REVISTA ELETRÔNICA DA BIBLIOTECA VIRTUAL CONSUELO PONDÉ – N.4 AGO DE 2016. ISSN 2525-295X

DOCUMENTO

 

 

UM ACERVO PARA SE DANÇAR: A ARTE DE LIA ROBATTO

 

Suki Villas-Bôas Guimarães

 

CAMINHO CAPA

 

Chegamos ao final da primeira etapa do projeto de catalogação e digitalização do acervo da artista Lia Robatto, viabilizado através do Edital Restauração e Digitalização de Acervos Arquivísticos Privados – 2014, da Fundação Pedro Calmon.1

 

O Fundo Lia Robatto constitui-se como o primeiro acervo digital em Dança produzido na Bahia. Inspirado na ideia de Arquivo Genético, o Acervo de Dança Lia Robatto2 tem a proposta de não somente guardar as obras finalizadas da artista e seu material representativo, mas também vestígios dos seus processos criativos, como fez a Universidade de Keyô, em Tóquio, desde os anos 2000, com os acervos do criador do Butô Tatsumi Hijikata e do escultor Iasamu Noguchi. O acervo é de natureza dinâmica, devendo ser alimentado continuamente com novas informações, uma vez que a artista continua produzindo. Propõe-se também a ser fonte para pesquisas, documentários e entrevistas, além de contribuir com diferentes parceiros em projetos artísticos, educativos e de outras naturezas.

 

O Acervo de Dança Lia Robatto, enquanto conjunto de documentos físicos e digitais reunidos, tratados, organizados, digitalizados e disponibilizados, além de retratar a trajetória pessoal da artista, pode ser concebido como fonte de informação e pesquisa sobre a memória da dança no Brasil, sendo um recorte singular e significativo da contribuição da Bahia neste contexto. Pode ser também (e pretendemos que seja) ignição para novas criações artísticas, estudos e pesquisas em Dança, (re)criações e diferentes possibilidades de conexões com o momento político, econômico, social, cultural e artístico, vivenciado na época da criação e apresentação das obras, e das diferentes atuações da artista.

 

O acervo está em processo de encaminhamento para cessão de guarda de seus documentos físicos pelo Centro de Memória da Bahia da Fundação Pedro Calmon, vinculada à Secretaria da Cultura do Estado da Bahia. Será disponibilizado em plataforma digital de livre acesso, pelo ICA-AtoM, que também poderá ser acessado offline, em servidores instalados no próprio Centro de Memória e no Memorial do Centro de Formação em Artes da Fundação Cultural do Estado da Bahia, entre outros locais que demonstrarem interesse e condições necessárias.

33 Suki RETRATO LIA

Lia Robatto

 

 

O acervo traz vestígios documentais da trajetória da artista, que inclui notações coreográficas de suas obras, textos inspiradores, pesquisas, esboços das partituras musicais, trilhas, figurinos, cenários e fotos de seus espetáculos, filmes, entrevistas, manuscritos, correspondências, entre outros documentos, retratando as atividades desempenhadas ao longo de sua carreira profissional como dançarina, coreógrafa, atriz, professora e pesquisadora em dança.

Anotações coreográficas 1 (OK) Anotações coreográficas 2 Anotações coreográficas 3

 

 

Projeções, movimentos…

 

Esperamos que o Acervo de Dança Lia Robatto venha colaborar na formação de fluxos que contraponham e questionem a quase totalidade da literatura brasileira sobre a arte no século XX, que excluiu a dança cênica dessa trajetória, assim como a lacuna da Dança no âmbito da história cultural brasileira/baiana, situação que se apresenta, ainda hoje, como desafio para pesquisadores e para a produção do conhecimento em Dança.

 

Nessa mesma perspectiva, agora em relação à produção sobre a história da dança, pretendemos colaborar para que o acesso à informação sobre a arte da dança experimental e da produção independente desse segmento ganhe robustez e venha contrapor-se à produção sobre dança clássica, mais abundante e quase totalmente preponderante até os anos 2000.

 

Os programas de fomento voltados para a memória da Dança em suas diferentes configurações artísticas são quase inexistentes. Mas iniciativas diversas vão, aos poucos, sendo realizadas. Porém, num contexto ainda de acentuada desproporcionalidade em relação à frequência e ao número de programas de fomentos públicos ou privados voltados para a produção e/ou circulação de espetáculos. Esses também são insuficientes frente à demanda existente, mas são mais estabelecidos e carregam discussões e encaminhamentos que os situam num ambiente de diversidade artístico-criativa e de ampla conexão com a experiência do fazer Dança. É nesse ambiente de inúmeros desafios e antagonismos que foi organizado – e ainda está sendo, já que é um acervo em constante alimentação – o Acervo de Dança Lia Robatto.

 

35 Suki MBoiuna 111

 

Na Bahia (e no Brasil), embora prevaleçam os desafios quanto à produção da memória da Dança, aos poucos iniciativas vão se concretizando. Uma das primeiras na Bahia são os livros, da própria artista Lia Robatto: Dança em Processo, a linguagem do indizível, de 1994, e Passos da Dança (com Lúcia Mascarenhas), de 2002. Nos anos 2000, em Salvador, já é realidade a organização do Memorial da Escola de Dança da UFBA, a partir de 2006, e o projeto Memória da Dança, do Programa Pró-Dança da FUNCEB, em 2007, entre outras iniciativas independentes e acadêmicas, reforçadas pelas significativas contribuições dos programas de Pós Graduação, a exemplo do PPG/Dança/UFBA e do PPGAC/UFBA, que resultaram em publicação de livros, sites, filmes e outras produções que, reunidas às ações criativas já em curso, aos poucos vão transformando o cenário lacunar.

 

Esses esforços apontam para a construção de um lugar de potência que se nutre da memória local da dança, no sentido trazido por Pierre Nora (1993)3: um lugar, a partir de um desejo de memória, que expresse o anseio de retorno a ritos que definem os grupos, a vontade de busca do grupo que se auto reconhece e se auto diferencia, o movimento de resgate de sinais de appartenance grupal, existentes na vivência simbólica daqueles que fazem a Dança na Bahia (e no Brasil) e da população local. Para garantia desses lugares de memória, entretanto, torna-se urgente uma transposição dos acervos pessoais, nem sempre preservados devidamente e mantidos como um bem de enorme importância simbólica, para acervos com acesso público e gratuito e com guarda responsável. Para tal, torna-se urgente a criação de Programas nas Políticas Públicas que, compreendendo as especificidades da Dança e de sua memória, atuem no fomento a esse eixo de produção.

36 Suki SERTANIA CHIFRES

 

 

38 Suki DEBUSSY Yanka Lia menor

É realidade, entretanto, a impossibilidade de arquivar um fenômeno em sua totalidade. Sabe-se que os procedimentos adotados e a configuração alcançada são resultados da fugacidade de um processo. Nesses termos, o Arquivo de Dança Lia Robatto não se completa senão pelo ato dos seus acessos e utilização – capaz de torná-lo significativo, revelando suas mais diversas possibilidades interpretativas –, o que terminará por reconfigurá-lo segundo o olhar de seus usuários. Nesta relação dinâmica, poderão ser descortinados novos sentidos, escapando, assim, à vontade autoral daqueles que o produziram. Tal vontade não pode ser invocada como o lugar de produção da “verdade”, mas como lugar de partida para um debate e, de fato, produções de novos processos e produtos que, esperamos, aconteçam na continuidade dessa etapa aqui concluída. Assim, está aberto o espaço para artistas, pesquisadores, professores, estudantes e interessados em geral atuarem acessando o acervo Lia Robatto, como espaço de liberdade e criação e novas proposições para a dança no Brasil.

 

Suki Villas-Bôas Guimarães é curadora do Acervo de Dança Lia Robatto e idealizadora do projeto LabMemeDança. É doutora em Artes Cênicas pelo PPGAC/UFBA, artista da Dança, professora e produtora.

 

 

GALERIA. (Clique na imagem para ampliá-la)

 

Capa AO PÉ DO CABOCLO

Programa AO PÉ DO CABOCLO

Escola de Iniciação artística

 

Programa SERTANIA

salomé105
BOLERO CAMINHO Programa SERTANIA BTCA (OK)

Noiva SERTANIA

História do Boi Misterioso

 

36 Suki SERTANIA CHIFRES

sertania CAV-3 (OK)

 

 

LEGENDAS DAS IMAGENS

 

(Visualizar de cima para baixo, da esquerda para direita)

 

Obs.: Todas as imagens pertencem ao Acervo de Dança Lia Robatto

 

  1. Espetáculo Caminho: Foto de Ana Helena Mariane
  2. Retrato de Lia Robatto: Foto de Sílvio Robatto
  3. Anotações coreográficas de Lia Robatto
  4. Espetáculo M’Boiúna: Foto de Sílvio Robatto
  5. Espetáculo Sertania: Foto de Sílvio Robatto
  6. Lia em Lirismo (poema de Domingos Carvalho da Silva); coreografia Yanka Rudzka: Foto de Sílvio Robatto

 

 

GALERIA:

 

  1. Programa (capa) Espetáculo AO PÉ DO CABOCLO
  2. Programa Espetáculo AO PÉ DO CABOCLO
  3. Programa Escola de Iniciação artística
  4. Programa Espetáculo SERTANIA
  5. Espetáculo Salomé: Foto de Sílvio Robatto
  6. Programa Espetáculo BOLERO
  7. Programa Espetáculo CAMINHO
  8. Programa Espetáculo SERTANIA
  9. Programa Espetáculo SERTANIA
  10. Espetáculo Sertania: Foto de Sílvio Robatto
  11. História do Boi Misterioso – Excertos do cordel de Leandro Gomes de Barros – Espetáculo Sertania
  12. Espetáculo Sertania: Foto de Sílvio Robatto

 

 


 

NOTAS

 

1 O projeto Acervo de Dança Lia Robatto foi viabilizado através do Edital Restauração e Digitalização de Acervos Arquivísticos Privados – 2014, do Governo Estadual da Bahia, através da Secretaria de Cultura/Fundação Pedro Calmon. Contou com o apoio institucional da Escola de Dança/Centro de Formação em Artes/FUNCEB, e apoio incondicional de Beth Rangel, Virgininha Costa e Marle Macedo. Agradecimentos a Tereza Oliveira, amigos e colegas da Dança, família Lia-Silvio Robatto, Kátia Melchiori, professor Sergio Franklin Ribeiro da Silva e funcionários da Escola de Dança/ CFA/FUNCEB. O acervo tem previsão de ser disponibilizado ao público a partir de julho de 2016.

2 O Acervo foi desenvolvido por uma equipe multidisciplinar: Consultoria Técnica de Arquivo: Aurora Freixo; Execução Arquivística: Ivana Severino; Curadoria e Contextualização histórica e artística: Suki VB Guimarães; Consultoria de Memória: Lia Robatto; Produção Executiva: Cândida Xavier; Estagiário: Felipe Nogueira.

3 Pierre Nora. “Entre Memória e História: a problemática dos lugares”, In: Projeto História. São Paulo: PUC, n. 10, pp. 07-28, dezembro de 1993.

 

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

BRASIL. Conselho Nacional de Arquivos. Recomendações para digitalização de documentos arquivísticos permanentes. 2010. Disponível em <http://www.conarq.arquivonacional.gov.br/media/publicacoes/recomenda/recomendaes_para_digitalizao.pdf> Acesso em 20/04/2015.

Manuelina Maria Duarte Cândido. Ondas do Pensamento Museológico Brasileiro. São Paulo, 2000. Monografia (Especialização em Museologia) – Museu de Arqueologia e Etnologia, Universidade de São Paulo, 2000.

Conselho Internacional de Arquivos. ICA-AtoM: Manual do usuário. 2011. Disponível em <https://www.ica-atom.org/doc/User_manual/pt>. Acesso em 18/02/2015.

Fundação Getúlio Vargas. O que são arquivos pessoais. Disponível em http://cpdoc.fgv.br/acero/arquivospessoais>. Acesso em 25/02/2015

Christine Greiner. 2002. “O registro da dança como o pensamento que dança”. Revista D’Art, v. 4: 38-43.

Jacques Le Goff. História e Memória. 4ª edição. Campinas: Unicamp, 1996.

Pierre Nora. “Entre história e memória: a problemática dos lugares”. Revista Projeto História. São Paulo, v. 10, p. 7-28, 1993.

Cecília Almeida Salles. Gesto Inacabado. 5ª edição. São Paulo: Intermeios, 2011.

Marcio Seligmann Silva. Sobre o anarquivamento – um encadeamento a partir de Walter Benjamin. Disponível em: 1http://www.poiesis.uff.br/p24/pdf/p24-dossie-3-.pdf. Acesso em 12.12.2015.