REVISTA ELETRÔNICA DA BIBLIOTECA VIRTUAL CONSUELO PONDÉ – N.3 MAR DE 2016. ISSN 2525-295X

ENTREVISTA

 

 

WLAMYRA RIBEIRO DE ALBUQUERQUE

 

É mestre em História pela Universidade Federal da Bahia e doutora em História Social da Cultura pela Universidade Estadual de Campinas e professora de História do Brasil na Universidade Federal da Bahia. É autora de O jogo da dissimulação: abolição e cidadania no Brasil. Em coautoria com Walter Fraga Filho publicou dois livros paradidáticos: O que há de África em nós e Uma história da cultura afro-brasileira, este último vencedor do Prêmio Jabuti na categoria didático e paradidático.

 

Fotografias de Natália Reis.

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No seu livro “O jogo da dissimulação” você trata da cidadania negra no período da pós-abolição. Como você chegou a este tema?

 

O tema não era novidade na década de 1990. Autores importantes como Florestan Fernandes, Richard Graham, José Murilo de Carvalho, Lilia Schwarcz, Hebe Mattos e Flávio Gomes já o discutiam. A novidade estava numa nova perspectiva de abordagem que fazia convergir para a questão da cidadania negra tanto os estudos já consolidados sobre escravidão, quanto os até então recentes sobre abolição e pós-abolição.

 

Por outro lado, eu fui aluna do curso noturno da graduação da Universidade Católica de Salvador. Lá, a discussão sobre os privilégios reservados à maioria branca que predominava nas universidades públicas estava sempre em pauta. Em seguida, fiz mestrado na UFBA, onde comecei a participar do grupo de pesquisa Escravidão e Invenção da Liberdade. Foi aí que me dei conta da vasta bibliografia atenta às interfaces entre escravismo-racismo-desigualdades que podia guiar minha pesquisa. Já o livro é o resultado do doutorado em História Social cursado na UNICAMP, onde alguns poucos negros e outros muitos brancos, reunidos no CECULT, insistiam na importância de entender a história do racismo como algo central na sociedade brasileira.

 

Todos, alguns a contragosto, foram envolvidos pelo debate sobre as cotas nas universidades, que agitava e apartava o campo acadêmico. Estava em primeiro plano, pela primeira vez na nossa história, o debate aberto sobre identidades e desigualdades raciais no prestigiado espaço das universidades públicas brasileiras.

 

A minha pesquisa só foi possível porque estes cenários postos pela historiografia e pelas disputas sociais acerca dos direitos da população negra estavam em evidência na década de 1990. Ainda hoje não tenho certeza se o título do meu livro, O Jogo da Dissimulação, diz mais sobre o tempo da abolição ou sobre o tempo da minha pesquisa. Talvez ele só possa ser entendido se estes dois tempos forem sobrepostos, sem serem confundidos.

 

 

A abolição em 13 de maio de 1888 foi o golpe final em um sistema já em desagregação ou a escravidão era ainda a principal engrenagem da economia brasileira?

 

A ideia de que um sistema de dominação secular pode sofrer um golpe final com uma lei não leva em consideração as dinâmicas históricas que movimentam as sociedades. A abolição pôs fim à legalidade e legitimidade do escravismo, criou ambientes para se questionar relações hierárquicas, evidenciou o racismo que organizava a lógica social, além de desafiar o Estado, as elites e os trabalhadores a construírem projetos nacionais fora da ordem escravista. Entretanto, o mundo da escravidão não ficou confinado aos tempos do Império. Entender e explicar essa dinâmica em seus sentidos políticos, econômicos e culturais é o que cabe aos historiadores. Investigar quais e como se deram as transformações, sem perder de vista as continuidades que atavam a sociedade escravista e do pós-abolição é tarefa que tem empolgado muitos historiadores.

 

 

O fim da escravidão redefiniu as hierarquias sociais no Brasil?

 

Não. A meu ver, o fim da escravidão desorientou as antigas referências e deferências que vigoravam na sociedade brasileira, abriu espaços de disputas sociorraciais, desestabilizou o edifício social sobre o qual o Brasil foi inventado. E isto não foi pouca coisa. A abolição não foi só uma ordem administrativa, uma canetada, ou um beija mãos dos abolicionistas. Em minha opinião, a abolição colocou as hierarquias em xeque, mas não as redefiniu radicalmente. Muitos aspectos desta hierarquia que aqui reinou por séculos, se espraiaram para dentro do Brasil Republicano.

 

 

Então, qual exatamente o lugar da abolição em nossa história? E de que maneira os afrodescendentes brasileiros se organizaram e que estratégias usaram na luta pela cidadania? Essa movimentação teve de esperar pela abolição para acontecer?

 

A Abolição não foi o começo de tudo. Acho que uma das maiores contribuições do debate sobre o recente campo historiográfico da abolição e do pós-abolição é deixar claro que a abolição não foi a página final de um tempo nem a inaugural de outro. A fronteira entre a escravidão e a liberdade sempre foi mais porosa do que contínua. As formas de adquirir alforrias, a rebeldia, os conchavos, as alianças, os planos de futuro que foram protagonizados pela população escrava foi a bagagem política daqueles que se colocaram na luta por cidadania no Brasil. Hoje já sabemos, por exemplo, que não é possível entender as reivindicações dos trabalhadores das primeiras fábricas sem considerar o que estes herdaram das noções de direitos da população escravizada. E são exatamente estas muitas reinvenções do repertório de demandas por cidadania que atraem cada vez mais pesquisadores para este campo de investigação.

 

 

E o estado brasileiro, como respondeu a essa luta?

 

Ah, o Estado brasileiro e seus malabarismos. O que pude perceber na pesquisa é que o Estado, com muita sagacidade, atendeu aos interesses de alguns, sem explicitar seu partidarismo. No caso da cidadania negra, o Estado Republicano escamoteou o quanto pôde o racismo que permeava as suas ações. A negação de qualquer critério racial na execução de políticas higienistas, na organização do ensino público, na regulamentação do trabalho, nas investidas da Polícia, dentre tantos outros aspectos, marcou (e ainda marca) as deliberações do Estado.

 

Mesmo porque, a noção de que a questão racial é delicada e perigosa para a ordem social esteve sempre viva nos gabinetes. Uma série de acontecimentos que vão da Revolução de São Domingos (atual Haiti) até a guerra civil americana foi vista por nossos governantes como sinal de alerta para os riscos de “ódios raciais”, como se dizia na época da Abolição. Garantir velhos privilégios, sem melindrar a nossa suposta paz racial é tarefa assumida há muito pelo Estado brasileiro.

 

 

O Brasil e os brasileiros sentem orgulho de não ter sido estabelecida uma legislação racista no país. Como foi então formulado e praticado o racismo brasileiro?

 

À revelia da lei, reeditando formas de exclusão social sustentadas em culturas políticas que foram, e continuam a ser, refeitas de acordo com as circunstâncias históricas. É importante dizer que o racismo tem uma história longa e complexa no mundo ocidental. E para desconstruir o racismo também é necessário entender como a sociedade brasileira em diferentes contextos vivenciou processos de racialização, ou seja, como identidades raciais foram elaboradas e postas em ação para demarcar espaços políticos e privilégios baseados na cor ou na origem dos indivíduos. Para entender o racismo brasileiro é preciso ver quem tem a hegemonia nos ambientes do poder e quem usufrui de privilégios.

 

 

No 4° capítulo de “O jogo da dissimulação” você analisa as representações da África nos desfiles carnavalescos. Os blocos afro fazem o mesmo na atualidade? O que mudou de lá pra cá?

 

Acho que estou mais credenciada para falar dos blocos afros hoje como foliã do que como pesquisadora. Eu sou dessas que continua se emocionando e se divertindo tanto com os desfiles dos grandes, como Ilé Aiyê, Cortejo Afro e Bankoma, quanto com os grupos pequenos que desfilam naquele circuito periférico, quase invisível, que vai da Praça da Sé ao Campo Grande. As representações da África permanecem em todos eles, mas são referências que dizem respeito a outras áfricas e outras bahias. A sobrevivência heroica destes blocos nos ensina sobre a capacidade criativa da população negra na Bahia. Só se forem olhados de relance, estes blocos parecem passadistas, enquadrados na ideia paralisante de “tradições baianas”, mas se vistos com alguma atenção é evidente o quanto eles são contemporâneos e inventivos. Particularmente, acho que participar dos desfiles daqueles blocos pequenos, cheios de crianças vestidas com roupas coloridas, com seus carros de som mal equalizados que tentam se impor diante dos amplificadores dos trios vale mais do que textos sobre o racismo na Bahia dos dias atuais.

 

 

Você diria que o estado brasileiro tem hoje uma política claramente antirracista?

 

Não. Uma política antirracista não pode se esquivar de trazer à tona o quanto o racismo determina as políticas públicas. Não é possível uma política antirracista que não enfrente a violência policial, principal inimiga da juventude negra. Não é possível uma política antirracista que não encare mudanças radicais nas escolas públicas. Não é possível uma política antirracista sem o enfrentamento da territorialização urbana nas grandes cidades brasileiras.

 

 

Há no movimento negro da atualidade duas tendências: uma que defende uma postura racialista, de supremacia negra, e outra de combate à desigualdade. Qual é a sua avaliação dessa situação?

 

Não me parece que sejam duas perspectivas tão claras e opostas. Na verdade, não me parece que sejam apenas duas as tendências do movimento negro, que tem sido um dos movimentos sociais mais atuantes na atualidade. Tenho visto grupos classificados como radicais trazendo demandas como o fim da violência policial e qualidade da educação pública. Estas são lutas antigas, já clássicas, de combate à desigualdade. Ao mesmo tempo, vejo outros grupos que enfrentam o racismo, promovendo marchas do cabelo crespo, por exemplo, algo radical e consequente. Diante de formas cada vez mais explícitas de segregação racial, vale celebrar a força do movimento negro que enfrenta o racismo, todos os dias e de muitas maneiras.

 

 

A lei 10.639/03, que torna obrigatório o ensino de história e cultura da África e do negro no Brasil nas escolas brasileiras, tem fomentado uma produção de livros didáticos para suprir esta lacuna. Você mesma escreveu um livro didático. Que avaliação você faz desta produção?

 

 

Os livros paradidáticos que escrevi em coautoria com Walter Fraga apresentam ao público escolar interpretações da nossa história, nas quais as populações negras surgem como protagonistas. Sinceramente, acho que minha maior contribuição para a luta antirracista no Brasil está na coautoria destes livros, que apesar de alcançarem uma parcela pequena de alunos, lhes apresenta um país mais diverso e entrecruzado por tensões, rebeldias e projetos de nação dos quais as populações negras também fizeram parte. A minha geração se habituou a só ver negros nas poucas páginas em preto e branco que retratavam a escravidão nos livros de história. Uma vez assinada a lei do 13 de maio, surgia o capítulo colorido do Brasil moderno. Na melhor das hipóteses, a população negra desaparecia das narrativas escolares. O quadro atual é bem diferente. Há bons títulos para todas as idades e nenhum educador pode simplesmente silenciar sobre a presença negra no Brasil.

 

 

Qual a sua pesquisa atual?

 

Estou pesquisando sobre como alguns sujeitos ligados à rede de relações de Rui Barbosa constituíram, experimentaram e interpretaram o fim do escravismo. São dois capangas, um engenheiro e três ex-escravas. Os capangas são Carestia de Vida e Inocêncio Sete Mortes, famosos na crônica policial das duas primeiras décadas do século XX. O engenheiro é Teodoro Sampaio, que dispensa maiores apresentações. E as libertas, empregadas no serviço doméstico da família Rui Barbosa. Foram pessoas com trajetórias bem diferentes e para os quais a condição racial teve pesos e significados distintos.