REVISTA ELETRÔNICA DA BIBLIOTECA VIRTUAL CONSUELO PONDÉ – N.1 JUL DE 2015. ISSN 2525-295X

REPORTAGEM

 

 

O CABOCLO, O DOIS DE JULHO E O CANDOMBLÉ

 

Taiana Figueredo, com a colaboração de Rafael Fontes

 

Presente nas comemorações da Independência da Bahia desde 1824, o caboclo – esculpido à imagem do índio Caramuru – representa a vitória nas guerras de Independência e o surgimento da nova nação. A fim de relembrar a entrada do exército pacificador em Salvador, a população enfeitou uma carreta, tomada do inimigo na batalha de Pirajá, puseram sobre ela um idoso de descendência indígena e levaram-na, em cortejo, da Lapinha ao Terreiro de Jesus. O ritual se repetiu no ano seguinte e, em 1826, foi esculpida a imagem do caboclo que circula nas ruas até os dias de hoje. Vinte anos depois, em 1846, a imagem da cabocla – índia Paraguaçu, esposa de Caramuru – foi inserida no cortejo por sugestão do tenente general José de Andrade, português naturalizado brasileiro, para representar os laços entre brasileiros e portugueses e atenuar o sentimento de revolta lusitano.

 

Esta é a história contada por Manuel Querino em seu livro Bahia de Outrora. Pesquisa mais recente do historiador canadense Hendrik Kraay aponta em outra direção. Segundo ele, “é bem provável que o primeiro caboclo fosse uma cabocla”. Veja entrevista completa do historiador neste número da revista.

 

Mas, além de ser o símbolo dos heróis da Independência da Bahia, o caboclo evidencia outra face do Dois de Julho, a religiosa.

 

Em entrevista recente à Folha Literária, publicação da Fundação Pedro Calmon/Secretaria de Cultura do Estado da Bahia (FPC/SecultBa), o professor Jocélio Teles dos Santos, do Departamento de Antropologia da UFBA, esclareceu que os terreiros de candomblé, juntamente com o processo da Independência da Bahia, recriaram um índio que a sociedade brasileira imagina conhecer. “O autóctone (índio) deixou simplesmente de ser aquele que não se deixou dominar no processo de colonização para representar o “dono da terra”. E essa pluralidade de significados pode ser observada no dia da comemoração”, afirmou Jocélio Teles. Segundo seus estudos, muitos adeptos das religiões afro-brasileiras participavam do desfile vestidos como índios para celebrar o caboclo, realizando rezas com palavras em português e tupi, dando gritos de guerra e sambando o “samba de caboclo”. Ainda hoje, terreiros de candomblé cultuam o caboclo como o “dono da terra”, prestando homenagens com oferendas de frutas, adornos, rezas, pedidos e reverências.

 

Terreiros – Para Carla Nogueira, ekede do terreiro Bate Folha, fundado em 1916 no bairro da Mata Escura, o fato de o caboclo do Dois de Julho ser indígena fortalece sua ligação com toda a nação brasileira. “Ele é o filho da terra e do Brasil. Quando ele se manifesta, ele demarca que é brasileiro e renova o sentido de ser brasileiro para nós também, então cultuá-lo é uma prática de vida extremamente gratificante e energizante, porque as forças da natureza te direcionam e te renovam”, explica Carla Nogueira.

 

 

 

Já no terreiro do Bogum, fundado em 1835 e localizado no bairro do Engenho Velho da Federação, em Salvador, o caboclo do Dois de Julho é considerado ainda como o ‘caboclo mensageiro’ e as homenagens a ele duram o dia todo. “É uma data muito importante para nós, que nos traz sensações muito fortes. Aqui no Bogum nós levamos a data muito a sério, e prestamos homenagens ao caboclo com frutas, oferendas na praia e samba de viola desde as 13h até à noite”, conta Mãe Índia, líder espiritual do Bogum. A religiosa, que há 13 anos comanda o terreiro, conta que faz parte da quarta geração da casa e que durante esse período a festa do caboclo cresceu de forma surpreendente. “A gente faz a festa do caboclo desde a época da minha mãe de santo e da minha avó, mas não era tão aberta como é hoje. Antigamente, elas faziam algo bem mais restrito, e foi da minha gestão pra cá que a gente passou a fazer essa grande, que já é conhecida. Dois de Julho hoje, aqui no Bogum, parece festa de largo”, conta Mãe Índia.

 

Mas não foi só no Bogum que o caboclo foi festejado discretamente, em muitos terreiros foi e ainda é. Segundo o discurso de terreiros mais tradicionais, não é proibido festejar caboclos, mas não faz parte do ‘ritmo da casa’, da tradição. É possível que este discurso remonte aos anos trintas e ao II Congresso Afro-brasileiro, desde quando terreiros mais tradicionais reivindicam uma ortodoxia legitimadora da identidade africana.

 

Outra face da mesma moeda, conta o antropólogo e historiador Nicolau Parés, do Departamento de Antropologia da UFBA, é que o culto é também muito africano. Entre os povos da África ocidental havia o costume de celebrar divindades autóctones sempre que se deslocavam ou conquistavam uma terra.

 

“Nós cultuamos porque eles são os donos da terra. O caboclo é da terra, eles estavam aqui quando chegamos. Eles têm para mim muito valor, com respeito aos orixás e nkisis, mas a festa dos caboclos eu faço com muita satisfação e dever, com muito dever. Eles também são nossos ancestrais, não é? A casa angola que cultua os caboclos não faz mais que a sua obrigação, seu dever”, diz Nengua Zulmira, Mameto N’kisi do Terreiro Tumbeci em Lauro de Freitas.

 

 

Festas – Mãe Índia lembra que a importância do Dois de Julho é ainda maior para ela, por ser também a data do seu aniversário e pela ligação entre o seu nome e o caboclo indígena. “Apesar do meu nome não ser realmente ‘Índia’, desde pequena me chamam por esse apelido. E é uma energia, uma sensação muito boa ter nascido no dia dele. Acho que nasci no dia certo, na hora certa, com o nome certo”, brinca Mãe Índia. “Para mim é uma honra ter nascido na data da festa do caboclo. Na verdade eu nem comemoro meu aniversário, toda festa que fazemos é para ele”, conclui.

 

A relação entre o caboclo do Dois de Julho e as religiões afro-brasileiras, durante muito tempo, foi motivo de tensões nos festejos da Independência. Segundo historiadores, a principal crítica ao aspecto religioso da festa era que o entrelaçamento do caboclo do Dois de Julho com o caboclo do candomblé deformava o caráter cívico da data. Talvez por conta disso, em 1923, as imagens dos caboclos não chegaram a desfilar, sendo promovida em seu lugar uma procissão marítima com a imagem do Senhor do Bomfim.

 

Mas, apesar dos conflitos de opiniões entre a população, as figuras do caboclo e da cabocla permanecem de forma reinante no cortejo de Independência, percorrendo todos os anos em seus carros alegóricos o caminho da Lapinha ao Campo Grande, onde foi inaugurado, há 120 anos, um monumento em sua homenagem, seguindo como o representante que une os dois lados da Independência da Bahia, o civil e o religioso.