REVISTA ELETRÔNICA DA BIBLIOTECA VIRTUAL CONSUELO PONDÉ – N.5 FEV DE 2017. ISSN 2525-295X

SINGULAR

 

 

MAPEAMENTO DA DANÇA – Pesquisa inédita apresenta diagnóstico da dança em oito capitais brasileiras

 

Lúcia Matos e Gisele Nussbaumer

 

FLYER_divulga_relatoriomapeamento_FINAL A Universidade Federal da Bahia (UFBA) e a Fundação Nacional de Artes (FUNARTE), a partir de Cooperação Técnica, lançaram em 2016 o Mapeamento da dança: diagnóstico da dança em oito capitais de cinco regiões do Brasil, pesquisa inédita coordenada por Lúcia Matos e Gisele Nussbaumer. O objetivo foi realizar um cadastramento de agentes da dança (indivíduos, grupos e instituições) e analisar aspectos sociais, econômicos e artísticos da área a partir de oito capitais de cinco regiões do país: Sul (Curitiba), Sudeste (São Paulo e Rio de Janeiro), Centro-Oeste (Goiânia), Nordeste (Salvador, Recife e Fortaleza) e Norte (Belém). Para o desenvolvimento desse trabalho, foi formada uma rede nacional envolvendo 25 pesquisadores, um técnico e 59 alunos de graduação oriundos de dez universidades públicas e uma privada.

 

É importante ressaltar que vivemos no Brasil, desde 2003, um amplo e ao mesmo tempo descontínuo debate nos segmentos culturais e artísticos sobre a necessidade de políticas públicas específicas para cada área, e de representatividade nas instâncias consultivas do poder público que definem e planificam essas políticas. A gestão de Gilberto Gil (2003-2008) no Ministério da Cultura (MinC), continuada por Juca Ferreira (2008-2010), mudou o panorama das políticas culturais no país ao promover uma política pública baseada no diálogo com a sociedade. Em 2004, com a elaboração da proposta do Sistema Nacional de Cultura, foram instauradas as Câmaras Setoriais, dentre elas a de Dança, como um espaço de participação da sociedade civil formado por representantes da área, especialistas convidados e representantes governamentais. A partir desse ano, a Câmara Setorial de Dança inicia um diagnóstico da área, indicando a necessidade de levantamento de dados do setor e propondo diretrizes e ações. Esse trabalho culminou com a estruturação da versão preliminar do Plano Setorial da Dança (PSD), em 2009, cuja versão final foi concluída posteriormente pelo Colegiado Setorial de Dança.

 

Em 2010, o Colegiado de Dança, como órgão consultivo do Conselho Nacional de Políticas Culturais (CNPC) do MinC, definiu como ação prioritária, dentre as diretrizes presentes no PSD, a realização de um mapeamento nacional da dança.

 

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Nesse mesmo ano, a reivindicação do Colegiado para a realização do mapeamento foi aprovada pelo Comitê de Circo, Dança e Teatro do Fundo Nacional de Cultura (FUNARTE/MinC), entretanto não pôde ser contemplada no orçamento de 2011. No início de 2012 foi encaminhado novamente o projeto, para ser realizado via convênio de cooperação técnica com a UFBA. Porém, principalmente por ter sido um período de final de mandato, outra vez não foi efetivado. Em reunião realizada no “Dia Internacional da Dança”, em 29 de abril de 2014, com a então Ministra Marta Suplicy, os representantes do Colegiado Setorial de Dança trouxeram à tona mais uma vez a questão do mapeamento, e a Ministra assumiu o compromisso com a destinação de recursos para efetivação da primeira etapa desse mapeamento. Diante desse cenário, foi reestruturado o projeto e definidas para a 1ª etapa a investigação oito capitais, em cinco regiões do Brasil.

 

 

Os resultados da 1ª etapa da pesquisa estão no site do “Mapeamento da Dança” (http://www.mapeamentonacionaldadanca.com.br/), onde está disponível para acesso e download gratuito um cadastro com 4.570 indivíduos, 677 grupos e 460 instituições, e um relatório com quase 2.000 páginas, contendo a análise das respostas dos questionários de 2.623 indivíduos, 351 grupos e 241 instituições atuantes em dança nas oito capitais. Nesse “relatório” são apresentadas informações relacionadas ao perfil socioeconômico dos participantes da pesquisa, formação em dança, tipo de produção artística realizada, forma de remuneração, avaliação das políticas para a área, entre outras.

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Em relação apenas aos agentes da dança (indivíduos), a pesquisa mostra, por exemplo, que os participantes do estudo têm idade média de 31,39 anos; 64,5% se apresentam como do gênero feminino, 31,9% como masculino e 0,6% se autodenominam fora desse par heteronormativo. Quanto à cor ou raça, 44,3% indicam a opção branca; seguida de parda, com 33,6%; e de preta, com 16,1%. Os demais 6% estão distribuídos entre amarela, indígena, mestiça, afrodescendente, morena e negra. Quanto ao estado civil, um percentual significativo, 69,9%, afirmam serem solteiros(as), 24,2% casados(as) ou com união estável, 7% viúvos(as) e 5,2% desquitados(as) ou divorciados. É significativo o percentual dos respondentes que não têm filhos: 73,6%.

No que tange à escolaridade, 25,2% possui nível superior completo ou incompleto (exceto dança), 13,2% especialização completa ou incompleta (exceto dança) e 16,2% possui ensino médio completo. Quanto à formação específica em dança, 17,5% dos respondentes possuem nível superior completo ou incompleto em dança, 9% pós-graduação stricto sensu – até doutorado completo em dança, 5,5% tem curso profissionalizante em dança e outros 4,1% especialização completa ou incompleta em dança. Quanto à faixa de renda familiar mensal bruta, 53,3% dos respondentes informaram que recebem de 1 a 2 salários mínimos e 15,3% de 2,1 a 5 salários mínimos, correspondendo essas duas faixas de renda a mais de 60% dos respondentes.

 

 

Considerando-se as perguntas relacionadas às políticas públicas e à participação social, é interessante notar que apenas 25,5% dos indivíduos participam de associações, fóruns ou de outras formas de organização da classe de dança, os demais 74,5% não participam, o que demonstra que ainda é necessária uma maior mobilização e organização da área. Um percentual maior, 43,2%, no entanto, possui registro profissional no Sindicato dos Artistas e Técnicos do Espetáculo (SATED) e/ou Sindicato de Dança, muito em decorrência da exigência dessa documentação pelos Sindicatos, em muitas das capitais pesquisadas, para a autorização das apresentações artísticas em teatros e espaços culturais.

Em relação às políticas culturais municipais, estaduais e federais, os indivíduos foram indagados sobre seus conhecimentos sobre essas políticas, se as consideram satisfatórias, se abrangem a diversidade da produção de dança, se fomentam as produções solísticas e se já foram beneficiados(as) com alguma dessas políticas.

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Perguntados inicialmente se conheciam as políticas culturais dos seus municípios para a área da dança, 77,4% dos respondentes afirmam que desconhecem e apenas 22,5% que conhecem. Quanto à satisfatoriedade dessas políticas em relação à dança, apenas 3,1% as consideram satisfatórias, 40,8% afirmam serem parcialmente satisfatórias e 52,5% insatisfatórias. No que se refere à diversidade da produção de dança, 4,9% afirmam que as mesmas abrangem essa diversidade, 34,9% que abrangem parcialmente, enquanto que 57,5% consideram que não abrangem. Já em relação ao fomento às produções solo em dança, 9% dos respondentes acreditam que as políticas culturais do seu município fomentam a produção solo, 38,1% dizem que fomentam apenas parcialmente e 45,3% que não fomentam. Do total de respondentes, 46,3% afirmam que foram beneficiados(as), direta e/ou indiretamente, com alguma das políticas culturais dos seus municípios, enquanto 13,6% parcialmente e 40,2 afirmam que não.

 

Questionados em seguida sobre as políticas culturais dos seus estados para a área da dança, apenas 19,3% afirmam conhecer tais políticas, enquanto que 80,7% afirmam que desconhecem. Entre aqueles que conhecem essas políticas, um percentual muito pequeno, 3,4%, as consideram satisfatórias. Para 40,4% elas são parcialmente satisfatórias e 53,8% consideram-nas insatisfatórias. Em relação à diversidade da produção de dança, 6,5% afirmam que as políticas culturais de seu estado abrangem essa diversidade, 36,5% consideram que abrangem parcialmente e mais da metade dos indivíduos afirmam que não abrangem. O quadro não muda muito quando questionados se essas políticas fomentam as produções solo, apenas 6,9% dizem que sim, 38,5% parcialmente e 46,5% que não fomentam. Quanto a terem sido beneficiados(as), direta e/ou indiretamente, com alguma das políticas culturais dos seus estados, 46% afirmam que foram, 12% parcialmente e 42% que não.

 

Com resultados muito próximos em relação às políticas municipais e estaduais, também no que se refere às políticas culturais federais para a dança foram poucos aqueles que afirmam conhecer tais políticas (19,4%), a maioria desconhece (80,6%). Em relação à satisfatoriedade das políticas culturais federais para a dança, apenas 3,9% das consideram satisfatórias, 45,1% parcialmente satisfatórias e 48% insatisfatórias. As políticas federais, na opinião dos indivíduos que participaram da pesquisa, abrangem pouco a diversidade da produção de dança: apenas 7,7% afirmam que abrangem, 40,9% dizem que parcialmente e 47,6 que não. Em relação ao fomento das produções solo em dança, para 9,4% as políticas federais não fomentam esse tipo de produção, 40,4% afirmam que fomentam parcialmente e 40,9% que não fomentam. Vale registrar, no entanto, que mesmo tendo um ponto de vista crítico em relação às políticas federais, 42,5% dos respondentes afirmam que foram beneficiado(a), direta e/ou indiretamente, com alguma das políticas culturais federais, 10,8% que foram parcialmente e 46,7% que não foram beneficiados.

 

 

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É interessante perceber que, apesar de os editais serem um dos mecanismos de incentivo a cultura mais conhecidos dos artistas e produtores, apenas 20,8% dos respondentes inscreveram projetos em editais nos anos de 2013 e 2014. A grande maioria, 79,1%, não inscreveu nenhum projeto em edital nesse período. Já em relação à inscrição de projetos em leis de incentivo municipais, estaduais e federais, tem-se que 34,1% dos respondentes da pesquisa tiveram projetos certificados nos anos de 2013 e 2014. Desses que tiveram seus projetos certificados, apenas 25,1% conseguiram captar.

 

Esses resultados, que trazem apenas dados referentes aos indivíduos, indicam que ainda há um grande desconhecimento por parte dos agentes da dança no que se refere às políticas culturais e setoriais, em qualquer âmbito (municipal, estadual ou federal).

 

 

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Também que, apesar dos avanços, essas políticas são consideradas satisfatórias por uma parcela pequena dos respondentes, e que a diversidade da produção da dança e as produções solo devem ser foco de uma maior atenção por parte dos gestores públicos. O edital, enquanto principal mecanismo de financiamento da produção em dança, não é considerado acessível para todos e nem vem cumprindo, de acordo com os respondentes, diretrizes que hoje são consideradas fundamentais para que esse instrumento cumpra seu papel, ou seja, contemplar uma diversidade de estéticas, não priorizar apenas artistas ou grupos reconhecidos, promover uma distribuição mais equilibrada dos recursos públicos entre as regiões brasileiras e entre os segmentos artístico-culturais.

 

Finalizada a pesquisa e divulgados os seus resultados, a perspectiva agora é que os dados e informações registrados no relatório sejam utilizados como parâmetro orientador para a construção de políticas para a dança no âmbito nacional e nos locais pesquisados. Espera-se ainda que o Mapeamento realizado em oito capitais brasileiras (Belém, Curitiba, Fortale-

za, Goiânia, Recife, Rio de Janeiro, Salvador e São Paulo), possa vir a abranger todas as capitais do país. Somente dessa forma, a partir da construção de indicadores de cada setor artístico cultural, de consultas e estudos que considerem seus agentes, poderemos avançar em muitas das questões apontadas no relatório da pesquisa Mapeamento da dança: diagnóstico da dança em oito capitais de cinco regiões do Brasil.

 

 

 

Encontro dos pesquisadores do Mapeamento da Dança

 

Informações:

mapeamentodanca.coordenacao@gmail.com