REVISTA ELETRÔNICA DA BIBLIOTECA VIRTUAL CONSUELO PONDÉ – N.4 AGO DE 2016. ISSN 2525-295X

ENTREVISTA

 

 

LUIS NICOLAU PARÉS

 

É doutor em Antropologia da Religião pela Universidade de Londres e professor associado no Departamento de Antropologia da Universidade Federal da Bahia. É autor de A formação do Candomblé: história e ritual da nação jeje na Bahia (Editora da Unicamp, 2006) e acaba de lançar seu mais novo livro pela Companhia das Letras: O rei, o pai e a morte. A religião vodum na antiga Costa dos Escravos na África Ocidental.

 

RecolourVocê pode explicar o título do seu livro?

 

 

O título foi uma escolha da editora, interessada em achar uma fórmula que chamasse a atenção do leitor e despertasse a sua curiosidade. É uma variação do título do primeiro capítulo, onde discuto a inter-relação entre o parentesco (o pai), a política (o rei) e os rituais funerários (a morte). Na análise da organização social dos povos da Costa da Mina, como era conhecido pelos portugueses o litoral do golfo do Benin, entre os séculos XVII e XIX, destaco a centralidade da coletividade familiar (as linhagens patrilineares conforme as caracterizou a Antropologia), assim como sobressai a autoridade investida no mais velho, o pai social, aquele que está mais perto dos ancestrais. A chefia do grupo de parentesco seria uma forma incipiente de liderança política, quando ela passa a controlar um território, que levaria à institucionalização do poder centralizado do rei (as famosas “monarquias sagradas”, que não eram um fenômeno apenas europeu como se pensa). O rei, como pai social do povo, é uma ideia que perpassa a ideologia política dos reinos de Aladá, Uidá e Daomé estudados no livro. Por outro lado, as noções de O rei, o pai e a morte capapoder na região estudada estão intimamente conectadas com a sanção espiritual dos ancestrais, e os rituais funerários em sua honra são práticas fundamentais para o reforço da organização patriarcal e a legitimação da autoridade real. O confronto com os mistérios da morte e a divinização dos espíritos dos defuntos permitem compreender parte importante da configuração do universo das forças invisíveis e dos voduns, nome pelo qual são conhecidos os deuses naquela região. Assim, a triangulação entre política, parentesco e religião, expressa no título, constitui uma boa síntese dos conteúdos do livro.

 

 

 

Qual a originalidade do seu estudo?

 

A pesquisa se debruçou sobre a chamada Costa dos Escravos, na Costa da Mina, uma das áreas da África ocidental mais estudadas pela historiografia, sobretudo a inglesa e a francesa. A originalidade do livro radica o seu foco nas práticas religiosas, pois embora diversos autores tenham tocado aqui e ali no tema, não havia ainda um trabalho monográfico de caráter histórico sobre ele. A exceção seria Pierre Verger, mas a pesquisa dele foi mais etnográfica, centrada no século XX, apesar de lançar mão de vários dos viajantes que eu também utilizei no livro. O desafio da minha pesquisa foi mapear a variação regional e o dinamismo histórico das práticas religiosas no período do tráfico transatlântico de escravos, do século XVII ao século XIX, como já disse.

Fig 01MAPA DA COSTA DOS ESCRAVOS

Mapa da Costa dos Escravos, reinos de Aladá (Ardrah), Uidá (Whydah) e

Daomé (Dahomy). 1789.

 

In: Robert Norris. Memoirs of the reign of Bossa Ahádee, King of Dahomy,

an inland country of Guiney, to which are added the author’s journey to

Abomey, the capital, and a short account of the African slave trade.

Londres, W. Lowndes, 1879, p. xvii.

Para isso adotei uma abordagem que destaca a interdependência do religioso com os processos locais de centralização política e com as forças externas da economia do tráfico. Outro aspecto saliente do livro é que a interpretação desses fenômenos africanos privilegiou uma perspectiva localizada no Brasil, pois um objetivo complementar do estudo foi melhor entender a cultura religiosa que os escravizados que chegaram às Américas dessa região podiam trazer consigo. Isso fica mais evidente na parte final do livro, onde examino de que modo aspectos específicos das práticas vodum foram recriados na Bahia e no Maranhão. Cabe notar, porém, que não se trata de uma busca das origens africanas do Candomblé ou do Tambor de Mina, mas uma tentativa, a partir de base documental relativamente densa, de contextualizar o dinamismo histórico da religiosidade naquele momento de reconfiguração cultural. Levando em conta a escassez de estudos sobre a Costa da Mina em língua portuguesa e que no Brasil a imaginação da África é amiúde idealizada e mitificada, o livro deve contribuir para uma compreensão mais nuançada desse passado de conexão atlântica.

 

 

Quais os problemas metodológicos envolvidos no uso de fontes europeias para estudar a religião africana? Como superar esses problemas?

 

Discuto essa questão fundamental na introdução. Na ausência de registros escritos pelos próprios africanos, os relatos de viagens, as correspondências e os relatórios comerciais dos europeus relativos à Costa da Mina são algumas das fontes privilegiadas na primeira parte do livro. O eurocentrismo desses documentos é um problema inescapável e continua a ser o argumento principal, levantado por alguns africanistas, para desqualificar uma história baseada nessas fontes, que refletem o olhar e o pensamento do estrangeiro dominador. Contudo, a partir da comparação crítica entre diversas fontes, e analisando o contexto de sua produção, é possível identificar os plágios, exageros, erros e invenções dos autores, revelando suas distorções ideológicas, e alcançando, nas entrelinhas dessas narrativas, a voz do africano. Assim, utilizado com a mesma cautela e reserva metodológica aplicadas em geral a outros tipos de fontes, como a tradição oral, esse corpus documental constitui o acervo mais rico de que dispomos para iluminar e imaginar aspectos parciais do passado africano. Informações derivadas da cultura material e de pesquisas arqueológicas foram trazidas à discussão quando possível e, com a devida prudência, a linguística histórica também foi utilizada. Contudo, a proposta metodológica mais arrojada do livro talvez seja o uso da etnografia ritual como subsídio histórico. Mesmo sob o risco de cair no anacronismo, a etnografia contemporânea pode oferecer chaves interpretativas para decifrar os eventos que os viajantes testemunharam, às vezes, sem entendê-los. Igualmente, o ritual religioso constitui uma forma de “memória prática” que se lembra do passado, não através das palavras, mas dos corpos e dos comportamentos, amiúde veiculando a voz dos mais fracos e seus discursos contra-hegemônicos. Essa relação entre ritual e memória, na encruzilhada entre a Antropologia e a História, é explorada na segunda parte do livro.

 

 

Voodoo sculptures from the Nago and Fon tribes of Benin, West Africa, are shown on Dec. 3, 2010, in this handout photo. The statuettes are on view at the Fondation Cartier through Sept 25. Photographer: Yuji Ono/Fondation Cartier via Bloomberg EDITOR'S NOTE: NO SALES. EDITORIAL USE ONLY.Botchios, séculos XIX e XX. Coletados na República do Benim, c. 1960.

Foto de Yuji Ono/ Collection of Anne and Jacques Kerchache/ Fondation Cartier

 

 

A antiga Costa dos Escravos, foi dominada por diversos reinos: Aladá, Uidá e Daomé. Qual o papel da religião nesses reinos? Existia algum tipo de sincretismo religioso entre os povos conquistadores e dominados?

 

Como já indiquei, a religião estava imbricada de forma indissociável à vida política desses reinos. De fato, o conceito de “religião” como esfera da vida social diferenciada, parece ter sido alheio a essa parte da África até recentemente. Para além da devoção aos voduns das coletividades familiares, certos cultos, como o da serpente em Uidá ou o do leopardo no Daomé, viraram cultos da dinastia real e, por extensão, do reino. Nesse sentido, o ritual religioso servia para promover processos de mobilização nacional. O caso mais evidente seriam os Costumes, cerimônias anuais celebradas pelos reis do Daomé, o reino mais poderoso da região, para exaltar a memória dos seus ancestrais. Esses eventos, que podiam durar meses, além do seu lado devocional, tinham uma dimensão política, jurídica e militar e eram direcionados a ostentar o poder do Estado. Por outro lado, o Daomé tinha uma política de apropriação dos cultos dos povos conquistados, como mecanismo de controle social, e para apaziguar a potencial ira dos deuses submetidos. Junto a essa estratégia de integração, a evidência histórica aponta para uma tradição religiosa multifacetada, fluida e eclética, em que práticas, valores e deuses atravessam fronteiras étnicas e linguísticas, gerando fluxos culturais que se estendem por áreas geográficas bastante extensas. A interpenetração com as tradições dos orixás dos povos vizinhos, de língua iorubá, por exemplo, está documentada pelo menos desde o século XVII. O sistema de adivinhação de Ifá, igualmente, parece ter chegado a Uidá e Aladá já nesse século, onde se tornou conhecido por Fá. Esse caráter flexível, aberto e integrador do sistema religioso favorecia a adoção de elementos externos também do cristianismo, mas, amiúde, não passava de uma estratégia de acumulação de recursos espirituais ou de gestos simbólicos que conferiam prestígio social.

 

Fig 03 Procissao riqueza reiProcissão das riquezas do rei nas cerimônias dos Costumes. Abomé, c. 1850.

In: Frederick E. Forbes. Dahomey and the Dahomans, Being the Journals of Two Missions to the King of Dahomey, and Residence at His Capital, in the Years 1849 and .1850. Londres: [s.n.], 1966 [1851], vol. 2, p. 32


 

 

Como o tráfico de escravos, na região em questão, afetou – se afetou – as práticas religiosas africanas?

 

 

Fig 02 Agoye cortado

 

Como é sabido, as elites dos reinos de Aladá, Uidá e, sobretudo, o Daomé, estimuladas pela demanda europeia, estiveram ativamente envolvidas no tráfico de africanos. A procura de cativos gerou grande instabilidade social naquele período e parece ter incrementado a produção de objetos de poder e de tecnologia ritual para evitar e se defender da guerra e da captura. Por outro lado, nos já citados Costumes do Daomé, o rei distribuía entre o povo a riqueza acumulada graças ao tráfico, mas ao mesmo tempo praticava cruentos sacrifícios humanos, o que era uma prerrogativa exclusiva dele. Essas oferendas objetivavam homenagear os ancestrais, propiciar a fortuna do reino, inclusive através do comércio europeu, e intimidar os inimigos. Uma história interpretativa das práticas religiosas dessa região não poderia omitir essa instituição. Porém, ao sinalizar a responsabilidade das elites africanas nos processos de dominação e exploração local, há o risco de reproduzir o discurso europeu que, desde o século XVIII, utilizou o Daomé como exemplo da barbárie africana para justificar o tráfico negreiro e, depois, a colonização. Assim, as armadilhas e contradições que resultam do embate entre o politicamente correto e a fidelidade às evidências são algumas das questões que atravessam o livro. Aliás, a correlação entre a vítima sacrificial e o corpo escravizado, como objetos de troca espiritual e mercadológica, é discutida no capítulo sobre a economia do religioso. A influência do tráfico no ritual vodum é também perceptível na identificação que se faz, em certos segmentos da iniciação, entre a noviça e uma cativa, o que mostra como a realidade social podia se infiltrar na prática religiosa. Esse seria mais um exemplo de como a liturgia ritual pode ser lida como um texto, onde se inscreve a memória do passado.

Agoye, deus dos conselhos. Uidá, c. 1725.

 

In: Le Chevalier Jean-Baptiste Labat. Voyage du Chevalier des Marchais en Guinée, isles voisines et à Cayenne, fait en 1725, 1726 et 1727. Paris: Chez Saugrain, Quay de Gefvres, à la Croix Blanche, 1730. vol. 2, p. 161.

 

 

Sua pesquisa ilumina de alguma forma o candomblé jeje que se constituiu no Brasil?

 

A pesquisa histórica na Costa da Mina tem confirmado a profundidade temporal de certos aspectos organizacionais do candomblé contemporâneo, como a sua estrutura conventual, já presente no reino de Aladá no século XVII, ou o culto simultâneo de várias divindades num mesmo templo. Pierre Verger já tinha demonstrado o paralelismo existente entre os voduns da família Davice na Casa das Minas, em São Luis do Maranhão, e os ancestrais da família real de Abomé cultuados nos Costumes, hoje conhecidos como Nesuhue. Minha pesquisa confirmou, não apenas a continuidade parcial desse panteão, mas a recriação da estrutura iniciática a ele associada, de gestos rituais como o uso da bengala, e aspectos comportamentais relativos à incorporação mediúnica. Ou seja, a transferência atlântica não se produziu apenas no âmbito dos panteões, mas foi também perpetuada uma memória corporificada em atitudes, maneiras de estar e registros emotivos. Do ponto de vista metodológico, a comparação transatlântica abriu novas possibilidades interpretativas da realidade brasileira, mas o contrário também se verifica. A partir da datação da fundação da Casa das Minas na primeira metade do século XIX, por exemplo, é possível inferir a existência de práticas rituais semelhantes no culto aos Nesuhue na África para as quais não há evidência documental. Ou seja, a etnografia afro-brasileira permitiria iluminar aspectos do passado africano.

 

Fig 04 Skertchly-Djeho- túmulos

Túmulos (Djeho) dos primeiros reis do Daomé. Abomé, c. 1871.

In: J. A. Skertchly. Dahomey as It Is, Being a Narrative of Eight Month’s Residence in that Country. Londres: Chapman and Hall, 1874 p. 392

 

 

A partir dos seus estudos sobre as religiões africanas, como você analisa a chamada “pureza africana” defendida por algumas casas de candomblé baiano?

 

O problema da pureza ritual ou da fidelidade às tradições religiosas africanas no Brasil tem dominado os estudos afro-brasileiros desde Nina Rodrigues, fazendo-se presente também nas comunidades de terreiro. Como já falei, na África, o sistema religioso do vodum, como o do orixá (embora para este último só tenhamos evidências documentais a partir do século XIX), sempre foi altamente dinâmico, plural e mutante. De fato, se alguma continuidade transatlântica parece inquestionável, é o gênio criativo do africano para acumular e adicionar novos elementos ao seu repertório cultural, de modo a melhor controlar os desafios colocados pelo novo contexto sociocultural, político e econômico. Isso não impede a reprodução de aspectos parciais de um legado ancestral que pode ser reconfigurado em múltiplas variações, revisando e reinterpretando seus significados. Assim, no contexto africano, como no brasileiro, tradição não pode ser pensada como repetição invariável; ela só pode ser compreendida como processo ou como mudança de alguma coisa preexistente. Nessa perspectiva, a defesa da pureza ritual ou de uma maior fidelidade à tradição reivindicada por certas casas (sejam elas nagôs, jejes ou angolas), sem desmerecer a real ou suposta conexão das suas práticas com origens africanas, deve ser concebida como uma construção discursiva e relacional, ou seja, elaborada para se diferenciar e, amiúde, se destacar diante das demais, e a serviço de interesses identitários coletivos, assim como para legitimar a autoridade no campo religioso.

 

Fig 05 Casa das Minas-Tobosi

Vodúnsis da Casa das Minas. São Luís (MA), 1914.

Museu Afro-Digital http://www.museuafro.ufma.br/.

 

 

Como seu estudo ajudará a compreender melhor as instituições e práticas religiosas afro-brasileiras? Você destacaria algum elemento específico?

 

Eu me sentiria mais do que satisfeito se o estudo estimulasse uma compreensão mais pormenorizada da cultura religiosa da África ocidental no período do tráfico. A base empírica levantada sobre a religião vodum deverá permitir calibrar com maior precisão as já mencionadas continuidades e descontinuidades atlânticas e como elas interviram no processo histórico da formação das religiões afro-brasileiras em sua diversidade. No último capítulo do livro, retomo um tema clássico dos estudos afro-brasileiros, qual seja, o modo como as coletividades familiares e a organização política africanas foram reconfiguradas nas congregações religiosas dos terreiros. Acredito que o conceito de “casa” ou “ilê” a estes aplicado, com suas dimensões identitária e territorial, e com a profundidade temporal marcada pela ancestralidade e as linhagens espirituais de suas lideranças, revelam no Brasil a mesma imbricação entre política, parentesco e religião discutida no contexto africano. Finalmente gostaria de destacar, como reza o texto promocional do livro, que a religião vodum, apesar da violência do período histórico em que se desenvolveu, e até promoveu, representa “uma tradição de pluralismo e tolerância que precisa ser valorizada, sobretudo em tempos sombrios como os atuais, tomados por intransigência e fundamentalismo”.

 

O rei, o pai e a morte-convite