blocos está muito circunscrito a um bairro. Nascem a partir das relações mais próximas de uma comunidade. Era uma maneira que ela tinha de se unir para fazer a festa juntos e para invadir a cidade, com mais força. A rua era local de harmonia, mas também de rivalidades. Geralmente estes blocos começavam pequenos, como o Ilê. O primeiro bloco de índio nasce de uma Escola de Samba. O Bloco Carnavalesco Caciques do Garcia, que começa a sair em 1966, inspirado no Cacique de Ramos do Rio de Janeiro, só se oficializa em 1969 (GODI, 1991, p.53). Em outubro de 1968, nasce, também a partir de uma Escola de Samba, o Bloco Carnavalesco Apaches do Tororó. O Apaches nasce grande (com mais de 500 pessoas), fundado por jovens, torna-se a maior referência em bloco de índios da cidade, passa a atrair afrodescendentes de toda a cidade e chega a ter mais de cinco mil membros. Sua passagem passou a marcar o Carnaval da cidade. Apolônio, que depois criaria o Ilê, saía no Apaches. Não só ele, a grande maioria das lideranças tiveram ali uma referência fundamental e com ele manteve alguma relação de proximidade. Muitos saíam ou saíram no Apaches: França, dos Negões, João Jorge, do Olodum.

 

A identificação dos negros com os índios americanos indica forte influência da mídia e da indústria cultural, eles faziam parte do universo de informações que chegavam através das histórias em quadrinho, ou pela televisão, pelo cinema e livrinhos de bolso vendidos em bancas de revista. Certamente isto também é um indicativo da proximidade com a causa do oprimido e do marginal com a cultura e a economia dominantes, como conclui Antonio Risério em seu Carnaval Ijexá (1981). Índios e negros são os não brancos. Os dois foram escravizados. Não há nenhuma novidade nesta identificação. Os negros americanos de New Orleans se vestem de índios há décadas, especialmente no Carnaval. Na Bahia, os índios geralmente são representados por afrodescendentes nas congadas, nos candomblés de caboclo, no festejo do Dois de Julho etc. Godi chama a atenção de que em 1968, dos sete afoxés que desfilavam, três eram ligados a candomblés de caboclo (1991, p. 59). E que um negro sem disfarce, mesmo, começa ainda no Apaches do Tororó, ainda que timidamente. Em 1973 o Apaches homenageou Mãe Menininha do Gantois. Em 1974 versos e refrões em iorubá já começam a aparecer nas canções do bloco (1991, p.68). Mas não só o Apaches foi referência para o Ilê. Macalé, entrevistado sobre o assunto, foi enfático e convincente: “Fizemos o Ilê baseados nos blocos negros que já existiam”: “Deixa a vida de Quelé”, “Vai levando” e “Filhos do Morro”. Nomes por ele citados. E, porque já estavam extintos na época, complementou: “entramos nesta lacuna”. Vale lembrar que também tradicionais escolas de samba como Diplomatas de Amaralina e Mercadores de Bagdá estavam desfilando pela última vez naqueles anos.

 

Mais ou menos um ano depois de vir viver em Salvador, Radovan se mudou para um apartamento de três quartos, localizado no Corredor da Vitória, uma das áreas mais nobres da cidade, sobretudo naquela época, com vista privilegiada para a Baía de Todos os Santos, ainda que para um prédio de padrão classe média: o edifício Apolo XXVIII. Ali ele passou a promover festas para 50 a 100 pessoas toda sexta-feira.

 

 

Era um movimento que se transformou numa exposição de beleza negra, como hoje se faz no Ilê. As moças passaram a usar roupas e turbantes que eu trazia ou segundo fotografias que eu também trazia de Dakar. Eles estavam vendo roupas africanas que não eram de baianas. Isto gerou encontros de música e de moda. Estas referências estéticas permitiram criar o conceito do que é o Ilê.

 

 

Daquelas viagens, Radovan Borojevic trazia roupas, turbantes, fotografias, revistas e livros, novidades para eles. Foi deste modo que ajudou a inventar as roupas dos primeiros carnavais. Quando em 1978 ele começa a ir embora de Salvador e a se desligar das atividades do Ilê, o Ilê já detinha um grande respeito e visibilidade. Radovan também trazia livros para ilustrar os temas dos primeiros carnavais, reunia bibliografias e organizava material de pesquisa. Afinal, ele é um pesquisador. Assim ele fez, selecionando nomes para o Ilê e para o Zanzibar, bar que surgiria na segunda metade da década de 70 no bairro do Garcia, parte central de Salvador, por iniciativa da mesma turma fundadora do Ilê, inclusive Vovô.

 

Aquela foi uma iniciativa que contou com a presença mais marcante da família de Macalé. Os seus irmãos, Ana Célia, Neide e Bené definiam o “astral” do lugar, e o seu jeito de ser e se mostrar. Não foi apenas um lugar da cena Black, foi também lugar frequentado por várias outras tribos urbanas, inclusive gays. Vovô conta que na época chegavam a dizer que ele era dono de um bar afrogay. Mesmo com o retorno para o Rio, os laços de Radovan com esta família não se perde. Nesta época, ele ajuda Neide (Lady Neide) a montar por lá um Zanzibar.

 

No seu estilo, Radovan interagia com muita proximidade, promovia festas, passeios de carro (“uma Brasília facilitava o deslocamento de todos”) etc. Borojevic era “uma pessoa da festa”, como ele diz. Com Macalé, Vovô e outros, formavam um grupo de “produção de fim de semana” e com eles combinava muitas atividades. Iam juntos à praia e a inúmeros eventos. “A primeira motivação para criar o Ilê foi carnavalesca, depois é que veio o desejo de protestar no Carnaval contra o racismo” (disse Vovô).

 

Aquela juventude “não tinha a menor noção do que era a África”. Borojevic identifica esta lacuna, e a avalia como um defeito grave na educação desta geração. A ideia que tinham da África era formada pelos estereótipos que o cinema americano reproduzia: terra de diamantes e tigres.

 

 

Como eu tinha livros com imagens de Dakar, mostrava para eles. Mostrava uma cultura muito rica. Trazia discos, roupas senegalesas, turbantes. Discos, não de folclore, mas discos de baile. Música african-pop. Que era uma novidade. Eu trazia discos também da Europa, discos de Fela Kuti e de outros.

 

 

De um destes discos Clyde chega a retirar o tema para uma coreografia de um de seus espetáculos de dança contemporânea. Radovan cita também discos de Touré Kunda, Manu Dibango, M’Bamina e Bonga (que surge mais tarde, e que não foi grande sucesso). A maioria destes astros do pop africano ele tomou conhecimento nas passagens por Dakar, “nos inferninhos da zona portuária”. Na bagagem de Radovan Borojevic também vinham discos do Haiti e de Martinica. Ele fala que lá no Haiti tinha trio-elétrico, como na Bahia. E que ninguém por aqui sabia disto. Com amigos martiniquenses e na boate L’Escale, em Paris, descobriu alguns afro-cubanos: desde os tradicionais Mongo Santamaria e Tito Puente até Gato Barbieri “que despontava com muita influência brasileira, e mais particularmente baiana”. Nas suas festas, às sextas-feiras, tocava-se também muita música dos baianos, especialmente aqueles que tocavam algo mais “no estilo dos trios elétricos”. Estas festas e sua dimensão mobilizadora também foram comentadas por Macalé na entrevista que nos concedeu.

 

 

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Foto: André Frutuôso

 

Cada um destes atores do processo exercia sua ascendência sobre aqueles jovens de maneira bem diversa. Radovan atuava trazendo a África mais para perto, de uma maneira bem específica, apresentando a eles uma nova estética para as roupas – no corte, no tecido e na estampa – no gosto musical, nos penteados, adereços, utensílios, na valorização dessas origens africanas, enfim, e na promoção de um maior conhecimento da cultura de seus antepassados. Um papel de mensageiro entre dois mundos que, de outra maneira e para outro universo, também cumpria Pierre Verger, e que Clyde Morgan também estava começando a cumprir. Eles são Exus. Clyde, a propósito, se diz “um feiticeiro que gosta de colocar a juventude na roda, ensinando e disciplinando”. Exu é precisamente aquela entidade que no candomblé é reverenciado antes de qualquer cerimônia religiosa, porque somente ele está autorizado a fazer o intercâmbio entre o Aiyê e o Orun (ELBEIN, 1976, p.37), somente ele tem o Axé para transitar entre o mundo dos mortais e dos imortais. Ele é, portanto, o mensageiro, o que leva e traz a informação, como o deus Hermes para os gregos, Mercúrio para os romanos. É isto o que tem sido estas pessoas para a Bahia. Elas são de outro mundo. Elas eram estrangeiras, antes do Axé.

 

 

 

 

 


 

NOTAS

 

* Doutor em Cultura e Sociedade, com tese defendida em maio de 2010: A contracultura e a política que o Ilê Aiyê inaugura: relações de poder na contemporaneidade – Programa Multidisciplinar de Pós-Graduação em Cultura e Sociedade da Faculdade de Comunicação da Universidade Federal da Bahia.

1Apolônio Souza de Jesus Filho (Popó) foi o primeiro presidente do Ilê. Faleceu muito jovem, em 1992, aos quarenta anos de idade. Nascido e criado na Liberdade, foi parceiro de Vovô em muitas outras inciativas, idealizou movimentos de dança e música afro-brasileiros em bairros da periferia de Salvador. Era filho de estivador, militante sindicalista comprometido com o jornal “O Momento”, categoria social das mais organizadas e comprometidas politicamente na cidade da Bahia por muitas décadas.

2 Macalé dos Santos, 60 anos, ator, dançarino, capoeirista e produtor cultural. Atuou no cinema em Zumbi, Chico Rei, A Dama do Cine Xangai, e recentemente no filme Besouro (2009), interpretando o Mestre Alípio, aquele que passa os fundamentos para o protagonista.

3 Nigeriano, classe média, filho de uma ativista feminista e de um pai professor, militantes da luta anti-colonialista. Estuda música em Londres, onde viveu de 1958 a 1963, e onde cria uma banda que executa, segundo ele, um som Afrobeat. Volta para a Nigéria em meados dos anos 60. Em 69 grava seu primeiro disco e vai aos Estados Unidos, onde se impregna pelo movimento Black Power.

4 Referência à canção Blowin’ In The Wind, de Bob Dylan, um hino da época. “The answer, my friend, is blowin’ in the wind, the answer is blowin’ in the Wind”.

5 Eis uma pequena coleção dos mais significativos: oráculo, referencial, pilar, arquétipo, exemplo de luta, pai ancestral, consciência negra, mago, mito, símbolo, entidade, resistência, luz, inteligência, sabedoria…

6 Encaminhado por Jorge Amado, no início dos anos 80, Mário passou a ensinar inglês, teatro, e a se envolver com o candomblé e blocos carnavalescos locais. Formou uma geração de atores e levantou a auto-estima da negrada. Trabalhou como produtor, diretor, ator e fez “trabalho de cidadania”, como disse o ator Jackson Costa no filme O Anjo Negro da Bahia, de Élson Rosário (2005).

7 A vida de Radovan é rica em desencadear processos. Fundou em 1980 o Banco de Células do Rio de Janeiro. Ponto de partida do Serviço para o transplante de medula óssea na UFRJ. É fundador e diretor do Programa Avançado de Biologia Celular Aplicada à Medicina da mesma universidade.

8 Uma matéria de 1/8 de página da edição do jornal A Tarde de 5 de fevereiro de 1975, na quarta-feira que antecede o Carnaval daquele ano, antes portanto do famigerado editorial que os acusava de racistas e que reprovava sua estreia na avenida, tinha dificuldade de enquadrar o Ilê. Fala que ele concorreria na categoria acompanhada pelo Departamento de Folclore e Certames da Municipalidade. Anunciava o Ilê como uma nova “agremiação”, que sairia com “músicas estilizadas, baseadas na cultura afro-brasileira”. O nome “bloco afro” aparece depois.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

Jeferson Afonso Bacelar. Mário Gusmão: um príncipe negro na terra dos dragões da maldade. Rio de Janeiro: Pallas, 2006.301p.

 

Antonio Godi. “De índio a negro, e o reverso”. Caderno CRH: Cantos e toques: etnografias do espaço negro na Bahia, Salvador, Centro de Recursos Humanos da UFBA, Suplemento p.71-71, 1991.

 

Milton Araújo Moura. Carnaval e baianidade: arestas e curvas na coreografia de identidades do Carnaval de Salvador. 2001. Tese (Doutorado) – Universidade Federal da Bahia, Salvador, 2001.

 

Antonio Risério. Carnaval ijexá. Salvador: Currupio, 1981. 156p.

 

Juana Elbein dos Santos. Os nagôs e a morte: pàdè, àsèsè e o culto égun na Bahia. Petrópolis: Vozes, 1977. 244p.

 

FILMES E DOCUMENTÁRIOS

 

MÁRIO Gusmão, O Anjo Negro da Bahia. Direção: Élson Rosário. Co-produção: Élson Rosário e Celeiro Cultural. Intérpetes: Carlos Petrovich; Nilda Spencer; Oscar Santana, Orlando Senna; Deolindo Checcucci; Carmen Paternostro; Vovô do Ilê; Jefferson Bacelar; Jackson Costa; Carlinhos Brown; Carlos Betão e outros. Salvador: TVE Bahia, Brasil/ Fundação Padre Anchieta /TV Cultura. 2005, (52 min.), Documentário, 1DVD, color.