REVISTA ELETRÔNICA DA BIBLIOTECA VIRTUAL CONSUELO PONDÉ – N.3 MAR DE 2016. ISSN 2525-295X

SINGULAR

 

 

DE VOLTA AO GANTOIS 75 ANOS DEPOIS

 

Alcione Amos

 

Bahia-Mae Menininha and Candomble priestesses

Da esquerda para a direita: Hilda de Oxum; Celina de Oxalufã; Carmen, filha de Mãe Menininha e atual ialorixá do Gantois; Mãe Menininha; Cleusa, a filha mais velha de Mãe Menininha e sua sucessora na liderança do terreiro; América de Obaluaê. Ajoelhadas na frente: Floripedes de Oxossi; e Titia Amor de Obaluaê. Foto de Lorenzo Turner, 1940-41. Acervo do Anacostia Community Museum da Smithsonian Institution.

 

Durante a sua estada em Salvador, Bahia, em 1940-41 Dr. Lorenzo Dow Turner visitou várias casas de culto de Candomblé, incluindo o Gantois (Ilê Axé Omim Iyá Massê), fundado em 1849 por Maria Júlia da Conceição Nazaré. Desde então, a liderança do Gantois tem seguido uma tradição hereditária consanguínea, em que as governantes são sempre do sexo feminino. Em 1940-41, Mãe Menininha (Maria Escolástica da Conceição Nazaré), bisneta da fundadora, era ialorixá ou líder da casa. Dr. Turner passou horas a entrevistá-la. Ele também tirou várias fotos dela e das pessoas que viviam no terreiro. Uma dessas fotografias, reproduzida aqui, apresenta Mãe Menininha e sete outras mulheres vestindo trajes tradicionais. Esta fotografia e muitas outras fazem parte das coleções do arquivo do Anacostia Community Museum da Smithsonian Institution em Washington, D.C.

 

Em 18 de novembro de 2015, 75 anos após a visita do Dr. Turner ao Gantois, estive lá para uma entrevista com a filha de Mãe Menininha, Mãe Carmen de Oxalá (Carmen da Conceição Nazaré de Oliveira), trineta da fundadora do Gantois e, atualmente, ialorixá da casa. Ela está na liderança desde 2002. Esta incrível oportunidade foi possível porque eu estava em Salvador para a abertura da exposição de que sou curadora, Gullah, Bahia, África, que conta a história da vida e do trabalho do Dr. Turner, incluindo sua visita à Bahia. A exposição está viajando pelo Brasil sob os auspícios da Embaixada Americana, e em Salvador estava sendo mostrada no Palacete das Artes sob os auspícios da Fundação Pedro Calmon. Quem me levou ao terreiro foi Déa Márcia Federico que é equede do Gantois, uma posição importante na hierarquia da casa.

 

Mãe Carmen, ainda muito jovem aos 86 anos de idade, recebeu-nos gentilmente para uma entrevista, que durou quase uma hora. Disseram-me que isto não é comum; ela não tem muito tempo para visitantes por conta de suas atividades como líder da casa e de sua comunidade. Mãe Carmen exalava carisma, paz e segurança de que tudo ficaria bem. Eu fiquei muito emocionada quando ela me disse durante a entrevista que, quando olhou para mim, sabia que eu era confiável e que poderia lidar comigo sem preocupação. Ela ficou encantada quando lhe apresentei uma cópia da fotografia tirada há tanto tempo pelo Dr. Turner e começou a identificar as mulheres na foto e, para minha surpresa, ela mesma. Ela lembrou bem o dia em que Dr. Turner veio para a entrevista, e descreveu a cena de sua mãe que canta em um microfone de uma engenhoca antiga,

 

Mãe Menininha gravando. Foto de Edward Franklin Frazier, 1940-41. Acervo da Howard University.

 

colocado no final de uma longa vara. Esta cena é mostrada em uma foto na coleção do companheiro de pesquisa do Dr. Turner na época Dr. E. Franklin Frazier, que está sob a guarda do Centro de Pesquisa Moorland-Spingarn, da Howard University também em Washington, D.C.

 

E assim Turner, representado por esta fotografia, regressou ao local da sua investigação de 75 anos atrás. Salvador está muito mudada desde aquele tempo, ele não a teria reconhecido. O que teria sido periferia da cidade em 1940-1941, o bairro da Federação, onde o Gantois está localizado, é agora muito perto do centro, conectado a este por grandes avenidas que seriam estradas não pavimentadas na época, e cercado por edifícios altos. O Gantois teve o seu valor histórico reconhecido pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional em 2002, e Mãe Carmen recebeu a Medalha Cinco Continentes da UNESCO em 2010. Dr. Turner ficaria feliz em saber que as tradições por ele pesquisadas ​​e registradas em 1940-1941 ainda são mantidas pelos membros do Gantois.

 

 

Alcione Meira Amos é curadora do Anacostia Community Museum, Smithsonian Institution, Washington D.C. e autora do livro Os que voltaram: a história dos retornados afro-brasileiros na África Ocidental no século XIX.

 


 

AMPLIANDO CONHECIMENTOS

O uso da fotografia em terreiros de candomblé é tema de alguns trabalhos acadêmicos:

 

A FOTOGRAFIA E SEUS USOS NO CANDOMBLÉ DA BAHIA

Lisa Earl Castillo

 

FOTOGRAFIA E CANDOMBLÉ: MODERNIDADE INCORPORADA?

Eliane Coster

 

FOTOGRAFIA: VER E SER VISTO NO CANDOMBLÉ

Ivete Miranda Previtalli e Syntia Alves

 

IMAGÉTICA DO CANDOMBLÉ : UMA CRIAÇÃO NO ESPAÇO MÍTICO-RITUAL

Denise Conceição Ferraz de Camargo