REVISTA ELETRÔNICA DA BIBLIOTECA VIRTUAL CONSUELO PONDÉ – N.1 JUL DE 2015. ISSN 2525-295X

HOMENAGEM

 

CONSUELO PONDÉ – O IGHB, A HISTÓRIA DA BAHIA E O DOIS DE JULHO

 

Nessa quinta-feira, 2 de julho de 2015, os festejos em comemoração à Independência do Brasil na Bahia não terão o mesmo brilho que experimentaram nos últimos 19 anos. No largo da Lapinha, aos pés do Monumento aos Heróis da Independência, não se ouvirá a voz inconfundível da professora Consuelo Pondé de Sena pronunciando o seu tradicional discurso em homenagem aos Heróis da Pátria.

 

O Tempo, senhor de todos os juízes, virou-lhe a ampulheta com as areias da vida pela última vez. A presidente perpétua do Instituto Geográfico e Histórico da Bahia, no dizer do professor Edivaldo Boaventura, seu dileto e fiel amigo por mais de 50 anos, faleceu nesta Cidade do Salvador, ou da Bahia para muitos, na manhã de 14 de maio de 2015. Diria que esperou que se completassem os 121 anos de ininterruptos serviços prestados à Bahia pelo IGHB, para finalmente partir para o outro lado da vida.

 

Nasceu nesta mesma cidade, a que tanto amou e defendeu, a 19 de janeiro de 1934, terceira dos nove filhos do casal Maria Carolina Montanha Pondé e Edístio Pondé. Graduou-se em Geografia e História pela Universidade da Bahia, tornando-se depois mestre em Ciências Sociais e especialista no estudo da língua Tupi. Foi discípula e sucessora do professor Frederico Edelweiss, a quem substituiu no ensino da língua primeira na Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Federal da Bahia.

 

Alternou a carreira de professora e pesquisadora com a de gestora pública em diversos órgãos e entidades, como o Departamento de Antropologia e Etnologia e o Centro de Estudos Baianos da UFBA, onde lutou bravamente pela preservação do seu rico acervo. Diretora da Associação Baiana de Imprensa – ABI; Membro do Conselho Permanente da Mulher Executiva e do Conselho Geral da Associação Comercial da Bahia; Diretora da Casa de Ruy Barbosa da Bahia e Diretora do Arquivo Público da Bahia.

 

Mas sem a menor sombra de dúvida foi na presidência do Instituto Geográfico e Histórico da Bahia – IGHB, a mais antiga instituição cultural do estado da Bahia, com 121 anos de funcionamento ininterrupto, desde a sua fundação em 13 de maio de 1894, que a professora Consuelo Pondé de Sena exerceu em total esplendor a sua capacidade de liderança e realização. Foi na Casa da Bahia [IGHB], instituição que frequentou desde a infância, pois para lá era levada por seu pai, que ela pode se dedicar a duas de suas grandes paixões: a História da Bahia, de sua capital, das mulheres e homens que se notabilizaram através dos séculos. E também aos fatos e eventos do processo de Independência do Brasil na Bahia, e suas comemorações no dia Dois de Julho.

 

Não foi sem muito sofrimento, aborrecimentos e desgaste da própria saúde que a professora Consuelo Pondé se manteve a frente da Casa da Bahia por 19 ininterruptos anos, sendo repetidamente reeleita por cinco mandatos.

 

Contudo, a sua longa gestão foi a mais frutífera e luzidia de tantas que o IGHB tem vivenciado. Existe um momento anterior e outro posterior à passagem de Consuelo Pondé de Sena a frente dos destinos da Casa da Bahia. Como que a Fênix mitológica, a mais antiga instituição cultural da Bahia renasceu sob o signo da professora Consuelo. Ampliou-se largamente a sua participação na vida cultural baiana e soteropolitana. Congressos, simpósios, seminários, mesas-redondas, palestras, cursos, exposições, publicações, lançamentos de livros. Um sem número de atividades que se tornaram frequentes, e para as quais acorriam o público mais variado, desde os jovens estudantes universitários, a pesquisadores renomados e pessoas interessadas na história.

 

A cooperação, o diálogo e o estreitamento de relações com instituições afins, se deram em plano local, estadual, regional, nacional e internacional. Assim o comprovam os trabalhos realizados em parceria com o Gabinete Português de Leitura da Bahia e com o próprio Consulado Geral de Portugal na Bahia.  Com o Museu AfroBrasil de São Paulo; com a Casa da Áustria na Bahia; com diversos Institutos Históricos de todo o país – notadamente o Instituto Histórico Brasileiro e o Instituto Histórico de Sergipe. De igual maneira foi ampliado de forma consistente e qualificada o quadro de sócios brasileiros e estrangeiros.

 

O patrimônio material mereceu especial atenção, o verdadeiro Palácio em que se constitui a sede do IGHB foi paulatinamente modernizado. Rampas e corrimões de acesso foram instalados na entrada; elevadores; sanitários no andar superior; copa; alojamento e sanitário para os funcionários; sistema de monitoramento eletrônico; instalação de sistema de informática; contratação de sistema de segurança e vigilância remoto; modernização do sistema de iluminação e de som do auditório Bernardino de Souza. Foi criado o Setor de Geografia, a cargo do professor Guarani Valença de Araripe; o acervo cartográfico e fotográfico foi digitalizado e cadastrado. Bem como o conjunto das “Cadernetas de Campo” do engenheiro Teodoro Sampaio, que teve as suas cinzas transladadas e hoje se encontram em urna funerária no Patheon Pedro Calmon. Todo o acervo mobiliário, juntamente com a pinacoteca, foi identificado, descrito e catalogado. O rico acervo bibliográfico da Biblioteca Ruy Barbosa foi sistematicamente tratado, restaurado e conservado. Os seus mais de 30 mil títulos, foram incluídos em moderno sistema de catalogação digital e disponibilizados na página eletrônica do IGHB na internet. Sendo possível com isso consultá-lo de qualquer parte do mundo. Ao lado disso, publicou-se o Catálogo de Obras Raras, instrumento de grande importância para a preservação das mesmas.

 

Dona de uma personalidade invulgar, naturalmente marcante. Alternava momentos da mais contagiante alegria, simpatia e desprendimento com outros de absoluta explosão. Baiana sincrética se dizia filha de Yansã Bále, a senhora dos raios, ventos e tempestades, também chamada de Oyá, Bamburucema, Kaiango, Matamba. Se tal afirmação provinha de revelação feita pelo Jogo do Ifá, ou apenas da percepção da evidente semelhança que existia entre as suas características pessoais com as da divindade da religião afro-brasileira, não sei dizer. Contudo, foi por essa razão que a professora criou uma das tradições do seu governo à frente do IGHB – o Caruru de Santa Bárbara, servido todo dia 4 de dezembro no horário do almoço. Ocasião em que ela invariavelmente se trajava de vermelho, cores atribuídas à Santa Católica e também ao Orixá.

 

Não descuidou de nenhuma das dimensões do legado e do ímpar e riquíssimo acervo do Instituto Geográfico e Histórico da Bahia – IGHB. Razão pela qual se bateu incansavelmente, através de seus artigos nos jornais e pessoalmente, com políticos e empresários, que esquecidos de suas obrigações para com a sociedade da qual fazem parte, negaram – e negam – o devido e merecido apoio ao IGHB. De alguns desses embates eu fui testemunha e partícipe. Em uma dessas ocasiões, servi como mensageiro de um “cartão de agradecimento”, que ela escrevera de próprio punho, para uma certa vereadora de Salvador, que se dizia defensora das questões ligadas aos afrodescendentes. Mas que de forma grosseira e mal educada não se dignou a responder aos reiterados pedidos de ajuda para a realização de um seminário em memória do primeiro homem negro a se eleger vereador em Salvador, o ilustre filho de Santo Amaro da Purificação Manuel Raimundo Querino, nobre e valoroso por seus próprios méritos.

 

Foi em sua gestão, e em decorrência da sua paixão pela história da Independência do Brasil na Bahia, que os símbolos maiores do Dois de Julho, o casal de caboclos e seus carros emblemáticos, passaram por minucioso processo de restauro. Conduzido pelo professor José Dirson Argolo da Escola de Belas Artes da UFBA. Também em sua gestão, pela primeira vez, tais emblemas do amor cívico dos baianos deixaram seu local de descanso no Panteon da Lapinha, no ano de 2004, para tomar lugar na exposição Brasileiro, Brasileiros do Museu AfroBrasil, no Pavilhão Manuel da Nóbrega no Parque do Ibirapuera, em São Paulo. Foi ainda por sua permanente luta que a data maior dos brasileiros baianos foi reconhecida como data nacional através de projeto de autoria da deputada Alice Portugal. Contudo um dos seus sonhos, projeto acalentado por muitos anos, ficou sem ser concretizado. A construção do Memorial ao Dois de Julho, a ser edificado em substituição ao Pateon da Lapinha.

 

Esta homenagem é uma demonstração de gratidão e reconhecimento pelo muito que ela fez pela História e Cultura da Bahia. E de reverência perene aos tantos outros mulheres e homens, que ao longo de nossa história de mais de cinco séculos, souberam dar de si, pelo crescimento da nossa terra.

 

Jaime Nascimento, historiador e sócio do IGHB.