REVISTA ELETRÔNICA DA BIBLIOTECA VIRTUAL CONSUELO PONDÉ – N.4 AGO DE 2016. ISSN 2525-295X

HOMENAGEM

 

 

CID TEIXEIRA: O “SENHOR HISTÓRIA”

 

Daniel Rebouças

 

Cid P&BEm dezembro de 2013, o bacharel em direito e historiador Cid José Teixeira Cavalcante recebeu a justa homenagem da comenda Dois de Julho, junto com o tão ilustre colega de trabalho, o historiador Luis Henrique Dias Tavares. Prestes a comemorar 90 anos de idade, o professor Cid, como era popularmente conhecido, completava ali décadas dedicadas à história da Bahia, e sua voz ainda hoje faz eco na memória de muitos ouvintes que sintonizaram, em meados dos anos 1960, na rádio Cruzeiro no programa “Pergunte ao José”. Essa mesma voz grave e reconhecível nas primeiras palavras também ficou na memória daqueles que iam ao Instituto Geográfico e Histórico ouvi-lo falar sobre fatos da história da Bahia e da cidade de Salvador. Nos corredores do Colégio Central, o apelido não tinha como ser outro: o fonógrafo Cid Teixeira.

 

Nas águas calmas da baía de Todos-os-Santos, na ilha de Maré, Cid Teixeira nasceu no dia 11 de novembro de 1924, primeiro de cinco filhos de D. Cidália. Nas férias de verão, o estudante do Ginásio da Bahia costumava ir com sua família para as praias paradisíacas de Amaralina ou Itapuã e, até onde sua memória alcançava, sempre na companhia de livros. No horizonte de influências e repertório de estilo, tinha grande admiração pelos intelectuais baianos Pedro Calmon, Braz do Amaral e o professor Francisco da Conceição Menezes, também seu padrasto.

 

Aluno da faculdade de Direito nos anos que se seguiram ao final da Segunda Guerra Mundial, Cid Teixeira dedicava as horas dos seus dias em outras atividades distantes das letras da lei: copista de documentos históricos no IGHB, professor de história da arte na Escola de Belas Artes da UFBA e jornalista no Diário da Bahia. Formado em 1948, o novo bacharel não mudou seu rumo para as salas do fórum Ruy Barbosa, pois em 1949 prestou concurso para professor da rede estadual e logo depois para a Universidade Federal da Bahia, onde ajudou a formar, junto com outros colegas, algumas gerações de historiadoras e historiadores baianos. Para muitos ex-alunos, ainda continua viva a lembrança do professor carismático, dotado de uma assombrosa memória e de uma cultura geral invejável.

 

Por muitos anos, Cid Teixeira continuou dividindo sua rotina entre a universidade e algo que gostava bastante de fazer, o jornalismo. Da primeira experiência no Diário da Bahia, seguiu para a redação do A Tarde, mas ascendeu, sem muita demora, para o cargo de editorialista do Jornal da Bahia e de redator-chefe do Tribuna da Bahia. Publicou muitos artigos sobre história da Bahia, mais tarde reunidos em livro, frutos de suas pesquisas e conhecimento que ia adquirindo por sua grande acessibilidade e simpatia com as pessoas, pois dificilmente se recusava a uma entrevista ou dois dedos de prosa com alguém interessado em história da Bahia. Nos anos de 1990, o “Senhor História”, como também era chamado, tornou-se um conferencista requisitado e figura pública consagrada na cidade, sendo convidado para dirigir a Fundação Gregório de Mattos. Entre 1992 e 1993, recebeu a medalha Tomé de Souza, concedida pela Câmara Municipal de Salvador e passou a ocupar a cadeira número 19 da Academia de Letras da Bahia.

 

As décadas dedicadas ao ensino, à formação de novas gerações, aos livros e à divulgação da história da Bahia para vários públicos já consagram, sem maiores dúvidas, o nome de Cid Teixeira na historiografia baiana. Para Jorge Amado, no livro Bahia de Todos os Santos, Cid Teixeira era o historiador a serviço do povo. A expressão poderia ser colocada entre aspas por ser abrangente demais, mas creio que a ideia fica registrada. Gostaria de seguir nessa linha.

 

Conheci o professor Cid, em 2005, quando fui assistente de pesquisa em livro sobre a história da energia elétrica na Bahia. Como o trabalho já estava quase finalizado, acabei me encontrando poucas vezes com ele, mas sempre na varanda da sua casa na Pituba. Em conversas agradáveis e repletas de tiradas inteligentes, eu me percebia absorvido pela incrível capacidade que tinha de tratar com intimidade os personagens do livro.  Era como se estivéssemos falando de amigos seus que andaram, em algum momento do passado, de bonde em direção ao centro de Salvador ou se encontraram na mesa de algum café da Rua Chile. Presidentes de província, governadores republicanos, donos de empresas de transporte ou algum nome menos famoso, eram todos narrados com uma desenvoltura que impressionava.

 

Alguns anos mais tarde, tive a felicidade de escrever em coautoria com ele e Fernando Oberlaender um livro sobre o petróleo na Bahia. Tinha a consciência do peso de ter meu nome ladeado ao dele, mas não tinha a menor ideia de um outro delicado desafio: escrever uma história para todos e com todos. A história – a escrita pelos historiadores profissionais – já fez, faz algum tempo, a crítica à pretensão de alcançar ou ser a verdade. Mas o efeito de realidade de uma história bem narrada, costurada com habilidade e leveza, é uma tarefa ainda importante. Cid Teixeira fazia isso muito bem.

 

Arrisco a dizer que o fonógrafo Cid tinha esse mesmo tom “íntimo” ao falar de Salvador, e isso cumpriu um papel social importante, pois dava a um público amplo uma memória histórica de uma cidade que passava por uma série de mudanças políticas, econômicas e urbanas significativas. Olhando retrospectivamente, a partir de 1950, o repertório de novidades não era pequeno: remodelações na paisagem com as transformações na arquitetura e nas artes modernas, construção de novas avenidas, expansão das fronteiras da cidade em direção ao litoral norte, novas perspectivas econômicas com a exploração do petróleo pela Petrobras e criação do CIA.

 

Simpático e habilidoso na oralidade, Cid Teixeira vinha a público manter na memória aquilo que, aos poucos, ia desaparecendo ou mudando aos olhos de muitos baianos, ou mais precisamente, soteropolitanos. E fazia mais: como bom contador de histórias que era, criava narrativas – em alguns casos, muito pessoais – de diversos  fatos  do  passado  para

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Pintura por Fernando Oberlaender

seus ouvintes, alunos ou quem mais tivesse a chance de ouvi-lo falar ou ler seus textos. A história pode ser uma forma de ordenar o passado para impedir o esquecimento e aumentar nosso sentimento de pertencimento. Esse ofício nobre e difícil, Cid Teixeira, mais uma vez, fez muito bem.

 

Nos últimos anos, o “Senhor História” se afastou um pouco da vida pública e se encontra hoje mais próximo da companhia dos livros, dos vinis e da família. Já perto de completar 92 anos, o historiador recebe mais uma lembrança por essas linhas. Não tive ainda a chance de agradecer por tudo que me ensinou. Pelos tantos relatos de seus ex-alunos, ouvintes e leitores dos seus livros, não tenho dúvida de que todos também têm muito a agradecer ao professor Cid Teixeira.

 

Muito obrigado.

 

 

Daniel Rebouças é professor de história e coautor do livro História do Petróleo na Bahia.

 

Dan e Cid