REVISTA ELETRÔNICA DA BIBLIOTECA VIRTUAL CONSUELO PONDÉ – N.2 OUT DE 2015. ISSN 2525-295X

ENTREVISTA

 

 

CARLOS DA SILVA JUNIOR

 

É mestre em História Social pela Universidade Federal da Bahia. Na sua pesquisa de doutorado (Universidade de Hull, no Reino Unido), ele busca identificar as origens étnicas dos africanos escravizados na Bahia na segunda metade do século XVIII e primeira do século XIX.

 

 

Você estudou as origens étnicas dos africanos escravizados na Bahia no século XVIII. Quais grupos foram estes e como se explica a proporção de cada um deles como vítimas do tráfico?

A Bahia, diferente de outras regiões da América portuguesa, estabeleceu vínculos comerciais e culturais muito fortes e duradouros com a Costa da Mina/Golfo do Benim. Assim, a primeira metade do século XVIII tem uma predominância de africanos ocidentais, chamados na maioria das vezes de minas, embora aqui e ali encontremos referência a outras denominações da África Ocidental, como Alada (em referência ao reino de Allada, entidade política de maior importância na região até a derrota para o Daomé, em 1724), e alguns jejes (mais expressivos a partir da segunda metade do século) e uns poucos nagôs (estes que se tornariam maioria absoluta no século XIX). Juntos, esses africanos somavam algo em torno de 60%, proporção absolutamente condizente com os números do tráfico baiano. Em seguida, os centro ocidentais, os angolas e congos, com algo em torno de 30% dos registros, e uma pequena parcela de gente da África Oriental, vinda do porto de Moçambique, e outros africanos de origem incerta.

 

 

Como esses grupos se relacionavam entre si uma vez na Bahia?
Africanos de diferentes origens acabavam convivendo na faina diária, nos diversos ofícios de rua, como carregadores de cadeira, de fardos, como marinheiros, pescadores etc. Entretanto, assim como no século XIX, esses africanos parecem ter se organizado em torno de suas identidades étnicas, construídas na África ou durante o cativeiro. Por exemplo, encontrei exemplos de cantos – grupos de trabalhos organizados etnicamente – já na primeira metade do século XVIII. João Reis identificou que os cantos de trabalhos baseiam-se na instituição iorubá do aros, mas no caso do século XVIII, quando predominavam africanos falantes de línguas da área gbe (que corresponde à parte do norte do Togo, grande parte do Benim e sudoeste da Nigéria), os cantos parecem ter se organizado a partir do dokpwegbe, um tipo de organização de ajuda mútua de origem Fon (do Daomé, portanto), para trabalhos que exigiam força física. Era muito comum na região Mahi (que ficava ao norte de Abomé, capital

 

do reino do Daomé), de onde acredito terem saído grande parte dos africanos ocidentais enviados para a Bahia no século XVIII.

Há outros exemplos, como as irmandades religiosas, que, se não eram exclusivistas, permitindo, portanto, o acesso de africanos de outras nações, tinham seu núcleo duro etnicamente organizado. No caso dos calundus, embora menos documentado, há evidência de que também se organizavam em bases étnicas. Em suma, africanos de diferentes origens conviviam entre si – e eventualmente até mesmo se casavam –, mas a tônica parece ter sido viver entre os “parentes de nação”.

 

Por que a Bahia foi o principal porto de destino dos escravizados que saíram da costa da mina, neste período?

Há uma combinação de fatores. Verger diz que uma crise de varíola em Luanda em 1684 levou os traficantes baianos para a Costa da Mina, mas não há evidência de que esta epidemia tenha também afastado os comerciantes da praça do Rio de Janeiro. Ademais, os baianos já traficavam na Costa da Mina havia tempo, antes, portanto, do surto de varíola. Interpreto esse foco entre a Bahia e a Costa da Mina como um interesse dos traficantes da Bahia em escapar da competição que havia em Luanda, àquela altura controlada principalmente por comerciantes cariocas, mas destacaria a importância que o tabaco da Bahia teve no conjunto da “cesta básica” do tráfico no golfo do Benim. Por ser bastante apreciado entre as autoridades e comerciantes africanos, o tabaco desequilibrou o conjunto das mercadorias e das trocas por escravos em favor da Bahia. O tabaco era tão importante que até mesmo traficantes ingleses e franceses buscavam adquirir tabaco baiano para trocar por cativos, e em meados do século XVIII os franceses iniciaram uma produção de tabaco no porto de Dunquerque. Obviamente, o tabaco sofreu alguns reveses durante esse tempo, especialmente com a produção de tabaco na Virgínia, e até mesmo com o tabaco vindo de Lisboa, que era beneficiado e “transformado” em tabaco baiano. Mesmo assim, o produto baiano caiu no gosto dos comerciantes africanos no outro lado do Atlântico e assim permaneceu por séculos. Outros produtos faziam parte dos produtos de trocas por cativos, a exemplo do ouro brasileiro, que desempenhou papel fundamental no comércio negreiro na primeira metade do século XVIII, dos cauris ou búzios, bastante utilizados como unidade monetária na região, e têxteis indianos. Todos esses produtos eram necessários para o bom andamento dos negócios, mas diria que o tabaco fez a diferença em favor dos baianos.

 

 

De que forma as identidades étnicas africanas foram redefinidas na Bahia?

 

 

Africanos de diferentes regiões da África tiveram de reorganizar suas vidas sob um novo regime, a escravidão, e o fizeram em termos étnicos. O nomes de nação, que eram categorias que o tráfico negreiro utilizava para denominar os africanos chegados de diferentes portos terminou por se tornar um referencial na formação das comunidades na diáspora. Nesse sentido, gente Fon, Mahi, Savalu, Hula, Hueda, Gun etc. eram absorvidos pelo “guarda chuva” mina ou jeje na Bahia, por exemplo. Outras categorias, vindas da África, continuavam em operação no interior da comunidade africana na Bahia e alhures, mas no dia a dia, e principalmente no diálogo com a sociedade escravista mais ampla, eram os nomes de nação que predominavam, salvo algumas exceções.

Como se chegou aos números do tráfico transatlântico de escravos hoje aceitos? Há críticas a fazer a esses números?

Desde meados do século XIX, há gente preocupada com os números do tráfico. Por muito tempo, a cifra de 15-20 milhões foi aceita como representando o número de pessoas que deixaram a África para as Américas. Alguns pesquisadores chegaram a estimar em 25 milhões e outros, com muito exagero, em até 50 milhões de pessoas. Mas foi na década de 1960 que Philip Curtin fez uma análise meticulosa dessas cifras, estimando em quase 10 milhões. Na década de 1990, David Eltis, Stephen Behrendt e David Richardson decidiram refinar ainda mais esses dados, resultando na primeira versão do Transatlantic Slave Trade Database. Uma segunda versão, mais atualizada, foi lançada online em 2008, e desde então passa por constantes atualizações, com o acréscimo e/ou correção dos dados. A cifra atual gira em torno de 12,5 milhões de africanos transportados, dos quais 10 milhões chegaram com vida aos portos das Américas.

 

O Transatlantic Slave Trade Database é uma ferramenta fundamental para os pesquisadores atuais, mas não deixa de ter algumas questões. Por exemplo, por usar fontes óbvias para o estudo dessa migração forçada (fontes alfandegárias, notadamente), ele deixa escapar a história de muitos navios que não constam nesses documentos. A título de exemplo: encontrei recentemente um navio baiano que transportou pelo menos 1100 escravos em meados do século XVIII, enquanto o banco de dados, baseado provavelmente na estimativa do tamanho do navio, registra menos de 500. Para a Bahia, há um problema adicional para o tráfico pós 1815. Os traficantes baianos adotaram a estratégia de pedir passaporte para Molembo, na África Centro Ocidental, onde o tráfico ainda não era proibido, mas dirigir-se à Costa da Mina. Um olhar descuidado pode fazer o pesquisador acreditar que o tráfico com a África Ocidental diminuiu brutalmente, o que não foi caso, bastando comparar com os registros de inventários, batismos etc. Outra questão: esse banco de dados registra apenas onde o navio desembarcou escravos, e não necessariamente o destino final deles – a chamada “terceira perna do tráfico”. Os coordenadores do banco de dados estão cientes disso, e vão incluir o tráfico interno nesses dados nas próximas atualizações.

 

Qual a sua pesquisa atual?

Continuo interessado nas origens dos africanos na Bahia do século XVIII, mas meu trabalho atual diferencia-se do mestrado por duas razões fundamentais: agora meu foco são os africanos da Costa da Mina, a quem eu já tinha dado mais ênfase desde o mestrado, e um estudo mais aprofundado da história africana da região. Mais importante, talvez, no doutorado eu faço um movimento inverso do que fiz no mestrado. Enquanto no mestrado eu olhava para a África para entender o que acontecia na Bahia da primeira metade do século, agora parto da Bahia – e das formas de identificação africanas – para compreender o que acontecia na África Ocidental do Setecentos, especialmente as rivalidades entre as entidades políticas que disputavam a primazia no comércio negreiro na região, como Oyó, Daomé e, na segunda metade do século XVIII, Porto Novo.

 

 

O que te levou a deixar o estudo da escravidão no Brasil para se dedicar ao da própria África?

O interesse na história da escravidão africana no Brasil permanece, mas as discussões com o grupo Escravidão e Invenção da Liberdade, da UFBA, e minha passagem pelo Harriet Tubman, em 2010, me fizeram perceber que havia um terreno promissor a ser explorado no campo de história da África. Como disse antes, as relações comerciais e culturais entre a Bahia e Costa da Mina produziram uma quantidade enorme de fontes, espalhadas por três continentes e pelo menos oito países. São fontes que falam do cotidiano no “porto” de Ajudá (que não é exatamente um porto, pois fica a cerca de três quilômetros do litoral), as dinâmicas entre traficantes de diversas nacionalidades e as autoridades africanas, e mesmo os conflitos entre os diversos reinos que disputavam a preferência no tráfico de escravos e mesmo sobre o funcionamento de algumas sociedades no interior da África Ocidental. É um campo de estudos riquíssimo e achei que poderia me encaixar de alguma maneira nesse debate, que coincidiu com o crescimento do campo de história da África no Brasil. Aliás, enquanto a maioria dos trabalhos produzidos no Brasil ou por brasileiros estavam mais vinculados a Angola, resolvi focar no golfo do Benim, por sua conexão com a Bahia, seguindo de certo modo uma tradição historiográfica baiana.

 

 

Qual a lacuna que sua pesquisa pretende preencher?
Como disse antes, além do interesse nas principais entidades políticas no golfo do Benim e como rivalizavam no tráfico, me interessa profundamente entender principalmente os escravizados: quem eram, de quais regiões, como e porque eram cativados e quais as consequências do tráfico e da escravidão transatlântica na história social e política da região. Além disso, sabemos muito sobre os números do tráfico de forma geral (quantas pessoas deixaram o golfo do Benim em determinado período, por exemplo) mas pouco sobre as proporções dos diferentes grupos étnicos/linguísticos que foram deportados. Essas questões têm ganhado força na historiografia do tráfico recentemente. São questões que espero responder ao final da tese.

 

 

Você encontrou algum dado novo que lhe surpreendeu?

Sim, particularmente a importância que a língua tinha na escolha dos cativos. Não raro pensa-se o tráfico negreiro como uma máquina de transportar gente nos porões dos navios para o outro lado do Atlântico, sem muita preocupação em conhecer quem era transportado. Desde o mestrado eu “pressentia”, posso dizer, que era preciso dar mais crédito ao que diziam os comerciantes de escravos, especialmente aos que cruzavam o Atlântico. Ora, essas pessoas estavam acostumadas a lidar com africanos de diferentes grupos, alguns (não necessariamente africanos) eram versados em uma ou mais línguas da região, e suas palavras/informações deveriam receber mais crédito, sem desprezar a crítica às fontes, elementar no ofício do historiador. E na hora da decisão sobre quais cativos adquirir, a língua se destacava como um critério importante nesse processo. Pretendo explorar detalhadamente esse aspecto na tese.

 

 

Qual foi a participação de africanos no tráfico, se alguma? Você diria que esse é um tema politicamente delicado?

 

 

Os africanos tiveram papel importante no negócio de escravos, pois eram responsáveis pela organização africana do tráfico, recebiam taxas dos comerciantes europeus, brasileiros e de outras áreas, dos mercadores do interior do continente e vendiam os cativos para o tráfico transatlântico. Em outros casos, africanos serviam como marinheiros nos negreiros e eram também pequenos traficantes. Alguns africanos libertos retornaram à África e se estabeleceram como grandes negociantes e incentivadores da abertura de novos portos de comércio. Não há como – e nem porque – negar a participação de africanos no tráfico.É um tema delicado, sim, mas precisa ser tratado de forma absolutamente franca e aberta. A participação africana no tráfico não retira em absolutamente nada a necessidade de discutir os efeitos do tráfico negreiro e da escravidão sobre a sociedade brasileira.

Lembro-me aqui de uma passagem do rei Glelé, do Daomé, quando uma embaixada inglesa, em 1863, tentava convencê-lo a por um fim ao tráfico. Glelé explicou que nunca mandou nenhum de seus navios com escravos para as Américas, mas os europeus iam até ele. Caso eles não tivessem aparecido, ele e seus antepassados não venderiam escravos para o tráfico atlântico. Essa passagem pode ser lida como uma tentativa do rei em evitar celebrar qualquer acordo formal para o fim do tráfico ou mesmo tirar sua responsabilidade do negócio. Entretanto, sua fala também revela que tráfico transatlântico foi o resultado de uma demanda crescente por mão de obra nas Américas. Essa sanha escravista estimulou um aumento sem precedentes no número de pessoas escravizadas, e criou estados voltados fundamentalmente para a captura de escravos. A força do tráfico, nesse sentido, foi tão avassaladora, que influenciou as sociedades africanas.

 

Qualquer tentativa de usar o argumento da participação africana para minimizar os efeitos do tráfico e seu impacto na vida da população negra – e assim questionar os programas de ações afirmativas, o principal alvo desse tipo de argumento – é perversa e, em alguns casos, até mesmo cínica.

 

Como a nova historiografia da escravidão influencia — se é que influencia — as políticas de reparação no Brasil?

O movimento social foi fundamental para a consolidação de algumas conquistas da população negra nos últimos 35 anos. No campo acadêmico, as discussões sobre a “agência” ou protagonismo da população escravizada colocou o debate em um novo patamar. Do “escravo-coisa”, como ficou conhecida uma certa perspectiva analítica da vida dos escravos, ou daquela que enfatizava a brutalidade da escravidão, a nova historiografia da escravidão lançou luz sobre as possibilidades de resistência da população escravizada face aos desígnios da sociedade escravista. Questões como a formação de pecúlio, família escrava, reorganização de comunidades no Novo Mundo, passaram a ser do interesse dos historiadores, que agora procuravam perceber como aquela gente escravizada utilizava-se das brechas do sistema escravista, negociando concessões com os senhores. Nesse sentido, essa virada nos estudos, que coincide com as lutas do Movimento Negro, exerceu e continua a exercer papel importante nas lutas por reparação. Basta lembrar que Luiz Felipe de Alencastro, um de nossos proeminentes historiadores, leu seu parecer a favor das cotas numa das audiências do STF para debater a constitucionalidade das cotas raciais, em março de 2010. E Hebe Mattos, outra historiadora ligada a essa tradição historiográfica, faz parte do Comissão Nacional da Verdade sobre a Escravidão Negra no Brasil, instituída esse ano.

 

 

Qual a importância dessa história ser contada por historiadores negros?

 

Acima de tudo, pela representatividade. É importante salientar que não há nada de mal com a produção acadêmica dos historiadores que iniciaram esse movimento de renovação dos estudos sobre a escravidão. João Reis, Katia Mattoso, Stuart Schwartz, Bob Slenes, Luiz Felipe de Alencastro, Sidney Chalhoub, entre outros, contribuíram e ainda contribuem de forma expressiva para o entendimento das relações escravistas no período colonial e imperial. Eles ajudaram a fundar algumas das pedras angulares dos debates nos últimos 35 anos. Entretanto, a representação é fundamental. Há muito pouco tempo, o número de professores negros nas universidades públicas era bastante diminuto. Quando entrei na UFBA, em 2002, tínhamos dois, talvez três professores negros. Hoje, também graças à expansão das vagas, um número cada vez maior de professores negros ingressa

na universidade, acompanhando a tendência do aumento dos estudantes afro descendentes, estes últimos como resultados das ações afirmativas nas universidades. Malgrado esse aumento, sua presença ainda é pequena, quando comparada ao percentual da população negra no Brasil, e na Bahia, em particular.Por isso, observar que hoje temos historiadores negros com pesquisas de ponta em seus campos de estudos, e outros que sempre tiveram papel destacado no cenário intelectual e político, como Ubiratan Castro de Araújo (o saudoso Bira, professor da UFBA), Flávio dos Santos Gomes (UFRJ), Wlamyra Albuquerque (UFBA), Lucilene Reginaldo (Unicamp) e Roquinaldo Ferreira (Brown University, nos EUA), para citar apenas alguns exemplos, representa muito para os estudantes que estão iniciando a graduação em História, e mesmo para mim, já em fase de conclusão do doutorado.

 

Pela mesma razão, tenho tentado incluir a produção dos pesquisadores africanos (livros, teses, dissertações, artigos) em minha tese. A produção brasileira sobre escravidão é uma das maiores e mais importantes do mundo, e nossa produção sobre África vem crescendo a passos largos. Entretanto, a maioria dos trabalhos sobre a história da África a que temos acesso ainda está em inglês e ou francês, produzida principalmente por historiadores europeus e norte americanos. Mas uma quantidade enorme de trabalhos é produzida pelos colegas africanos, alguns desses bastante conhecidos no Brasil, como é o caso do professor Elisée Soumonni. Acho importante que essa produção acadêmica seja incorporada na bibliografia das nossas teses, dissertações e livros.

 

Você visitou a ex-costa da mina pela primeira vez recentemente. O que te levou até lá? Como essa visita iluminará uma pesquisa que se baseia principalmente em livros e documentos de arquivo? Quais suas impressões mais fortes sobre essa visita?

Foi uma visita programada há bastante tempo, que deveria ter acontecido em abril e depois em setembro de 2014, mas que foi cancelada por motivos vários. Dessa vez, consegui passar um bom tempo no Benim, o que me permitiu viajar através do país, conhecer antigos portos do tráfico (Uidá, Porto Novo, Jakin [hoje Godomey] etc.), e viajar também pelo interior. Fui a Ketu, passei um bom tempo em Abomé, capital do antigo reino do Daomé, e fui até Savalu e outras pequenas cidades e vilas Mahis. Conversei com muita gente em todos esses lugares e recolhi muitos depoimentos orais que lançaram luz sobre muitos aspectos pouco claros durante a pesquisa documental. Existem certos detalhes que passam despercebidos nos documentos mas que tradições orais podem nos ajudar a perceber, ou pelo menos a problematizar. Assim como no caso dos documentos escritos, no entanto, é preciso fazer a crítica a esse tipo de fonte, pois a oralidade é uma combinação de lembranças e também esquecimentos, como ensina Jan Vansina. De todo modo, uma metodologia que combine essas duas fontes, orais e escritas, tem uma perspectiva bastante promissora para o doutorado e para meus futuros trabalhos.

 

 

Quanto às minhas impressões: poderia falar sobre as coisas óbvias que nos aproximam (o Benim e a Bahia), como a comida, os sons, comportamento etc. Sentia com frequência uma certa sensação de estar na Bahia, às vezes em Salvador, às vezes no Recôncavo. Mas me impressionou bastante mesmo como a memória da escravidão ainda é bastante viva entre as pessoas. Tive a chance de conversar com pessoas em Abomé, gente de memória prodigiosa, que revelaram aspectos interessantíssimos da relação do Daomé e os escravos que eram mandados para as Américas, bem como de pessoas nos territórios preados por esse reino (notadamente no território Mahi), cujas tradições orais sobre esse período ainda estão bastante vivas. E em ambos os casos, o assunto não era tabu. A exceção de um entrevistado, que mudou de assunto após alguns minutos de conversa, todos os outros estavam dispostos a conversar comigo sobre o tema, cada um apresentando sua perspectiva.

 

Ao mesmo tempo, todas as vezes que me apresentava e falava meu sobrenome (da Silva) e de onde vinha (especificamente quando falava da Bahia), recebia uma efusiva demonstração de afeto. Algumas pessoas com quem conversei falavam que aquele momento era de reunião das partes separadas pelo mar, e que o Benim também era minha terra natal. Todas, sem exceção, disseram que eu voltaria em breve. Os beninenses são muitos generosos. De fato, me senti em casa por lá. Acho que aquelas queridas pessoas estão certas.

 

Fotos do acervo pessoal de Carlos da Silva Junior