REVISTA ELETRÔNICA DA BIBLIOTECA VIRTUAL CONSUELO PONDÉ – N.1 JUL DE 2015. ISSN 2525-295X

ENTREVISTA

Hendrik Kraay

É professor da Universidade de Calgary e pesquisa rituais cívicos do século XIX no Rio de Janeiro e em Salvador, para rastrear a interação entre as políticas de elite e populares no mundo público das ruas, onde esses rituais tiveram lugar.

 

 

Como se deu seu contato com o tema e com a festa do Dois de Julho? O que mais o impressionou nesta celebração?

 

Foi em 1993, no final da minha estadia em Salvador para a pesquisa de doutorado, que assisti pela primeira vez o desfile dos caboclos. Na época, não sabia nada sobre a festa, mas fiquei impressionado, pois o contraste com os desfiles do Sete de Setembro que tinha assistido era tão marcante. Logo pensei que havia uma história para contar. Já em 1994, escrevi uma proposta de pesquisa comparando a comemoração do Dois de Julho com a do Sete de Setembro para meu pós-doutorado. Quando meu orientador (Richard Graham) me devolveu o texto, ele falou alguma coisa meio-crítica como “essa vai longe”. Não imaginava que, mais de vinte anos depois, ainda estaria pesquisando o Dois de Julho.

 

 

Como você compara a festa do Dois de Julho com outras festas cívicas no Brasil e em outros países latino-americanos?

 

Pelo que saiba, não há festa nenhuma como o Dois de Julho no Brasil ou em outros países latino-americanos. Já em meados do século XIX, tanto brasileiros de outras províncias do Império como estrangeiros ficaram atônitos diante da festa. Um jornalista carioca escreveu que só quem tem estado na Bahia no aniversário do 2 de julho é que pode bem avaliar o que é ali esta festa e o entusiasmo que excita em todos os corações Escrevia na década de 1850, época em que o entusiasmo popular estava no seu auge.

 

 

De que modo as informações obtidas em sua pesquisa modificaram o que já se sabia, ou se acreditava saber sobre a festa, e o que você descobriu de novidade?

 

Eu poderia levar horas em responder a essa pergunta. Em 1999, escrevi um primeiro texto sobre a festa, publicado no Journal of Latin American Studies e logo depois traduzido pela Afro-Ásia.entrevista2 Foi baseado num punhado de fontes jornalísticas, relatos de viajantes e alguns documentos que casualmente encontrei durante a pesquisa de doutorado. Boa parte do artigo, e principalmente a parte sobre as origens do caboclo e da cabocla, é baseado na história da festa escrita por Manuel Raimundo Querino, publicado no seu livro, A Bahia de outrora, e numa versão ampliada, masincompleta (por ser publicação póstuma), publicada na Revista do Instituto Geográfico e Histórico da Bahia em 1923. Não tinha como questionar sua história da primeira comemoração em 1824 com a entrada e uma alegoria viva de um mestiço velho, sua repetição nos anos seguintes, e da contratação do escultor Bento Sabino para fazer o caboclo quatro ou cinco anos depois de 1823. Também repeti a história da criação da cabocla em 1845, sob a pressão do general José de Souza Soares de Andréa, então presidente da província, que, por ser português, não gostava da pose agressiva do caboclo, que, segundo ele, simbolizava uma nação esmagando outra. Ele, segundo a história, insistiu que a cabocla passiva acompanhasse seu companheiro aguerrido. Ingenuamente,

[sc:citacao texto=”tratei a história de Querino como a verdade verdadeira ” ]

sobre a festa e não como a tentativa desse autor interessantíssimo de construir uma história que valorizava os caboclos numa época em que os símbolos sofriam muitas críticas. Desde 1918, os caboclos estavam relegados ao Pavilhão da Lapinha, projetada pelo Instituto como um museu para guardar os símbolos populares. Enfim, repeti a história de Querino e acabei reforçando o que já era a história “oficial” da festa, repetida em inúmeros sites na internet e em panfletos escolares.

[sc:citacao texto=”A história da origem da festa e dos caboclos que estou recuperando é, a meu ver, mais interessante. ” ]

O grande problema é a carência de fontes, pois poucos periódicos dessa época sobreviveram e a festa é raramente mencionada em outras fontes. Até esta altura na pesquisa, o que posso dizer é que a entrada triunfal foi documentada pela primeira vez em 1827. Os relatos destacam a participação de exaltados na festa e enfatizam que a entrada foi uma inovação. Não mencionam caboclos ou outras alegorias móveis que são registradas pela primeira vez em 1830 quando um artigo de um periódico exaltado, hoje desaparecido, republicado por um jornal da Corte, relata a participação de “dois carros triunfais ricamente feitas”. Nos anos seguintes, quando há referência ao “carro triunfal” é, às vezes, singular, às vezes plural. As primeiras descrições da estátua sobre o carro são de 1836, quando o Diário da Bahia se refere “ao emblema d’América, calcando aos pés um monstro símbolo do Despotismo”. O padre que pregou naquele dia comentou que a alegoria era “Catarina, rainha primogénita do Brasil e viva representação do belo continente americano”. O texto do sermão do padre parece confirmar o que Alexandre José de Mello Moraes Filho, baiano radicado na Corte, escreveu em 1888 sobre o carro que “em épocas primitivas … conduzia uma cabocla com os seus adornos selvagens, pisando um dragão”, entendido como “Paraguaçu calcando aos pés o Despotismo”. Outro elemento interessante nessa história é que o relato de Mello Morais Filho parece ter sido desconhecido ou esquecido por quase todos que escrevem sobre a festa, inclusive por Querino.

O que quer dizer isso tudo?
[sc:citacao texto=”É bem provável que o primeiro caboclo fosse uma cabocla. ” ]

E não só isso, parece que ela foi uma figura ativa. Aliás, na época, o emblema não era conhecido como caboclo/a; a palavra só começa a ser usada com frequência na década de 1850.

Posso falar mais rapidamente sobre algumas outras descobertas interessantes. No início da minha pesquisa não percebi a estreita ligação entre o Dois de Julho e a política exaltada. O “nunca mais, nunca mais / O despotismo regerá nossas ações” do Hino ao Dois de Julho de Ladislau dos Santos Titara se enquadra perfeitamente no ideário radical liberal das décadas de 1820 e 1830. Não é atoa que o Visconde de Pirajá, figura conservadora, não gostava da festa e ficou muito satisfeito com a comemoração reduzida de 1838, logo depois da derrota da Sabinada. Mais tarde, nas décadas de 1850 e 1860, a nacionalização do comércio a retalho, bandeira dos Caixeiros Nacionais (um dos grandes batalhões patrióticos), era estreitamente ligada ao liberalismo radical derrotado no Norte na Praieira de 1848-49. Às vezes, os que escreviam sobre a festa procuravam apagar esse elemento político da festa. Em 1936, João da Silva Campos transcreveu as matérias sobre a festa de 1836 do Diário da Bahia, mas cortou todas as tiradas exaltadas e publicou apenas a descrição das comemorações. Há outros casos disso…

No século XIX, a festa passou por uma série de altos e baixos. Teve seu primeiro auge na década de 1830. Foi reprimida depois da Sabinada, mas cresceu na década de 1840 e, na década de 1850, passou por uma nova idade de ouro, quando os famosos batalhões patrióticos criaram o desfile da “Noite Primeira”, uma enorme procissão cívica noturna na qual os carros vazios foram levados da Piedade para Lapinha. Lá, montavam-se os caboclos nos carros para a entrada triunfal do dia 2, que era considerada a festa oficial. A procissão noturna era a festa popular e, nessa época, já existia o casal de caboclos com sua feição atual (ele ativo, ela passiva);

[sc:citacao texto=”parece que foi na década de 1840 que os símbolos atuais foram criados ou recuperados. ” ]

Correspondências da Bahia nos periódicos da Corte chegaram a falar em 6.000 ou 10.000 pessoas na rua durante quase toda a noite (o cônsul britânico certamente exagerou quando falou em 50.000 participantes). Essa festa popular preocupava as autoridades e a compra da cocheira na Lapinha pela Sociedade Dois de Julho (então responsável pelos emblemas) em 1860 foi uma tentativa, bem sucedida, aliás, de por fim à festa noturna.

 

 

Que mudanças você percebeu na festa, ao longo dos anos em que realizou sua pesquisa, tanto no que diz respeito à participação popular quanto à presença oficial?

 

Acho que assisti a seis Dois de Julho (1993, 1996, 2000, 2001, 2002, 2011). Minha experiência pessoal com a festa atual é pontual e devo tomar cuidado ao responder a essa pergunta. Se eu dissesse alguma coisa sobre a aparente diminuição da participação popular na festa, eu não seria muito diferente dos que, ao longo dos anos, lamentavam o declínio do patriotismo baiano.

Talvez esteja perguntando sobre a evolução histórica da festa. No caso, acho que já respondi ao falar das fases da festa. Não houve um processo linear de, por exemplo, uma festa popular que, aos poucos, sofria um processo de interferência do mundo oficial. Depois do fim da procissão da Noite Primeira, parece que as energias populares se direcionaram para os Dois de Julho de bairro, festas populares realizadas nas freguesias, que proliferavam no final do Império e no início da República. Aconteciam nos meses depois do Dois de Julho, às vezes até agosto e setembro; eram organizados por comissões de notáveis do bairro e duravam alguns dias. Tinha elementos de civismo e de festa popular.

 

 

A guerra pela independência na Bahia é apresentada, especialmente pelos baianos, como um marco fundador da nação brasileira. Suas pesquisas sobre a guerra e sobre a festa que celebra a emancipação política ainda ajudam a sustentar este argumento?

 

Sem dúvida ajudam, mas esses marcos fundadores são sempre criações posteriores. Não há definição objetiva de “nação” e os próprios conceitos de baianidade e de brasildade mudaram ao decorrer dos séculos.

[sc:citacao texto=”Os que cantavam que “com tiranos não combinam brasileiros corações” no final da década de 1820 entendiam o ser brasileiro de forma muito diferente do que os brasileiros de 1900 ou os de hoje. ” ]

Desde 1828, havia não sei quantas campanhas para instituir um feriado nacional no dia 2 de julho. Em 1831, o dia foi designado dia de festividade nacional, mas somente na província, situação que perdurou ao longo do Império. A lei de 12.819 de 5 de junho de 2013 integrou o dia às “datas históricas do calendário de efemérides nacionais”, algo ainda longe de um feriado. A recorrência dessas campanhas, com retórica muito parecida, demonstra a força dessa ideia da centralidade da Bahia na campanha pela Independência.

Desde o século XIX, os baianos têm a consciência de que a sua experiência da Independência era diferente. Em 1867, um periódico baiano exortou seus conterrâneos a não esquecerem “que fomos nós que lutamos, e não o Rio; que fomos nós que morremos e não o Rio; que fomos nós que dormimos ao sol e à chuva, e não o Rio, que foi nosso o sangue que correu, e não o do Rio; que somos brasileiros, enfim, mas não somos cariocas!”

Defender a primazia ou a centralidade da Bahia na luta pela Independência foi uma maneira de conquistar capital político numa época em que a Bahia entrava no seu longo declínio econômico e político relativo ao Sul. Hoje em dia, serve mais para reivindicar os direitos de todos os brasileiros. Em outras palavras, argumenta-se que, por causa da participação popular nas lutas pela Independência na Bahia, a nação é de todos os cidadãos.

 

 

Sabemos que você estudou as formas de recrutamento e os sujeitos engajados nas lutas pela independência, e também na guerra do Paraguai. É possível traçar, brevemente, um perfil dos indivíduos e grupos envolvidos nestes conflitos?

 

Em ambas as guerras, havia a participação de gente de “todas as classes e cores”, para usar uma expressão bem oitocentista. Na guerra pela Independência na Bahia, houve uma mobilização popular que, por pouco, não fugiu do controle dos senhores de engenho.

[sc:citacao texto=”Vale a pena lembrar que a luta pela Independência não era somente uma luta para criar um Brasil independente ” ]

Ocorreu no meio da dissolução das instituições do Antigo Regime. Conceitos novos como liberdade, igualdade, constituição, etc., foram amplamente discutidos na época e todos os entendiam do jeito que queriam. Escravos, homens e mulheres livres e pobres, senhores de engenho (negros, pardos e brancos) – todos esperavam um futuro melhor e lutavam para sua realização. Só que tinham visões diferentes e a que prevaleceu foi, mais o menos, o dos senhores.

 

 

 

Dom_Oba_IIOs voluntários de pau e corda e os escravos libertos para servirem no lugar dos seus senhores são os recrutas mais conhecidos da Guerra do Paraguai, mas não se deve esquecer a mobilização patriótica dos primeiros meses de 1865, quando dezenas de milhares de voluntários se apresentaram. Era gente de todas as classes, desde homens negros como Cândido da Fonseca Galvão (o futuro D. Obá II) a filhos de senhores de engenho e comerciantes e funcionários públicos. Como em todas as guerras, a realidade dos campos de batalha era muito diferente da experiência gloriosa que se imaginava antes da guerra (que é representado nos grandes quadros históricos de Pedro Américo e de Vitor Meireles). Antes do final de 1865, já arrefecia o entusiasmo. A insistência do imperador e de seus gabinetes em prosseguir a guerra até a vitória final obrigou o governo a recorrer ao recrutamento cada vez mais coercitivo.

 

 

Quando e por que o IGHB entrou na organização da festa?

 

O Instituto foi fundado em 1894 e logo começou a participar da festa, como uma das muitas instituições envolvidas. Mas nessa época, a festa estava passando por uma fase de dispersão. Já mencionei a proliferação de Dois de Julho de bairro. A inauguração do monumento ao Dois de Julho em 1895 iniciou uma bifurcação da festa do dia 2. De manhã, os caboclos faziam um pequeno desfile pela freguesia de Santo Antônio além do Carmo; à tarde, havia festejos oficiais em torno do monumento. As festas de Santo Antônio eram consideradas as festas populares. Interpretei essa bifurcação como o resultado da rejeição dos caboclos pela elite baiana. A distinção entre as duas formas de comemorar não era absoluta: às vezes, autoridades municipais e estaduais visitavam as festas populares e comissões de Santo Antônio participavam da comemoração oficial.

Nas primeiras décadas do século XX, houve em determinados anos tentativas dos governos de coordenar todas as instituições que participavam da festa; o Instituto colaborou com a Liga de Educação Cívica na organização de desfiles escolares no dia 2, com alunos e alunas uniformizados, bela representação da modernidade.

Foi em meados da década de 1910 que o papel do Instituto aumentou. O barracão da Lapinha foi transferido ao Instituto, que reformou o prédio em 1918 para torná-lo em museu para os caboclos. Desde o final do Império, há indícios de que
[sc:citacao texto=”havia quem não gostasse dos caboclos, por serem velhos, indígenas, não civilizados etc.,” ]
toda aquela retórica conhecida, e os esforços do Instituto pareciam fazer parte de um projeto civilizador de tirar a velharia da cidade. Nessa mesma época havia as reformas urbanas de J. J. Seabra, a construção da Avenida Sete de Setembro, etc. Mas a história do Dois de Julho é mais complicado. Em 1916 e 1917, os caboclos voltaram a participar de toda a festa do dia 2, e foram conduzidos até o monumento. Alguns sócios do Instituto louvaram o caboclo como “o nosso símbolo nacional”. Todavia, em 1918, o pavilhão reformado foi inaugurado e os caboclos ficaram nele até 1943, quando voltaram a participar do desfile.

 

 

Quando o caboclo e a cabocla apareceram na festa pela primeira vez?

 

Bem, não posso lhe dar uma data certa. Como já expliquei, há desde a década de 1830 indícios de alegorias indígenas na festa. A partir de mais ou menos 1850, os relatos sobre a festa publicados nos jornais mencionaram com alguma consistência a participação de dois carros alegóricos, aparentemente um com o caboclo e outro com a cabocla e, portanto, acho que datam da década de 1840. A primeira fonte contemporânea que tem todos os elementos dos caboclos atuais – o caboclo ativo e a cabocla passiva – é de 1862.

O que imagino, mas não há como comprová-lo, é que desde o final da década de 1820, houve a participação de diversas alegorias indígenas na festa. Por um processo impossível de reconstruir hoje, duas delas foram reconhecidas como os caboclos, isto durante a década de 1840.

 

 

A longevidade da festa do Dois de Julho continua a impressionar os historiadores e antropólogos que a investigam. Em sua opinião, o que explica o sucesso local e contemporâneo de uma festa que celebra um acontecimento histórico?

 

Ela é realmente impressionante. O sucesso contemporâneo da festa é devido ao fato que ela fala sobre questões ainda importantes. Quem faz parte da nação? Quem são os cidadãos baianos? Quem tem direito de se considerar cidadão? Quem participou da criação dessa Bahia, desse Brasil? São questões bem atuais.

 

 

 


 

Entrevista dada a Wlamyra Albuquerque e João José Reis
Fotos do acervo pessoal de Hendrik Kraay
A foto de Dom Obá foi publicada pela primeira vez por Pedro e Bia Corrêa do Lago no seu livro Coleção Princesa Isabel, p. 26.