REVISTA ELETRÔNICA DA BIBLIOTECA VIRTUAL CONSUELO PONDÉ – N.2 OUT DE 2015. ISSN 2525-295X

HOMENAGEM

 

 

Professor Goulart

 

No dia 9 de julho de 2015, os historiadores João José Reis, Renato da Silveira e Rafael Fontes visitaram o professor Goulart em Monte Gordo, no Litoral Norte da Bahia. A intenção era entrevistá-lo, mas o professor tinha pronta uma história para contar. O que vai aqui transcrito é este depoimento com alguma pequena edição do texto e algumas poucas perguntas que foram deixadas  no final. Com este depoimento Bahia com História homenageia os professores nesta edição de outubro.

 

Alberto Goulart Paes Filho, 90 anos, era tenente-coronel quando foi reformado pela ditadura militar. Mas sua principal identidade é a de professor, inclusive de colégios militares. Após ser afastado do Exército, ele virou professor civil e empresário da educação. Foi sócio dos colégios Universitário e  Sartre. O homem que era um mito na sala de aula, foi referência de uma geração ávida por uma leitura crítica da história, num período marcado por mentiras oficiais sobre a história que então se vivia. Seus ex-alunos são unânimes: as aulas de Goulart eram bem preparadas, os assuntos transmitidos com entusiasmo e interpretados com rigor, e não um amontoado de datas e nomes. Agora aposentado, o professor continua se dedicando, como no passado, a ler jornais e revistas, cortar, colar, arquivar e comentar por escrito as notícias quentes do dia. Goulart nos recebeu no arborizado sitio em que vive com sua filha e, sob um alpendre que lhe serve de escritório e biblioteca, nos brindou com o depoimento aqui transcrito.

 

 

Nasci em Varginha, Minas Gerais. Meu pai era alfaiate, minha mãe era doméstica. Ele era um ótimo alfaiate. Foi um dos melhores alfaiates que a Bahia já teve. Viemos para aqui pequenos. Eu tinha uns sete, oito anos de idade, e como minha mãe era protestante, botou a gente no Colégio Americano [Colégio 2 de julho]. Eu fiz a carreira até o final do ginásio no Colégio Americano, eu e meus irmãos: Gilka, Victor e Saulo.

 

Morei na Barra Avenida, e no Garcia, em frente ao Colégio Dois de Julho. À noite, de sete às nove , eu ia fazer banca lá no colégio, junto com o pessoal interno.  Eu era o primeiro aluno da sala, vez ou outra o meu irmão se aproximava das minhas notas e ficava com média mais ou menos igual, mas eu era o bom da sala.

 

No final do ginásio, aconteceu uma tragédia em minha família, meu pai abandonou minha mãe. Eu estava com 16 anos de idade e os outros todos pequenos, passamos por uma fase dificílima, porque ele abandonou e dava o mínimo necessário. Resultado, nós, os filhos,  resolvemos criar nossas situações. Eu fui para o exército, Escola Preparatória de Cadetes, em Fortaleza- Ceará, o mais velho fez concurso para o Banco do Brasil, foi ser funcionário no Banco, minha irmã casou-se muito cedo   e o outro foi trabalhar numa base americana que tinha aqui em Salvador, na época da Guerra Fria. Fui para o exército, mesmo sem vocação, em virtude deste problema familiar. Fiz carreira militar.

 

Fui  para a escola preparatória de cadetes em Fortaleza. Passei um ano. Como eu era bom aluno, passei com média e fui direto para a Escola Militar das Agulhas Negras, em Resende, Estado do Rio de Janeiro. Lá eu terminei o curso completo e saí aspirante, candidato a segundo tenente. Após o estágio preparatório, fui promovido a segundo tenente aqui na Bahia. Quando eu cheguei a primeiro tenente,  cheguei à conclusão que o exército estava sendo pouco para mim. Porque eu gostava de estudar, resolvi fazer vestibular na UFBA, para ciências sociais. Passei e fiz o curso ainda militar no exército. Mas quando cheguei ao final do curso, eu fui escolhido orador da turma, e aí aconteceu uma coisa surpreendente.

 

  

 

 

Por volta de cinquenta e poucos, não lembro bem, foi entre 53, 54 por aí. Bom, surpreendentemente, uma semana antes da formatura eu fui chamado no quartel general – nesse tempo eu já era capitão. – “O comandante da região, o general quer falar com o senhor”. O comandante da região, Nilo Horácio de Oliveira Sucupira era o nome dele. Ele olhou pra mim e disse: – “venha cá, eu soube que você vai ser orador de turma num curso na faculdade, chamado de ciências sociais. Você está aqui, um oficial querendo estudar ciências sociais, eu não entendi, e eu quero ouvir seu discurso antes da formatura”.

 

Eu olhei pra ele e disse (nesse dia eu tive que mentir): – “general, o discurso não está pronto e, além disso, não são palavras minhas, são palavras de todas as turmas que irão se formar, fui escolhido para representar vários alunos, não é minha ideia pura”. Fala do general: – “então vou lhe dizer uma coisa”: “se você, na hora da formatura, disser alguma coisa que eu não concorde, eu vou cassar sua palavra na hora, você vai passar por esse vexame ”. Eu voltei e reuni a turma: – “aconteceu isso, isso e isso e a possibilidade dele cassar minha palavra existe, porque ele  conhecido com um general arbitrário e por ser um cara “retado”. Aí, uns dois ou três  da turma, se levantaram e disseram: “você deixa uma cópia do seu discurso comigo, porque se ele cassar a sua palavra eu peço a palavra e continuo o discurso”. Aí choveram palmas.

 

Então, lá fui eu para a formatura, o pessoal com cópia do discurso também. -“Tem a palavra o orador da turma senhor Alberto Goulart Paes Filho”, eu olhei o auditório, o general não tinha ido, mas mandou um coronel fardado pra sentar na primeira fila, para ficar ouvindo o discurso, evidentemente, com a obrigação de me cassar. Mas, eu estava tranquilo, porque os outros estavam com o discurso na mão, e quem ia passar pelo vexame era o general. Sabe qual foi o título do meu discurso? “E as criancinhas de corpos nus”. Eu fazia uma análise da sociedade brasileira, estava me formando em ciências sociais, tinha a obrigação de colocar alguma coisa ali, naquele momento, do que eu estudei, do que eu vi. Então, eu fiz uma análise da sociedade burguesa, mostrando como os donos dos meios de produção se apropriavam do controle da economia do Estado, sacrificando as outras classes. Continuei o discurso. O coronel, acho que ele não entendeu, mas eu não fui cassado.

 

Depois de quatro ou cinco dias. o comandante da região, o General, disse que queria falar comigo. Guardem bem o nome dele, Nilo Horácio de Oliveira Sucupira. A turma dizia que ele era madeira de dar em lei [sic], que esse era o apelido dele no quartel. Quando eu entrei no gabinete, ele virou-se para mim e disse: – “eu li o seu discurso”. Ele mandou tirar uma cópia na reitoria. – “O senhor nunca mais vai ser nada dentro do exército, pode se retirar”. Ele só me disse isso, “o senhor nunca vai ser nada dentro do exercito”, como se quisesse dizer assim, eu vou lhe botar para fora, entendeu? Depois disso eu fui pra casa. Pensei: e agora? Eu era solteiro, então pensei: sabe de uma coisa, eu vou tentar sobrevier no exército como professor. Eu cheguei à conclusão de que eu seria uma pessoa útil, para esclarecer mais os jovens que vão chegando para fazer carreira.

 

Quando eu fui fazer concurso para professor do magistério no colégio militar, tive que defender tese, tive que dar uma aula prática, fazer vários exames e prova escrita. Quando chegou a hora da defesa da minha tese, deparei-me com quatro professores, todos eram professores do colégio militar do Rio de Janeiro, sendo que um deles era general reformado, mas continuava ensinando. Esse era o presidente da banca.

 

Os três professores mais jovens me inquiriam e eu respondia. Quando chegou na hora do general, ele pegou a minha tese, jogou no chão e disse: “Isto é um absurdo, como o senhor tem a audácia de vir fazer um concurso para o magistério do colégio militar defendendo uma tese como essa?”, começou a esculhambar, só fez me esculhambar.

 

 

 

Quando chegou a hora de dar as notas foi que ele se campou, porque começou pelos outros três professores, ele foi o último a dar nota. O primeiro avaliador me deu dez, o segundo, nove e o terceiro, dez, todos em voz alta. Na hora dele dar a nota, ele se sentiu sem jeito de me dar nota pequena, já que os demais haviam me aprovado. Ele ficou ‘retado’ e ainda me deu nota sete. Terminei a defesa e consegui. Voltei para a Bahia para ser professor do Colégio Militar de Salvador.

 

Assumi a cadeira de professor aqui. Nessa época o general era outro, chamava-se general Abdom Sena. Eu não sabia que esse general, Abdom Sena, tinha dado instruções ao comandante do colégio militar para me vigiar. Na época ainda não tinha acontecido o golpe. Isso aconteceu perto do Golpe de 1964, entre os anos 60, 61, por aí, perto do Golpe.

 

Eu, não sabendo de nada, assumi a cadeira do 4º ano do ginásio e comecei a dar minhas aulas. Havia uma parte do programa sobre História contemporânea, então o que é que eu fazia, como bom professor: se o assunto fosse aulas a independência dos Estados Unidos, pegava a declaração da independência, mimeografava e dava para os alunos fazerem comentários. Se eu fosse falar sobre a Revolução Francesa, eu pegava a declaração e dizia: vamos discutir. Era assim. Sobre a Revolução Soviética tinha o quê? O Manifesto Comunista de Marx. Eu mandei rodar aquele texto e distribui entre os alunos, para discutirem, foi a conta.

 

Mas, o coronel, sabe o que ele fez? Mandou recolher todas as apostilas, inclusive as que estavam nas casas dos alunos. Recolheu aquela zorra toda. O  chefe da diretoria do ensino do exército, lá no Rio de Janeiro, chamava-se Humberto de Alencar Castelo Branco. Quando eu soube do que havia feito o comandante do colégio militar, eu apresentei uma queixa contra ele. Na queixa, baseei-me na minha didática, e não ia ocultar ao aluno o Manifesto Comunista, só porque era manifesto comunista.  A tese, a defesa era sobre isso, dizendo que ele foi arbitrário porque a constituição naquela época era clara, pois era assegurada a liberdade de cátedra, ponto final. Estava na constituição de 1946, botei na queixa e o comandante, foi obrigado a encaminha-la para a diretoria de ensino do exército .

 

 

Quando a queixa chegou ao Rio de Janeiro, recebi uma ordem para me apresentar na diretoria de ensino do exército, no Rio de Janeiro, para prestar esclarecimentos sobre o que aconteceu. Então, entrei no gabinete do general Humberto de Alencar Castelo Branco. Quando eu entrei, apresentei-me. Ele virou-se pra mim e disse, assim mesmo: -“como é que o senhor teve a audácia de distribuir o Manifesto Comunista de Marx para alunos de um colégio militar?” Foi assim que ele me recebeu. Eu me virei para ele e disse: - “general, Vossa Excelência por acaso leu a queixa que eu dei contra o comandante do colégio?” Eu não ia discutir com o general sem ele ter lido também os meus argumentos. Ele virou-se para mim e disse: – “não, eu não tive tempo não”.

 

Eu disse: eu só posso conversar com Vossa Excelência sobre o assunto depois que Vossa Excelência ler a minha defesa, minha queixa contra o comandante. Ele então disse: “Bom, o senhor vai ficar aí na biblioteca aguardando os acontecimentos”. Eu  ficava na biblioteca, totalmente isolado, das 13 às 17:30 da tarde.

 

Os militares do exército receberam instruções para não me procurar e não falar nada comigo. Era eu e a biblioteca. Eu olhava para as paredes e só tinha livro de militar, das guerras e de não sei o quê. Eu disse comigo, sabe de uma coisa, eu vou me preparar para fazer outras coisas. Daí eu fui para a fundação Getúlio Vargas e lá me matriculei num curso excelente, “Governo estadual, federal e municipal”, curso ótimo e tinha bons professores e o expediente no quartel era das 13:00 às 17:30  da tarde.

 

Então, pela manhã eu ia para o curso, estudava, lia aquela coisa toda, conversava com os professores. A tarde eu ia pro expediente. Lá, eu ficava estudando, foi bom porque eu tinha o que fazer. Mas eu fiquei irritado porque quando completaram trinta dias nessa situação, fiquei chateado e disse, sabe de uma coisa? Vou falar com esse general, vou pedir pra falar com ele. Ele me recebeu dizendo, “já sei, não tive tempo ainda de ler sua queixa, o senhor sabe ou pensa que eu só tenho o seu problema pra resolver?” Eu virei para o general e, tive um pouco de audácia realmente, eu virei para o general e disse: “general eu acho improvável que Vossa Excelência não tenha lido essa queixa”. Ele respondeu: “o senhor está muito ousado, muito, muito audacioso, o senhor retire-se e aguarde minha resposta hoje, no boletim das 16 horas”. Por que tinha um boletim que saia todo dia. Às quatro horas da tarde saiu o boletim: quatro dias de cadeia pela audácia. Havia uma droga de um camburão lá embaixo me esperando, não fui nem pra casa, morava com minha mãe, eu era solteiro.

 

E eu fui lá para a Vila Militar e passei quatro dias lá, e a ordem era ficar quatro dias sem que ninguém falasse comigo, e as minhas refeições deveriam ser feitas na cela. Eu fiquei quatro dias isolado, preso ali dentro da cela, tomando banho, comendo. Quando completaram os quatros dias, tive que me apresentar de novo ao Castelo Branco, ele chegou para mim e disse: – “o senhor vai continuar aguardando os acontecimentos”, foi mais ou menos isso que ele disse. Agora veja bem o que você vai fazer. Eu fiquei mais trinta dias, estudando, achando porreta. Só que quando completaram de novo trinta dias, eu pedi pra falar com ele novamente. Foto_1

 

Ele me recebeu. “Sim! O senhor continua achando que eu tenho que me preocupar com o seu problema, e o resto?” Eu disse: “general, Vossa Excelência me perdoe, mas eu tenho absoluta certeza que Vossa Excelência leu minha queixa, sabe que eu tenho razão, só que Vossa Excelência não quer me dar razão porque eu sou acusado de comunista, Vossa Excelência não quer se comprometer”. Nesse momento o homem ficou roxo, ele não tinha pescoço. Ele disse ainda: – “retire-se e aguarde o resultado hoje à tarde”. A tarde, às 16:00 horas, saiu o resultado: oito dias de cadeia! Eu fui para a Vila Militar. Foram oito dias naquela situação que lhe falei. Isolado, comendo dentro do quarto, tomando banho ali mesmo. Oito dias! Voltei e apresentei-me de novo, quem me chamou foi ele. Ele me chamou e disse: “olhe, resolvi mandar sua queixa para o ministro da Guerra resolver. O senhor aguarde que brevemente será chamado pra lá”. O ministro foi sensato, era o Ministro da Guerra de João Goulart! O que é que ele fez? Nomeou uma comissão de professores de História do Colégio Militar do Rio de Janeiro.  Quatro professores,  tiveram que julgar a queixa que eu dei, só que o julgamento foi a meu favor. Então o ministro me nomeou professor de História do Colégio Militar de Fortaleza.

 

Ao chegar em Fortaleza, fui apresentar-me ao comandante. Ele chegou pra mim e disse: “olha, o senhor vai assumir uma cadeira aqui, tenho ordens para o senhor trabalhar, produzir, mas tem uma coisa: se o senhor fizer o que o senhor fez no Colégio Militar de Salvador, o senhor vai sofrer as consequências”. Na mesma hora eu respondi para ele, que era tenente- coronel como eu : “olha coronel, se o senhor fizer a arbitrariedade que lá o comandante fez comigo, eu vou agir com o senhor da mesma maneira que eu agi lá”. Dei o troco, mas sabe que mês era aquele? Fevereiro de 1964. Fiquei dois meses dando aulas. Aluguei um apartamento na praia, estava solteirão, de noite eu ia para a praia paquerar as meninas, e foi aí que eu conheci a minha esposa atual.

 

Então, meu amigo, o tempo foi andando e em 31 de março de 1964, aconteceu o que você sabe. Dois ou três dias depois, o comandante me chamou com a cara alegre, só você vendo, e disse: “faça um favor, leia essa correspondência aqui. Lá fui eu preso de novo. Dessa vez foram poucos, fiquei só 4 dias preso. Invadiram meu apartamento para procurar documentos, mas não encontraram prova nenhuma, então me soltaram. Mandaram que eu me apresentasse no quartel  general de lá e aguardar o resultado do que poderia ocorrer. Pouco tempo depois saiu a resposta: aposentado do exército e cassados os meus direitos  políticos por dez anos. Bom, e o salário? Perdi todas as minhas gratificações. Fiz um cálculo e cheguei a conclusão que passava a ganhar como terceiro sargento. Eu não podia dizer nada, então casei e vim morar na Bahia. Foi quando eu conheci alguns colegas, alunos da universidade, e fizemos um acerto para fundar um colégio, foi o Colégio Sartre, Jean Paul Sartre. Quem deu o nome ao colégio fui eu.

 

 

Renato da Silveira. Deixe-me fazer uma provocação: Naquela época em que você e eu fomos presos, eles achavam que como eu também ensinava no colégio universitário, que eu fosse comunista, por que você já tinha a fama de ser, e por isso você devia esta na minha rede.

 

Goulart. Eu vou lhe contar o meu caso com você. Realmente, eu estava dando aulas e apareceram cinco homens da Policia Federal para me levar, em plena aula. Eu disse: “não, os senhores podem esperar um pouquinho”, faltavam 15 minutos para terminar a aula, e eles: “não, o senhor vai agora”. Larguei os alunos no meio da sala, no meio da aula e fui com eles, levaram-me para o 19BC, onde fiquei incomunicável. Sem saber o porquê da prisão. Então eu disse: “o que é que há rapaz, o que é que eu fiz?”.

 

João Reis. Quem era? O Luiz Arthur [chefe da Polícia Federal na Bahia no período] ?

 

Goulart. O Luiz Arthur chamou-me para ser ouvido. Eu tinha muita intimidade com ele. Eu o chamava de Lulu, foi meu colega no CPOR. Ele disse: “Goulart, é o seguinte, você vai ler aqui esse depoimento de um professor seu chamado Renato da Silveira, faça um favor”, era você me acusando, o que era falso, que eu era do MR8. Eu li aquele negócio e disse: “olhe, você me desculpe, mas esse documento só pode ser forjado, eu conheço esse professor, sei que é uma pessoa íntegra, ele não ia dizer uma coisa mentirosa dessa para se livrar de alguma coisa, não, pode ter certeza que esse aqui é um documento forjado”. Foi quando o Luiz Arthur reconheceu que eu estava certo e acabou me libertando.

 

 

Renato da Silveira.  Deixe-me contar o meu lado. Eles queriam te acusar de qualquer maneira, porque já tinham um ódio contra Goulart muito grande, então eles estavam me pressionando para eu acusar você, dizer que você era militante da organização. Nós tínhamos relações, eu distribuía os jornais clandestinamente, nós discutíamos sempre, mas você era contra a luta armada, você achava que era uma bobagem, você tinha razão, mas nós éramos jovens e estávamos entusiasmados para fazer a luta armada, mas você dizia que não concordava. Você era contra a ditadura, então nós tínhamos um diálogo, mas o que eu dizia a eles era o seguinte: “venha cá, como é que um cara que é contra a luta armada é militante da organização?” E eu ficava repetindo isso, até que eles me disseram que você tinha dito para eles: “então faça uma acareação com Renato”.

 

Goulart. Ah! Foi. Pedi uma acareação.

 

João Reis.  Eles não fizeram e você ficou com a certeza que aquilo realmente tinha sido armado.

 

Goulart. Foi isso aí, eu pedi uma acareação, e eles resolveram não fazer. E se eles fizessem eles iriam se campar. Mas não houve a acareação e eu sei que  fui solto.

Bom! Então, eles me libertaram e eu voltei para casa. Um belo dia houve eleições aqui na Bahia, eu estava muito bem na minha casa quando chegou uma escolta para me levar. Eu disse zorra, que foi que eu fiz agora? Fui preso no 19BC, quando eu cheguei lá encontrei o major Humberto de Andrade, estava preso também. Ele estava servindo aqui na Bahia, e prenderam-no. Passamos dois, três dias conversando, foi porreta, conversamos muito. Acabando a eleição, me soltaram. Mas eu não sabia que estava rolando no quartel general, um processo contra mim. Um belo dia, eu dando minhas aulas, , recebi um ofício para eu me apresentar. Eu estava sendo processado pela justiça militar.

 

João Reis. Qual era a acusação?

 

Goulart. Era subversão, comunista, esquerdista, esses negócios.

 

João Reis. Por causa da sua atuação como professor civil?

 

Goulart.

Eu já dando aulas no Colégio Sartre, não tinha mais nada a ver com o exército, entendeu? Eu tive os meus direitos políticos cassados, já tinha sido reformado, não tinha mais nada  mas, fui condenado a mais um ano e seis meses de cadeia. Não houve jeito, eu contratei Rui Pessoa, um rapaz que foi meu aluno e professor lá no colégio para ser meu advogado, para ele me defender. Advogado de nada adiantou, aquilo já era carta marcada. Eu fui condenado por quatro a zero. Todos quatro, juízes militares, me condenaram.

Mas o fato é que o rapaz fez a defesa bonitinha, mostrando a liberdade de cátedra, a constituição, mas não adiantou. Já estava programado, e fui condenado. Então, fui para a cadeia de novo, no 19BC. Naquele mesmo esquema: não me procuravam, ficava isolado o tempo todo. Tinha um banho de sol de vinte minutos, todos os dias. Eles colocaram uma guarda armada de quatro soldados, um em cada canto, enquanto eu jogava bola por vinte minutos, após esse tempo, diziam “pode ir embora para a cela, vai lá pra cela”. Na cela eu estudava, fazia o que podia enquanto estava tramitando o processo em Brasília, porque eu apelei para o Supremo Tribunal Militar. Três meses e quatorze dias depois saiu o resultado, fui libertado por sete a um, absolvido com esse placar, aqui eu fui condenado por quatro à zero. Você vê que diferença? Agora, por quê? Por que lá os juízes eram  militares reformados, por isto tinham mais independência no votar, os militares daqui estavam em serviço ativo. Só um brigadeiro votou contra mim, os outros  votaram a meu favor. Sete a um, aí pronto, me livraram, e até chegar a anistia, em 1979, não me incomodaram mais, não tive mais prisão, acabou. Quando saiu a anistia em 1979, voltei a ter os meus direitos políticos e recebi uma excelente indenização, tudo que eu tinha que receber nesse período de 1964 a 1979, corrigido.

 

João Reis. Goulart, fala-me um pouco sobre o que acha do que aconteceu depois da ditadura? Ascensão do PT, os governos de José Sarnei, de Fernando Henrique Cardoso. Como é que você vê?

 

Goulart. Eu acho que de qualquer maneira é uma experiência democrática que está acontecendo e que não se sabe o desfecho. Porque, por exemplo, o lulismo, o lulismo eu acho até que começou bem, mas hoje em dia os compromissos são fortes e está havendo um pouco de deturpação daquela ideia inicial do operário ter mais força política. Eu acho que hoje o movimento não é como no começo, mas de qualquer maneira, temos aí a liberdade de imprensa. Os militares estão calados, e não se sente pressão dos militares sobre Dilma de jeito nenhum. Ela está comprometida também com PMDB, com o PSD, fez uma espécie de acordo com essas pessoas, com esses partidos. Agora, as expectativas de tendências socialistas são muito remotas, muito remotas.

 

Renato da Silveira. O ideal de socialista caducou!

 

B com H. Professor, o senhor ainda é comunista?

 

 

 

Goulart. Não sei como lhe responder, porque a palavra comunista eu tenho uma série de colocações que fico meio na dúvida de usar. Eu gostaria que ficasse assim: eu sou um cara socialista no sentindo de tentar ver o mundo mais justo, mais solidário, entende?  Tenho inclusive um artigo onde eu coloco essa função de nós desejarmos, como intelectuais, que as coisas evoluam de tal modo que a cooperação entre todos para o beneficio de todos sejam o ideal para a humanidade. A ideia é mais ou menos essa.

 

João Reis. Mas o senhor já foi comunista alguma vez?

 

Goulart. Não, nunca entrei em partido comunista.

 

João Reis. Mas enquanto ideologia apenas, não enquanto partido, marxista. O que foi que sobrou do marxismo hoje na sua cabeça?

 

Goulart. Sobrou essa expectativa de que a humanidade adquirisse consciência, de que seja possível o homem se organizar de tal modo que promova o bem estar de todos, indiscriminadamente, sem privilegiar esse ou aquele grupo. Isso seria o socialismo utópico, mais ou menos utópico, mas a humanidade não está caminhando pra isso, está?

 

B com H. Por que o senhor nunca entrou em partido?

 

Goulart. É o seguinte: nunca entrei porque eu sempre fui uma pessoa muito independente, não me sentia disposto a obedecer, essas coisas eram muito rígidas. Se me filiasse eu teria que obedecer e fazer as coisas como tinham que ser feitas e eu não gostava disso, então eu fiquei independente a vida toda, nunca pertenci a nenhuma instituição desse tipo, nenhuma. Era uma questão pessoal.

 

B com H. Mas o senhor sentia mais afinidade com algum partido?

 

Goulart. Não, eu fazia questão da minha independência. E você tem sempre que levar em conta que eu sempre fui militar. O militar tem uma educação meio rígida, você fica responsável, sabe que naquele horário você tem que fazer isso, aquilo e aquilo outro, então como militar eu assumi muito isso, e nesse aspecto de ter que obedecer, servir por imposição eu não conseguia aceitar. Nunca, nunca aceitei.

 

João Reis. Eu lembro-me que você era um excelente professor, aliás, você me convenceu a fazer História, não sei se você se lembra disso, mas foi você quem me convenceu, inclusive conseguiu com Katia Matoso uma bolsa para eu estudar na Universidade Católica do Salvador.

 

Goulart. É verdade, eu me lembro de pedir a Katia Matoso.

 

João Reis. Pois é, você me levou na casa dela e disse “esse aluno meu está querendo fazer História, não tem como pagar, queria que você arranjasse uma bolsa de estudo para ele” e ela arranjou uma bolsa pra mim.

 

Goulart. Saudosa Kátia Matoso!

 

 

Este depoimento foi gravado e a transcrição feita por Reginaldo Sales

 

As fotos são de Rafael Fontes e Mariângela Nogueira