REVISTA ELETRÔNICA DA BIBLIOTECA VIRTUAL CONSUELO PONDÉ – N.5 FEV DE 2017. ISSN 2525-295X

ENTREVISTA

 

ANTÔNIO OLAVO

 

 

A Revista Bahia com História entrevista o cineasta Antônio Olavo, diretor dos documentários A História de Canudos, Quilombos da Bahia, A cor do Trabalho, entre outros. Em breve, ainda este ano, lançará a sua mais nova obra sobre a Revolta dos Búzios.

 

 

 

Como começou seu interesse pelo cinema?

 

Desde menino assistia a filmes no Cine Auditorium, em Jequié, mas nada de predestinação em me tornar um cineasta. Em 1974 vim para Salvador estudar para o vestibular e no ano seguinte, calouro na UFBA, cursando Geologia, fiz um Curso Livre de Cinema, promovido por Guido Araújo, a quem devo o primeiro incentivo. A partir daí, indicado por Guido, trabalhei como 2º Assistente de Direção em Dona Flor e Seus Dois Maridos. Logo a seguir fui chamado para trabalhar em Os Pastores da Noite, dirigido por Marcel Camus, também como 2º Assistente de Direção. Depois dessa maravilhosa experiência com o “grande cinema”, trabalhei em uns curtas em Super-8 e 35 mm, mas nunca dirigindo. Posteriormente, trabalhei muitos anos como fotógrafo de imagem parada, e somente em 1993 dirigi meu primeiro filme, um documentário longa metragem chamado Paixão e Guerra no Sertão de Canudos. Já então, estava totalmente dedicado à imagem em movimento.

 

EQUIPEEquipe de filmagem

 

 

Quais as suas principais influências na época de juventude?

 

Na Universidade, na segunda metade dos anos 1970, fui secretário de Cultura do Diretório Acadêmico de Geologia Dina Monteiro e coordenei o Circuito Universitário de Cinema – CUC, que era ligado ao Centro Universitário de Cultura e Arte – CUCA, por sua vez ligado ao DCE-UFBA. Foi um período de muita efervescência com os estudantes em luta contra a Ditadura Militar. Essa experiência foi fundamental na minha formação, porque toda semana a gente circulava pelas escolas exibindo clássicos do cinema, do Brasil e do mundo. Era tudo organizado, segundo nossas frágeis forças, e tinha cartaz (feito à mão), boletim (rodado em mimeógrafo a óleo ou a álcool) e após as exibições tinha longos e ricos debates. Os filmes eram exibidos em projetor de 16 mm, que carregávamos nas costas, de uma escola a outra. Toda essa vivência me encantava e possibilitou conhecer a obra de grandes cineastas como Nelson Pereira dos Santos, Fellini, Glauber Rocha, Pasolini, Rossellini, Ruy Guerra, Bergman, Peter Davis, entre muitos outros.

 

 

Sua produção cinematográfica está voltada para o campo do documentário, uma área em expansão no cinema brasileiro. Como surgiu seu interesse por este campo da sétima arte?

 

Meu interesse é contar histórias que buscam contribuir para a valorização da Memória Social, particularmente da Memória Negra. Trabalho com cinema para isso, contar histórias do povo negro. E, além de ser algo que me deixa feliz, faço isso por entender que apesar do povo negro ser majoritário na Bahia e no Brasil, não há uma representação digna e positivada de sua história na Televisão, no Cinema e nos meios de comunicação em geral. Então sinto falta disso, na minha infância e adolescência me fez falta não ter conhecido essas histórias. Isso foi muito ruim para mim e creio que também para milhões e milhões de jovens negros e negras, que cresceram imersos em um ambiente onde a representação negra sempre foi associada ao estigma da inferioridade e da submissão.

 

 

Cartaz A cor do trabalho

 

 

A história do povo negro no Brasil foi contada associada à dor, à incapacidade, ao sofrimento, à humilhação e à escravidão. No entanto, houve histórias grandiosas, dignas e emocionantes, e merecedoras de registros e relatos também dignos. Então, busco contribuir com a mudança desses paradigmas históricos, contando histórias do povo negro na perspectiva de superação, de valoração, de afirmação de uma identidade e uma força. Histórias dignas e belas, capazes de preencher nossa estima e confiança, afirmando que também somos belos, inteligentes e capazes. Nos meus trabalhos busco afirmar isso. É uma contribuição pequena, mas que me realiza, porque sei que tem consequências e desdobramentos. Quase que diariamente recebo testemunhos de pessoas, principalmente jovens, falando dos filmes que dirigi e o significado deles para suas vidas e seu trabalho. O melhor de tudo é que sinto que elas se apropriaram desses filmes como se fossem seus e isso me deixa muito feliz.

 

 

Além de roteirista, diretor e produtor, seus filmes têm como marca uma densa pesquisa, especialmente para temas históricos ligados às experiências da população afro-descendente. Como se dá esse processo de pesquisa na construção de suas obras?

 

O meu mergulho nos temas que trabalho é absoluto e pleno, não concebo de outro jeito. Tento ter o máximo de pertencimento. A pesquisa me permite estar mais próximo de uma representação documental nos filmes. Sei que é a minha visão, uma leitura pessoal, mas é embasada em farta documentação escrita e/ou oral. Sinto que esse embasamento histórico nos documentários lhes assegura uma credibilidade e a perenidade desejada, não são efêmeros. Eles sempre estarão circulando, na imensa e autônoma rede de exibições existentes nas escolas, bairros, terreiros de candomblé, igrejas, centros culturais, entre outros.

 

 

A saga de Canudos, as vivências nas comunidades quilombolas baianas, a trajetória de vida e luta de Abdias do Nascimento e a história do trabalho negro na Bahia são algumas de suas obras. Como você vê o papel do cinema para o fortalecimento da consciência racial e histórica?

 

Cada vez mais o audiovisual ganha protagonismo na formação cultural e política das pessoas, particularmente dessa nova geração, fascinada pelas imagens e pela linguagem sonora. Em uma época em que a pressa e a instantaneidade se fazem tão dominantes, o bom cinema pede contemplação, da qual nosso tempo está necessitado. Este é um processo em disputa e eu me coloco ao lado dos que acreditam na força de uma reflexão transformadora e revolucionária, e o cinema tem muito a contribuir para isso.

 

 

 

Cartaz Canudos

 

 

 

Em sua opinião, quais os principais dilemas enfrentados, caso existam, para um/a cineasta negro/a?

 

Negros e negras na sociedade brasileira enfrentam dificuldades de acesso em todas as áreas que permitem melhores condições de trabalho e de vida, seja na política, na academia, na vida empresarial, na ciência, e também na cultura, na arte. Vivemos em uma sociedade racista, preconceituosa, inclusive na Bahia, um estado com 74% de população negra, haja vista a sub-representação negra nessas áreas citadas anteriormente. Eu nunca fui discriminado por ser um cineasta negro, mas já fui discriminado por ser um homem negro, e creio que muitas vezes projetos meus, que tratam de valorização da memória negra, já foram invisibilizados durante processos seletivos, e isso é discriminação. Então acho que o modelo de sociedade brasileira, hegemonicamente branca, em geral, produz restrições a pessoas negras, independente da área de atuação. No cinema não podia ser diferente. Existem pouquíssimos diretores e produtores negros e menos ainda diretoras e produtoras negras no Brasil. Mas percebo, com grande alegria, que tem surgido uma nova geração de jovens negros e negras produzindo audiovisual e lutando pra modificar este quadro. Já vivemos tempos piores.

 

 

 

Cartaz Quilombos

 

 

 

Seu trabalho atualmente está voltado para a conclusão do projeto Revolta dos Búzios, sobre o movimento emancipacionista que emergiu na Bahia no fim do século XVIII. Você poderia falar um pouco sobre isso? Tem previsão de lançamento?

 

Tenho me dedicado à construção desse filme Revolta dos Búzios há vários anos e a maior dificuldade foi conseguir patrocínio para sua produção. Esse movimento conspiratório que ocorreu em 1798 é um episódio ímpar na história do Brasil, que teve forte influência das ideias iluministas da Revolução Francesa e defendia as bandeiras da Independência, que só viria em 1822, da República, proclamada apenas em 1889, e avançava na defesa do fim da escravidão, conquistada somente no ano de 1888.

Por si só, isto já bastaria para destacar sua importância. Pretendo contar essa história no cinema, nunca antes isso foi feito. O filme tem um recorte temporal que se inicia em 12 de agosto de 1798 e termina em 8 de novembro de 1799, foram os 15 meses da Devassa, que convulsionou a cena política da Bahia, atingindo centenas de pessoas com interrogatórios, detenções e finalmente condenações de açoites públicos, prisões, degredo perpétuo, até a pena de morte, sentença máxima que se abateu sobre quatro homens negros: os soldados Luís Gonzaga e Lucas Dantas, e os alfaiates João de Deus e Manoel Faustino, enforcados e esquartejados no dia 8 de novembro de 1799 na Praça da Piedade em Salvador. Esse filme será mais uma contribuição efetiva para a valorização da memória negra da Bahia. Ainda neste ano de 2017 vamos lançar, estou trabalhando para isso.

 

 

 

Cartaz Revolta dos Búzios

 

 

 

O cinema é uma ferramenta importante para a superação das desigualdades;Cartaz Abdias (2) Como o cinema pode ajudar na formação cidadã e identitária?

 

Apresentando temas e questões que nos façam refletir sobre a vida, a nossa, a do coletivo étnico ao qual pertencemos e sobre a própria sociedade. O cinema pode mudar pessoas, que podem mudar a sociedade. Em 1976, eu assisti a um filme chamado Marúsia, dirigido por Miguel Littin, que trata de um levante de trabalhadores mineiros na cidade de Marúsia, no Chile, e este filme fez minha cabeça e marcou muito minha formação política, contribuindo decisivamente para consolidar uma opção de vida sempre comprometida com os interesses dos explorados e contra a injustiça e a opressão. Então, políticas públicas de superação das desigualdades econômicas e sociais, que no Brasil são profundas, são fundamentais, mas elas não podem nem devem ser apartadas das políticas de mudança de mentalidades, e para isso é preciso trabalhar a cultura, que ambienta o dia a dia de nossa existência.