REVISTA ELETRÔNICA DA BIBLIOTECA VIRTUAL CONSUELO PONDÉ – N.3 MAR DE 2016. ISSN 2525-295X

DOCUMENTO

 

 

Alabama3

 

Entre a quase centena de jornais publicados em Salvador na segunda metade do século dezenove – muitos dos quais de vida efêmera e intenções políticas ou confessionais declaradas – está O Alabama, que, no subtítulo afirmava ser um “Periódico crítico e chistoso, bi-semanal”. Durou bem mais que a maioria de seus congêneres – de 1863 a 1890. Datado da “Cidade de Latronópolis” e feito a bordo de um mítico navio que dava nome ao jornal – O Alabama – navio que “navegava em terra” e tinha, no seu comando, um severo censor dos costumes, defensor dos desvalidos, abolicionista e republicano. Tudo isso evidenciava o diretor/comandante nos seus editoriais, comentários e sueltos – de par com a sátira, por vezes contundente, que não poupava as pessoas nem grupos ou a classe social em que o jornal se inseria e cuja ideologia, em princípio, defendia. No primeiro número, publicado em 21 de dezembro de 1863, numa espécie de manifesto, O Alabama declarava enfaticamente “… que não é ladrão; é inimigo acérrimo dos ladrões! Cosmopolita, não tem portanto contemplação com nacionalidade nem com partidos políticos ou de qualquer natureza; onde houver ladrões, aí achar-se-á”. E conclui o anônimo editorialista: “Não há a escolher na cidade de Latronópolis. Preparem-se, pois, que O Alabama anda em viagem por terra. Infeliz de quem ele se abalroar”. O jornal trazia, sobre o título, uma vinheta mostrando um navio a vapor. E é possível que o seu nome tenha sido sugerido pelo de um navio americano que, àquela época da guerra da Secessão, visitava o Brasil comprando gêneros e matérias-primas como algodão, cuja cultura fora quase toda sacrificada no sul dos Estados Unidos.

 

O jornal cumpre bravamente o seu programa. Como bem observou Vicente D. Moreira na introdução a uma seleção de textos do Alabama publicada no Boletim Bibliográfico da Fundação do Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia em 1980, O Alabama… “intrometia-se geralmente com base em cartas e recados de terceiros na vida pessoal de ricos e pobres, denunciando caloteiros, frades libidinosos, abusos de autoridade. Indignava-se com o espancamento de escravos, condenava o candomblé, o jogo, a derrubada de árvores do Terreiro de Jesus. Mantinha estreito relacionamento com a comunidade; recebia para publicação queixas e ameaças contra terceiros, anônimas ou assinadas por nítidos pseudônimos, tendo como ponto comum a ironia elegante e inteligente”.

 

Vivaldo da Costa Lima

Publicado em Revista da Bahia, n° 15 (1989/90), pp. 17-18

 

 

 

 

Fruto da parceria entre o Instituto Geográfico e Histórico da Bahia e a Fundação Pedro Calmon, a Biblioteca Virtual Consuelo Pondé disponibiliza no seu acervo o jornal O Alabama: Periódico Crítico e Chistoso.*

 

Embora incompleta, toda a coleção do IGHB foi digitalizada em JPG, tratada e dotada de um sistema de busca nominal (por palavra) pelo professor e pesquisador Urano Andrade. Alguns poucos números já se encontravam disponíveis na Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional. Mas, pela primeira vez, a maior coleção deste jornal de que se tem conhecimento está inteiramente disponível online ao leitor.

 

* Segundo o jornalista Nelson Cadena – jornal Correio da Bahia 26/02-2016 versão online-, existiu mais de um jornal com o nome Alabama; o primeiro circulou entre 1863 a 1883, o segundo em 1887 e outro em 1890.